Os palavrões do costume


Pedro Correia,

Vejo um debate na RTP. E lá surgem, em catadupa, os palavrões do costume: “janela de oportunidade”, “novo paradigma”, “sustentabilidade”, “rating”, “despesismo”, “alavancagem”, “efectivamente”.

Chego cansado ao fim do programa. E não é por causa da crise: é por causa deste palavreado tecnocrático que a toda a hora nos invade o domicílio, através da televisão, transformando o nosso belo idioma num linguajar insuportável.

Interrogo-me: serei só eu a pensar assim?

24 comentários em “Os palavrões do costume”

  1. E que dizer da nova moda praticada até à exaustão em todos os canais pelos jornalistas de serviço, que em pé soltam 1/2 dúzia de palavras, voltando-nos as costas de pronto, para aparecerem mais à frente com novo cenário em fundo, melhor penteados e escovados.
    Ou a cansativa pressa dos segredos da exclusividade, que repetem vezes sem conta a propósito de tudo e de coisa nenhuma:
    A SIC sabe; a RTP sabe; a TVI sabe.
    Só contaram para eles à escolha conforme a encomenda !?

  2. Ontem, efectivamente, falava sobre o despesismo que o não confinamento proporcionava por falta de alavancamento entre homem e mulher . O confinamento foi uma janela de oportunidade para alterar o rating e oferecer uma panorama de maior sustentabilidade relacional. Este é o novo paradigma social.

  3. Pedro Correia atrasado nas trends. Mas eis que aqui estou para ajudar a alcançar um melhor lifestyle.
    Há muitos, muitos anos atrás, quando dava o sono à malta em algumas aulas, específicas, jogávamos aquilo a que chamávamos o bingo das palavras (ou das tretas, não me lembro da real terminologia).
    Basicamente, escolhíamos um conjunto de termos em voga (sinergia, benchmark) e preenchíamos o cartão. O primeiro a preencher o cartão ganhava.
    Como vê, a prática de detectar tangas já vem do século passado.
    Pode fazer o mesmo e jogar com família e amigos, ou então tentar a verão americana, em que a cada palavra-chave proferida, bebem um penalty de aguardente. O último a ficar de pé ganha.

    A arte do papaguear (da repetição de termos pelo conhecido animal), ou ecoar, sempre foi trabalhada pelas chefias incompetentes; tive um superior que a cada frase lá debitava um “link”, “fonte de dados”, “extracção”, “sistemas a comunicar entre si”, “integração” ou o típico “as redes”. Nunca chegou à interoperabilidade, reformou-se antes.

  4. Não Pedro Correia, não é.
    Pela minha parte compenso o que ouço com a mesma quantidade de palavrões dirigidas aos mesmos.
    Pena não poderem ser devidamente publicados, mas pelo menos fico aliviado.

  5. Quanto aos desafios e oportunidades, é novilíngua. Actualmente ninguém está desempregado, ou está entre desafios profissionais, ou em busca de oportunidades ou projectos

  6. Todas essas expressões – que alguém algum dia apelidou Idiotismos – encontram-se em todas as fases da vida e em todas as ciências proclamadas das academias. São nuvens passageiras que com o vento se vão, sendo depois substituídas por outras mais acústicas e atuais nas aparências. Os verdadeiros atentados ao nosso belo idioma – escrevo NAO – são aquilo que se chama contaminação linguística, valentes saraivadas duma ignorância generosa que interfere no cognitivo, no manuscrito, no debitado em oral, que acabam por fixar-se à gramática como mexilhões alados. A História estará repleta de exemplos deste género. Por outro lado, convém não esquecer que todos os debates televisivos são constituídos pelos mesmos personagens há pelo menos 30 anos (com avença nas várias tvs, jornais, revistas, a regurgitar sardinha fresquinha ad nauseam – é obra) a que entretanto se foram juntando aquilo a que chamei e chamo os novos velhos, pelos tiques, pela soberba, pelo guarda-roupa, pela falta de escrúpulos. Cá, como lá, convém não esquecer. Os afonsinhos do condado não são os únicos palermas à beira-mar plantados. Btw, dp deste extenso comentário que o sabichão do polígrafo aponta como fake mas… está na hora dum update ao feed, or whatever, a acompanhar cappuccino com éclair, tipo brunch. Quanto mais tecno mais grunhos.

  7. Para desenjoar, pode ver um jogo do Europeu na televisão.
    Para além de alguns desses (paradigma, janela de oportunidade, ou o PRAGMATISMO e ASSERTIVIDADE), pode apanhar as entre-linhas, a basculação, e a largura do controle da profundidade

  8. “Interrogo-me: serei só eu a pensar assim?”
    Depende, quem é você?
    Se você um é não binário e pertence à inconformidade de género ou é agénero ou neutrois ou bigénero ou poligénero ou género-fluido ou intergénero ou demigénero ou trigénero… pensa de uma maneira.
    Agora se você ainda é da cisnormatividade e continua um binário de género, heterosexual, sportinguista, e gosta de uma boa febra. Então lamento dizer mas você está em vias de extinção.
    Ou agarra “efectivamente” esta “ janela de oportunidade” para mudar a forma de pensar e aproveita a “alavancagem” para aumentar o seu “rating”ou então fica sem “sustentabilidade” e cai a comunicação.

  9. Infelizmente já poucos fazem remoques à pretensão. Recordo bem a referência antiga aos tiques de professora de liceu: referência jocosa às pessoas que empregavam termos caros, técnicos ou na moda nas conversas banais.

    Falta o equilíbrio. Reparo na pobre linguagem verbal e escrita, onde são aceites todos os termos de maré – e as marés da linguagem hoje podem ser mensais ou semanais – de tal modo que se num qualquer dia nos dedicarmos a ouvir ou ler duas dezenas de pessoas diferentes, topamos com vocábulos repetidos à exaustão, como se decalcados de uns para outros. São os tais “conceito”, “resiliência”, “paradigma”, “mais-valias” “disrupção”, “empoderamento”. Juntando a este linguajar o excesso de estrangeirismos a coisa torna-se medonha.

    A ideia deve ser estar em cima do acontecimento: o medo de parecer alheado da realidade leva quem fala e escreve a esta necessidade de encosto na maioria. Sinto que é uma coisa inconsciente e isso, para ser franca, ainda é mais assustador. Onde andará a consciência e o cunho de cada um? Não só os temas têm que ser os do momento, como os termos, as expressões, as interjeições.

    1. “Onde andará a consciência e o cunho de cada um? “
      Possivelmente a pensar onde anda a consciência e o cunho da Isabel Paulos.

  10. Leopedro, mas ainda á pior que o linguajar insuportável: a cobertura/leitura cheia de entusiasmo do pivot (pivot?) da RTP1. O “escritor que se farta” parece que está num palco de teatro a representar os acontecimentos daquele dia. Ele altera o timbre de voz como que a perguntar e a responder, e ainda mais incrível é quanto entrevista alguém quer que o entrevistado responda às suas perguntas, quase à político/partidário, de coscuvilheiro. Ficou célebre aquela pergunta a Saramago (a insinuar a ideia dele ser comunista): em que vai gastar o dinheiro ganho com o Prémio Nobel?
    Não falando naqueles repórteres da cmanhosatv “a senhora chegou a ver o fogo a arder?”, “a menina contou como foi violada?”, “os gatunos fugiram num automóvel em andamento”, e, também, não falando naqueles erros de régua de pau nos títulos das reportagens.

  11. Não, não é… Trabalho num desses locais em que se elabora, sempre na óptica da inclusão e diversidade, a implementação projectiva e fundacional do pós pandemia.
    Houve uma altura em que a neblina mental era tanta, que chegava a casa e fazia listas com nomes de coisas concretas: prato, pássaro, rolo etc… para me ligar à realidade e não pirar de vez. A maior delas encheu uma pagina A4.
    Já aprendi a defender a sanidade mental de outras formas, mas de vez em quando lá tem de ser.

  12. Boa tarde Pedro Correia.
    A minha resposta à sua pergunta – não está só relativamente a esse “tema”.
    Vejo pouca televisão, raramente compro jornais ou revistas em papel, tenho uma assinatura digital de um jornal, leio muito do que é possível pela internet quer nacional quer internacional.
    E leio. E medito sobre este e outros panoramas. E, por isso, há dias escrevi no meu “Chapéus” um desabafo sobre este tipo de coisas. É como estamos.
    Bom fim de semana. Saúde.
    António Cabral

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