Os nomes dos bois


jmmcc,

Sei que estou atrasado (por outros afazeres que me exigem maior pontualidade), mas quero registar aqui um facto que me despertou para uma realidade que tem sido escamoteada, nesta semana nacional do Orçamento e cujo desfecho está ainda longe de se adivinhar: a verdadeira dimensão da dívida dita “soberana”. Isto porque o governo tem afirmado sucessivamente que a dívida pública é muito inferior à dívida privada.

Foi preciso Vítor Bento, economista, gestor e conselheiro de Estado, dizer há dois dias que isso «é uma falácia». Porquê? Porque, da dívida privada, 25 por cento é dívida das empresas públicas e mais 20 a 25 por cento é das parcerias público-privadas. Ou seja: quase metade da dívida nacional supostamente privada também é, afinal, dívida pública encapotada.

Como nunca se viveu período de maior opacidade e resistência à verdade da vida pública, é bom ouvir (os poucos que sabem) chamar os bois pelos nomes. Além do mais, melhor se fica a entender a dimensão da teia viciosa de empresas públicas (e das famigeradas empresas municipais, pois claro) e dessa fatalidade mortal que são as parcerias público-privadas. Até porque fazem parte da discussão sobre o Orçamento que o PSD e o PS começam amanhã.

6 comentários em “Os nomes dos bois”

  1. Muito bem observado, compadre. Como diria o outro, é fazer as contas: “quase metade da dívida nacional supostamente privada também é, afinal, dívida pública encapotada.” Infelizmente o estado, com todos os seus tentáculos (incluindo o fisco), exige ao cidadão comum o cumprimento de deveres a que ele próprio se exime.
    Uma vergonha.

      1. Infelizmente não sei o suficiente do assunto para perceber bem o que leio. Mas já me tinha apercebido, olhando para gráficos que estão ao dispor de toda a gente, que o principal da divida privada não era das famílias , que era de empresas (agora já não sei se era das financeiras ou das não financeiras). E constato com pena que há em Portugal muito poucos comentadores sérios , bem informados e isentos, que estejam acima da politica politiqueira e ponham as informações em contexto, que vão directamente às fontes e não se limitem a glosar o reader’s digest dos jornais.

        1. Diz muito bem, o que significa que percebe o suficiente. Na verdade, nem é preciso que um comentador seja equidistante ou apartidário para ser sério: a seriedade de quem comenta é uma questão ética, sendo bastante que resulte claro de que lado está, se estiver de algum lado.

          No caso em apreço, a pessoa que referi nem é um comentador, só pelo facto de ter comentado: é um especialista reconhecido. O lamento que deixei sobre a verdade está ligado ao que a Isabel escreveu: as fontes oficiais têm andado cada vez mais obscuras e a verdade arredou-se, escamoteada e escondida. Este é um problema que torna tudo ainda mais difícil. Felizmente, ainda há quem consiga deslindar alguma coisita, como fez Vítor Bento na declaração que prestou.

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