Os resistentes


fiodeprumo,

 

Aquietem-se, porque não é de política que vou falar. É de homens. Os que guardo nas minhas lembranças. 

Aquietem-se de novo, porque também não é acerca dos meus amores que vou escrever. Esses estão no meu coração, guardadinhos a sete chaves. Vou falar-vos dos homens que estão na minha memória e que embalaram as minhas paixões.

São vários. Na música, quatro: Sinatra, Montand, Cohen e Aznavour. Georges Moustaki é da mesma fornada mas não ocupava o lugar dos outros. Vinha na segunda linha. Acaba de morrer. Ficará o registo da sua voz, já que o da imagem se degradou muito. Quando veio a Lisboa já era um velho. Ao contrário dos outros dois vivos que citei, nos quais o passar dos anos foi menos cruel.

No cinema Redford mantém-se entre aqueles por quem a minha pressão sanguínea acelerou. E vou ficar triste, se ele partir antes de mim.

Estas figuras contam nas suas rugas – e ainda há quem queira apaga-las! – a história de um meio século, ao qual eu tive a sorte de pertencer. As vozes, essas, com os olhos fechados, eu distinguiria qualquer delas à distância.

Redford, no meu caso, personifica “aquele” homem com quem se tem o direito de sonhar. Aos vinte, aos trinta, aos cinquenta, aos noventa! Felizmente, o coração só envelhece nos electrocardiogramas…

10 comentários em “Os resistentes”

  1. Querida Helena

    Compreendo-a tão bem. Eu sou um pouco mais jovem do que a Helena, isto é, mais jovem no Cartão de Cidadão (confesso que Bilhete de Identidade é bastante mais poético) e partilho o mesma admiração, paixão, encantamento, o que for, pelo Robert Redford . Conheci-o numa matiné de um cinema de província, o meu Cinema Paraíso, conheci-o e comecei a sonhar. Aquela era a figura acabada do príncipe encantado. Procurei-o por todo o lado e foi numa página de O Século Ilustrado que o encontrei. Recortei-o – um bocadinho de papel que comigo amareleceu, esgaçou, perdeu a cor das letras e, por fim, com muita pena minha, se desfez, também o “meu” Robert Redford já era uma mancha muito borrada num papel de má qualidade. Vi – quase – todos os seus filmes. Cresci com Dois Homens e Um Destino, de mãos dadas com a minha Avó, tremi com as minhas amigas nas Brancas Montanhas da Morte e com o meu pai numa das muitas conversas que tive e ainda tenho, discuti sobre o Bem e o Mal, depois de termos visto A Golpada, claro que a música também não nos deixou indiferentes. Mas foi com o Great Gatsby e no “escurinho do cinema”, com o meu príncipe de então, que eu me rendi – alma e coração – ao belíssimo Gatsby – ( Ai! Leonardo Di Caprio muito pão com côdea ainda terás tu comer!).Eu já gostava do Jay , confesso, mas o Robert Redford deu-lhe um brilho maior. Sempre com lágrimas nos olhos já vi não sei quantas vezes África Minha. Sozinha e com os meus filhos. Isto, só para citar “os” filmes que não são da minha vida – nunca percebi muito bem esse conceito – fazem parte da minha vida. Cresceram comigo e com as minhas memórias, recordações, fantasias. Tudo isso. O senhor tem muitas e belas rugas, continua a fazer filmes, a realizar filmes a ser um garboso actor de cinema que ainda faz senhor muitas raparigas. Como nós. Não, o coração não envelhece, porque felizmente ainda há um ou outro príncipe que nos consegue montar num qualquer cavalo encantado e levar para mundos distantes. Só nossos. Não morras ainda Robert – fazes cá muita falta.

  2. Junto a esses (e só para falar dos franceses) Brel – o meu mais-que-tudo – e Reggiani. Amores embalados por poemas, músicas e vozes deste calibre são sempre eternos. Enquanto duram, pelo menos. 🙂

    1. Brel é belga, Ana.
      Apesar de ter trocado o plat pays pela Polinésia Francesa!

      Em contrapartida Moustaki trocou o sol alexandrino pela chuva parisiense.

      Gostos…

      Obrigado por este post Helena.

      Moustaki, a sua voz, as suas canções, trazem-me calor e esperança nesta cidade cinzenta e chuvosa.

      1. Bem sei que Brel é belga, Pituxa (queria dizer francófonos e disse franceses). Se bem que, em boa verdade, Brel não é belga nem francês… é do mundo. Tal como Moustaki, porque os grandes artistas acabam por ser um pouco de todo o lado.

        Acho que não conseguiria viver muito tempo em Bruxellas, Pituxa. Definho, sem sol. Conseseguiu adaptar-se bem?

  3. Moustaki é a minha adolescência inteira, mas Brel e Reggiani também me têm embalado a vida 🙂

    Isabel Mouzinho

  4. Entusiasmei-me com a referência ao Robert Redford e não comentei a morte de Moustaki, imperdoável. Lamento a sua morte, não porque fosse um dos “meus artistas” de sempre, mas porque se impôs como uma referência.Um arauto de uma geração de idealistas que eu aprendi a respeitar. Já o conheci velho e cansado, mas resistente. Sim, a sua obra resistirá, pelo menos na memória dos que, como eu, aprenderam, isto é, conheceram a música e a cultura francesas. E outras. Tenho dado a conhecer aos meus filhos estas vozes( Moustaki, Regiani, Brel ), porque acredito que sem referências não há conhecimento que resista. A cultura ajuda a manter direita a coluna vertebral e permite-nos acreditar que o mundo não tem a dimensão da nossa “marquise” – eu não tenho marquise, felizmente.
    Resistiram às mudanças e aos dissabores da minha vida, dois LPs de vinil de Moustaki, escusado será dizer que os temos ouvido à exaustão nos últimos dias. Que outra homenagem lhe poderemos prestar?!.

  5. Ai! Ainda não consigo controlar o ritmo do entusiasmo da escrita com o teclado do computador. Que aborrecimento! Dei conta que o texto que escrevi sobre Robert Redford tem um erro – onde se lê “senhor”, deverá ler-se “sonhar”. No texto sobre Moustaki escrevi Reggiani só com um “g”. Juro que li os textos mais do que uma vez e submeti-os ao corrector ortográfico. Li e reli. Neste Blog, tenho respeitado a antiga ortografia, em ‘Roma faz-te romano’. Desculpem, se por acaso, encontrarem mais algum erro.
    É o entusiasmo.

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