Os novos pelourinhos em papel


Pedro Correia,

556e148929aee5c43bf0d1c805558e4e[1].jpg

Ela era a estrela do momento nos ecrãs televisivos. Ele era o ministro em ascensão no firmamento político cá do burgo – culto, apessoado, bem falante. Tiveram os seus dias de glória na imprensa cor-de-rosa – a que dispõe de carteira profissional sem nunca se sujeitar ao severo controlo deontológico que baliza a conduta das restantes publicações.

Superado esse tempo de esplendor na relva, virou-se a página. Veio o estupor nas trevas, em total contraste com as soalheiras manhãs de outrora. A imprensa continuou atenta, mas já sem vestígios do tom rosado. Essa imprensa que só é cordata e amável para quem está sob o foco das luzes da ribalta. Aos outros, aos que estão na sombra e no silêncio, condena-os sem os escutar, sentenciando-os sem remissão a penas com efeitos perpétuos em forma de manchetes e capas de onde está ausente qualquer presunção de inocência dos visados.

 

Muito se tem escrito, em tons de justa indignação, sobre o apedrejamento mediático daquela profissional dos ecrãs televisivos que tem visto a sua vida indecorosmente devassada, sem o menor respeito pela reserva da intimidade garantida no texto constitucional a todos os cidadãos portugueses – ao ponto de até os seus dois filhos menores serem utilizados como arma de arremesso contra a própria mãe.

Falta sublinhar um dos aspectos mais lamentáveis deste triste caso: na primeira linha desse apedrejamento têm figurado as chamadas revistas femininas – escritas por mulheres, dirigidas por mulheres.

Questiono-me o que sentirão elas da mulher concreta que visam, em capas sucessivas, sem remorso nem piedade. Questiono-me se alguma vez farão esse imprescindível exercício intelectual inerente ao jornalismo responsável que nos manda colocar, ao menos por instantes, no papel dos visados pelos nossos textos e pelos nossos títulos.

 

Algum do pior machismo vem surpreendentemente de onde menos se espera. Mulheres contra mulheres – tolerantes com eles, inclementes com elas.

Tanto se fala agora em mudança de mentalidades, mas aqui não vejo qualquer sinal de maturidade cívica ou conquista civilizacional: só vislumbro retrocesso a um passado de má memória. Os velhos pelourinhos dos nossos tetravós ressurgem hoje em forma de papel impresso. E todos os dias reclamam novas vítimas.

36 comentários em “Os novos pelourinhos em papel”

  1. o severo controlo deontológico que baliza a conduta das restantes publicações

    Uau!!! Que “restantes publicações” são essas que exercem tão “severo controlo deontológico”? Dê exemplos sff.

  2. Algum do pior machismo vem surpreendentemente de onde menos se espera. Mulheres contra mulheres

    Isso não é nada inesperado. É um facto corriqueiro, mil vezes observado, que as mulheres têm muito maior dificuldade em cooperar honestamente e consistentemente entre si do que os homens. É um facto mil vezes observado que as mulheres têm mais tendência a sabotar o trabalho de outras mulheres do que os homens têm de sabotar o trabalho de mulheres.

    Não se trata de machismo da parte das mulheres, trata-se simplesmente de dificuldade em colaborar.

    1. mas foi observado (ou observados) mil ou mil e duas vezes? está devidamente documentada, presumo, essa conclusão proto-científica, pois sim?

    2. “É um facto mil vezes observado que as mulheres “

      Aposto que não conhece nem 10 mulheresl!!

      Relembremos que a sua matéria é mais desta e não doutra:

      “O que acho importante, isso sim, é que um homem tenha um bom pau.”

      Luís Lavoura, dixit.

    3. Não é machismo feminino, é falta de carácter e de isenção (se calha, sempre é machismo a tendência para defender o homem).

      Foi um processo difícil para ambos, não é bom ver os nossos defeitos expostos. Para além da mágoa que causa (em algumas pessoas causa mesmo um rancor de morte), há a devassa. E os filhos. Porque também se sofre por eles. Hoje, a imprensa é um déspota irracional.
      Tenho pena e respeito os quatro. Não li revistas nem notícias, mas os telejornais hoje também se fazem com este teor. Julgo que há-de haver um nó naquelas cabeças. E a mulher parece-me uma pessoa frágil e com poucos esquemas de sobrevivência psíquica.

  3. condena-os sem os escutar, sentenciando-os sem remissão a penas com efeitos perpétuos em forma de manchetes e capas de onde está ausente qualquer presunção de inocência dos visados

    Refere-se a José Sócrates?

  4. Texto magnifico. Os mesmos reparos para os programas televisivos de “fofoqueiras” (os) indecorosos…. até há um que tem uma “arbitra”:— mostra cartões às ditas famosas.
    …..
    Sr Luis Lavoura: – Três comentários em 5 segundos, a colheita irá ser bastante fértil !!!!

    1. Provavelmente estará muito ocupado com mais uma anál ise estatística essencial para a humanidade na feira técnologica (http://www.speakerscorner.org.pt/as-casas-de-banho).

      PS: Escolheu muito bem o nome do blog! Nunca encontrei gente lúcida com discurso coerente em “speakers’ corners”. Felicitações Sr Luís Lavoura.

  5. Condessa de Vinhó e de Almedina :

    “Não fica mal a uma mulher sêr humilde para com o marido. Isso exalta-a em vez de a rebaixar. Não masses o teu marido com os detalhes do governo da casa. A vida externa pertence ao homem a vida interior á mulher. Se tivéres filhos faz-lhes sempre vêr que o pae é a primeira pessôa na casa.”

    Mais recentemente fundada e apoiada por mulheres (sobretudo beatas e das classes ilustradas ):

    Obra das Mães pela Educação Nacional (OMEN) de filiação voluntária, fundada para neutralizar as correntes femininas de oposição ao regime.

  6. Tanto ela, a estrela dos ecrãs, como ele, o tal que até se previa estar em ascensão, não valem um tostão furado. Em português do mais vernáculo, não valem uma merda. À pessoa que escreveu este texto, agora em comentário, ficava bem se identificasse os ditos, o nelito e a babi.
    Cuidado com o trânsito rodoviário.

  7. Andamos com falta de assunto para dar relevo a folhas de couve impressas?

    Acordou agora para a ausência de presunção de inocência dos visados pela orda pasquinzeira?

    Fale-nos da tentativa (falhada) da prisão de Puigdemont e das condições enviesadas em que as próximas eleições na Catalunha irão decorrer. Isso sim, é assunto que valha a pena abordar.

    Agora dar relevo a revistinhas rancolhas, tenha dó.

  8. Recomendo a leitura de uma boa história universal, de uma história da vida íntima e de uma história das mentalidades. Ficarão surpreendidos com com a banalidade dos comentários: sempre foi assim e sempre assim será; ou pelo menos durante muitos e longos anos. A tecnologia avança à velocidade da luz, mas a mentalidade humana é adversa à mudança. Por muito que nos iludamos, continuamos muito longe da imagem que nos é vendida todos os dias na imprensa cor de rosa ou de outras cores. Leiam as “Farpas” do Eça e constatarão que é mais actual que os editoriais do dia de hoje. Ou seja: uma mente arguta de há 150 anos vê mais longe que um jornalista comum do presente… E por aí adiante…

    Víctor Moreira

    1. Não é preciso ler as Farpas. Basta assistir a um programa da National Geographic.

      Mas uma coisa é certa. A Decadência e com ela a Aniquilação tardam em chegar.

  9. Brilhantemente exposto , Pedro.
    Pessoalmente creio que na devassa da vida privada pelos media, quanto mais suja for a roupa, melhor.
    Interessa lá se é de uma mãe, de um pai, de uma avó octogenário, é matéria suja e a imundície, principalmente a imundície de carácter, vende e isso é tudo o que interessa. Importa lá se crianças sofrem com isto tudo. O lucro fala mais alto.
    Pessoalmente, apesar de acérrima defensora das mulheres, não me revejo em certos femeninismos.
    Revejo-me sempre na essência da família e no sentido de responsabilidade, tolerância, dever e respeito, e na sua reciprocidade.

  10. Numa “civilização” em que impera a inveja e maledicência NADA me espanta!
    “Quem está no convento é que sabe o que vai lá dentro!”
    Mais …
    Há muitos(as) moralistas que deviam “olhar mais para a sua vida” do que para a vida alheia e para o “diz que diz”!
    Só da falta de cultura e civismo, as tais “revistas/programas de TV sobre a vida alheia” sobrevivem! Tão simples como isso!

  11. ” Talvez seja por isto que, não querendo ser igual aos homens, também não queira ser igual a um demasiado vasto grupo de mulheres. “

    http://agaffeeasavenidas.blogs.sapo.pt/a-gaffe-assediada-727149

    Entrando noutro tema agradecia ao Pedro Correia ou a outro delituoso que escreve-se uns posts sobre as eleições no PSD explanando dentro do possível os respectivos programas e tendências / opções ideológicas dos candidatos.

    WW

    1. “…delituoso que escreve-se uns posts sobre as eleições …”
      Eu ofereço-me para o esclarecer sobre os programas e tendências, etc. dos candidatos. Com um condição: primeiro você aprende português.

  12. relativamente ao 1º paragrafo, principalmente, denota um conflito com o jornalismo institucional. Ainda bem, pois noutra oportunidade verei o Pedro a fomentar a criaçao de uma associaçao dos outros ditos jornalistas. Enquanto deduzo que, o Pedro nao esta no top do jornalismo, e suponho que por opçao. No que houver de equivoco nesta apreciaçao, de todo o modo nao é grave.

    E felicito o Pedro por, com base no que escreve, ir contra a corrente. Sim, senhor !

    O Pedro sabe do que fala, eu só acho que nao será tanto assim, que exagera. Nao tenho lido nada, nem me interessa, excepto (repentinamente nao consigo escrever a palavra ) os titulos relativos ao tribunal.

    Sei que carrilho foi, inicialmente, condenado. E como o Pedro nao é polemico, pois nao elogia nem critica um ou outro, disse.

  13. Continuam a usar os filhos como arma de arremesso. A guarda dos filhos menores devia ser, em regra, partilhada. Eles não têm culpa da separação dos pais, nem deviam ser prejudicados com a mesma.

    Petição para levar o tema a discussão à Assembleia da República: https://igualdadeparental.org/peticao/

    1. Meu caro é a mãe que os carrega dentro. E é o pai na esmagadora maioria dos casos que se põe ao fresco. Que não quer saber. Nem da pensão de alimentos.

  14. Mta tinta se tem desperdiçado sobre 2 personagens k não valem merda nenhuma.
    Gastem tinta,toners,tempo c/ algo bem + importante no presente (hj mesmo), refiro-me à SECA,porra!
    Isso sim é k vale a pena abordar,discutir e alarmar; Sem água pa beber,regar,tomar banho,pk vai ser racionada brevemente,não duvideis,ides continuar a relatar a vida deste casal de “wrestlers” mexicanos de 5ª categoria?
    Engrandeçam m/ srs e minhas sras e desliguem os holofotes a estes 2 tristes armados em cagões,senão vejamos:

    A Barbie é no mínimo instável e cada vez piora + ,veja-se a última façanha da dita que chega a casa ás 500 e c/ 1 só estacionamento,abalroa 9 viaturas!
    Eu,nem bêbado nos carrinhos de choque consigo bater em tantos numa viagem só.
    O Carrilhito,supostamente 1 senhor público,ex-ministro da cultura c/ idade pa ter juizo,intekigência,moderação e recato k o caso exigia, teve a diplomacia de 1 elefante numa loja da Vista Alegre.
    Resultado?
    1 peixeirada das antigas e a lavagem da roupa interior no tanque comunitário mas c/ nódoas indeléveis.
    Rescaldo da coisa:
    VENCIDOS- ambos
    LESIONADOS-os filhos
    VENCEDORES- os média e a mérdia das revistas cor-da dita
    Pessoalmente,não gostei absolutamente nada do espectáculo e vou pedir 1 indemnização p/ danos intoxicantes, ao Ministério da Limpeza Ético/Moral.
    Questiono-me ainda sobre pa k serviu td isto? A kem serviu? Kem lucrou? Kem esteve ao comando dos fios invisíveis?
    E o casal Ribalta,pensou 10 seg no efeito bola de neve k isto ia ter e soterrar pa sempre a auto-estima dos putos??
    Óbviamente não; Demitiram-se da obrigação de cuidado e zelo protector k cabe aos pais e foram tmb eles soterrados,só k c/ 1 peq. diferença, ESTRUME,não neve.
    Parafraseando a Ana Bola, ” faz-me espéce” 🙂
    Porca Miseria,digo eu!
    Nota Rodapé:
    Fica o meu escatológico “delito de opinião” sobre o tema; É tudo 1 grandessíssima merda.
    Não valem merda nenhuma os intervenientes, a justiça, os pelourinhos de papel,os digitais e por arrasto a vox-populi !

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *