Os novos censores andam aí (5)


Pedro Correia,

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John William Waterhouse (1849-1917), pintor que esteve em voga na Inglaterra vitoriana, certamente nunca imaginou que um óleo da sua autoria, pintado em 1896, viria a causar tanta celeuma cento e vinte e dois anos mais tarde, nestes dias de neopuritanismo pseudo-feminista em que vivemos.

Hilas e as Ninfas acaba de conhecer súbita celebridade graças ao ímpeto censório de Clare Canneway, a conservadora (palavra apropriadíssima) da Galeria de Arte de Manchester – museu público instalado numa cidade de sólidas tradições liberais, hoje cada vez mais comprometidas.

A virtuosa senhora ordenou a remoção do quadro, onde se vislumbram sete jovens em topless. Motivo invocado: a maléfica pintura promoverá a “coisificação do corpo da  mulher”, algo que faz tremer a horrorizada conservadora, dizendo-se envergonhada “por não ter tratado deste assunto mais cedo”.

A polémica não tardou no espaço mediático, forçando as autoridades municipais a devolver a tela à maculada parede. Mas a controvérsia continua. “Vivemos um pesadelo vivo com tanta correcção política, histórica e artística”, alarma-se Rachel Johnson no Mail on Sunday. Jonathan Jones, crítico de arte do Guardian, inquieta-se com este surto de pudicícia: “O próximo será Picasso?”

Não é preciso dar-lhes ideias: as novas brigadas censórias permanecem vigilantes.

 

38 comentários em “Os novos censores andam aí (5)”

      1. Não, fazer-lhe uma extensão. Já não bastou o homem ter derrotado um gigante com uma fisga, ainda lhe deram com aquilo….haja limites na indecência

  1. Eu prefiro falar dos velhos censores.
    O cardial de Lisboa, autoridade máxima da Igreja em Portugal, recomenda abstenção sexual aos recasados.
    Provavelmente não proíbe porque é difícil controlar/verificar/certificar.
    Muito mais absurdo!
    João de Brito

    1. Muitos punham esperanças nesse cardeal. Diziam-no intelectual…um palhaço…se pudesse ordenava missas em latim e de costas para o coro.

    2. “A violência desta exigência, a sua extrema desumanidade, a chantagem religiosa, a intromissão na vida privada, a violação da consciência e, finalmente, a sua inexequibilidade, transforma-a na atitude menos cristã de que há memória na História recente da Igreja Portuguesa”

      http://visao.sapo.pt/opiniao/sexto-sentido/2018-02-08-A-Igreja-anti-Cristo

    3. “Poderia tratar-se de uma recomendação vinda de um sacerdote católico da velha escola, já com alguma idade e completamente senil. Ou de um frustrado sexual, com problemas não tratados de desempenho ou ressentimentos afetivos”

      E que bons resultados têm advindo do celibato.

  2. Recuso-me, subconscientemente, a escrever cardeal/bispo da mesma maneira que escrevo ponto cardeal: é que este orienta e aquele desorienta.
    Daí o erro.
    Peço desculpa!
    João de Brito

  3. Revolucionária.
    A “objectivação do corpo da mulher” é uma das narrativas do feminismo politicamente correcto uma das táticas do Marxismo para controlo da linguagem.

    A propaganda Marxista feita pelo jornalismo tem consequências. Agora fazem-se de inocentes.É só ver quem escreve artigos no The Guardian.

    ” Ai que coisa mais linda mais cheia de graça…”

      1. É verdade que teve uns afloramentos com o Fascismo Brasileiro mas era mais boémio.

        As marchas do carnaval brasileiro serão certamente manifestação da “masculinidade tóxica”…

        E os grandes momentos jornalísticos da Reuters, certamente merecedora de um Pulitzer
        https://www.reuters.com/article/us-usa-dogshow-gender/glass-ceiling-for-dogs-males-win-westminster-almost-twice-as-often-idUSKBN1FT1FB

  4. “em topless” não é demasiado séc.XXI?

    Não sei porquê, mas isto soa-me a estratégia de marketing, provavelmente vai levar muitas pessoas a querer conhecer a Galeria de Arte, a pesquisar e querer saber mais, sendo por aqui, a senhora em questão passa automaticamente de conservadora a senhora muito esperta nisto de bem saber gerir “arte”.

      1. O que nos falta ver ainda, em nome da moral e dos bons costumes? Retirar os quadros dos museus, derrubar as esculturas de nús, ou, quem sabe, a Joana Vasconcelos piedosamente as cubra de crochet? Depois de tantos filmes, tantos livros, tantos direitos resgatados, tanto make love not war, drogas, sexo e Rock and Roll, queimadas de soutiens, filhos de produções independentes, filhos que não chegaram a ser porque o corpo é da mulher, todo o género de géneros humanos que a imaginação permite, bikini, topless, nudismo, Beauvoir / Sartre, Bardot, Sex and the City, etc, etc, depois de tudo isto, será que ainda iremos andar todas de burka? Sim, porque nada é mais eficaz como desincentivo do desejo, do assédio e da violação, ou seja, como desincentivo de pensamentos, palavras e obras pecaminosos contra a mulher, frágil e indefesa, do que a bendita burka. Ainda daremos razão a essas “culturas”? Sei lá … o importante é não coisificar o corpo da mulher.

  5. Isto sim é censura ao melhor nível do extinto mas longevo Tribunal da Santa Inquisição… suponho que as seguradoras irão aumentar o prémio do resseguro de algumas obras, e desconfio mesmo que surgirá uma nova exclusão: “danos por pudor”, muito diferentes dos selváticos actos de vandalismo perpetrados por brutos analfabetos…

      1. Pois não sei, mas haverá mais quem queira defender as sensibilidades tapando nas obras as, como diria Bárbara Emília parteira numa das mais deliciosas apropriações populares da erudita palavra, partes fudengas??

  6. Permita-me discordar, Pedro Correia, da qualificação que faz dessa senhora. Não é conservadora, ainda que exerça um cargo assim denominado. Ser conservador perante a vida, nada tem de patológico ou de pejorativo. É posição assaz respeitável perante o mundo. Significa apenas um primado da prudência perante a mudança, uma atitude de saudável (enfim, para mim) cepticismo perante o salto para a incerteza, desde logo quando essa mudança surge elevada à dignidade de fim em si mesmo. É o exercício de uma prudente ponderação das vantagens e defeitos do presente, perante um futuro de caixa de Pandora. Antes de se abrir essa potencial caixa.

    Essa senhora é, isso sim (e coisa bem diferente), uma verdadeira reaccionária. Como cada vez mais se vai revelando a vanguarda alegadamente intelectual das causas fracturantes.

    Vanguarda perante quem (e perante o seu crescente poder) é a Antiguidade Clássica e a sua representação que é, como se demonstra, inaceitável e a literalmente esconder. Esconder agora, destruir um dia (não é a primeira vez que se dá esse destino vanguardista à arte; há umas décadas fez-se isso, na culta e civilizada Europa Central).

    Essa Antiguidade, a raiz da nossa civilização. O nosso passado. E destruir o passado é, como se sabe, coisa extremamente útil quando se quer domesticar e embrutecer as massas.

    Costa

  7. Não, Pedro, «conservadora» não é uma «palavra apropriadíssima» neste caso… e não só porque «curadora» talvez seja uma ainda mais apropriada, correspondente portuguesa de «curator», cargo de Clare Gannaway (e não Canneway) na Galeria de Manchester. Já afirmei aqui, e repito: todos estes recentes actos censórios na arte, cultura, comunicação e entretenimento são cometidos e defendidos por esquerdistas, em nome do «progress(ism)o», quer contra o «racismo» (lembre-se as tentativas de «apagamento» de «Gone With The Wind» e de «Huckleberry Finn») quer contra a «objectificação» da(s) mulher(es) – e assim se colocam, na prática, do mesmo lado dos fundamentalistas islâmicos, para quem cobrir, ocultar, o corpo feminino é uma obrigação.

    1. Você também com impulso censório, Octávio?
      Já percebi que quer banir a palavra “conservadora” referindo-se à guardiã-mor de um museu.
      Típico de uma certa esquerda e de uma certa direita: quando a palavra incomoda, fogo à peça. Abate-se a palavra.

      1. A sério, Pedro? Eu, com «impulso censório»?! Sabe que já fui várias vezes alvo de censura (até aqui no DdO)… não sou dos que fazem aos outros o que não gostam que se faça a eles próprios. Não se trata, obviamente, de «banir» palavras, mas sim aplicá-las correctamente, consoante os casos.

    1. Não tem nada que ver com religião católica tem tudo que ver com Marxismo.

      As lágrimasde crocodilo do The Guardian que é um dos jornais que tem puxado para que isto aconteça. Basta ler autores como Laurie Penny etc.

          1. O piropo isolado, numa conversa de igual para igual ou num registo diáfano largado e colhido como folha de outono, parece inocente e é-o geralmente.

            Mas para quem tem ou teve aparência de 20 anos num corpo de 13, para quem passa isolado no centro do piropo de grupo, para quem escuta o piropo atirado como pedra, este pode ser violento, intimidatório, assustador.
            É difícil percebermos quando o é ou deixa de ser; só quem o diz conhece a intenção, só quem o ouve o sente ao ritmo dos próprios medos inseguranças expectativas opiniões.

            Prefiro a educação social, a sensibilização – a proibição é intrinsicamente contrária ao conhecimento e à consciência. Mas, nesta coisa da criminalização do piropo, reconheçamos que os princípios são transversais a qualquer defesa dos Direitos Humanos: o Estado do lado do mais fraco*, antes um injusto livre do que um justo oprimido, e cabe ao acusador fazer prova da acusação em sede de direito.
            Na comunicação social queima-se sempre alguém – e neste caso em concreto geralmente o justo oprimido, seja homem ou mulher.
            As mentalidades não mudam por decreto.

            * fraco não por ser mulher mas fraco por se sentir ameaçado. Mulher ou homem.

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