Os funcionários públicos são nossos amigos


Rui Rocha,

 

A sério, Laura. Nós gostamos muito dos funcionários públicos. Num país como Portugal, todos temos pais, irmãos, maridos, mulheres e amigos que são funcionário públicos. Não digas a ninguém, mas nem sequer gostamos apenas dos muitos que são competentes, briosos, esforçados e cumpridores. Mesmo alguns dos outros também nos despertam bons sentimentos. No fundo, sabemos que em todos os funcionários públicos também bate um coração, embora nalguns casos pareça um bocadinho desafinado. Mas, há mais. Para além das emoções positivas que os funcionários públicos que nos são próximos nos despertam, nós os privados também somos um bocadinho interesseiros. Os nossos negócios dependem muito dos funcionários públicos e dos familiares dos funcionários públicos. Se os funcionários públicos e as famílias (isto é, toda a gente) deixarem de comprar os nossos produtos e serviços, nós vendemos menos. Não há pequeno comerciante que não espere ansiosamente pelo dia 23 de cada mês para endireitar as contas. Há, apenas, um pequenino problema. É que o país não tem dinheiro. E por isso, uns sentem-se enteados. Mas, muitos já ficaram órfãos de pai e mãe há algum tempo e há tantos outros que ainda vão a caminho:

 

 – há pelo menos 675.000 desempregados em Portugal, numa altura em uma grande parte (21%) dos licenciados não tem emprego.

 

– processos de insolvência de empresas triplicaram no primeiro trimestre de 2011.

 

É claro que existe nestas histórias de drama familiar uma marca de injustiça na distribuição de sacrifícios. Alguns parecem nunca ser atingidos. Mas, relativamente a isso, somos todos iguais. Públicos e privados, órfãos e enteados. Nada mais do que filhos bastardos de grandes senhores feudais.

23 comentários em “Os funcionários públicos são nossos amigos”

  1. Caro Rui, é que há funcionários públicos e funcionários públicos. A estes últimos, os das autarquias, bem diferentes por estarem sob outro tipo de controlo, este essencialmente partidário, ainda não lhes vi ser impostos indíces de produção, a adaptabilidade a qualquer serviço, serem fiscalizados pela tutela, etc. Todos sabemos que as autarquias inventam situações através da necessidade de apresentar papelada, para justificar o posto deste e daquele. Até agora, é uma parte do Estado em que a famosa “troika” ainda não mexeu. Quando tal acontecer, e venha á baila a verdade dos números, a dívida directa e indirecta através de empresas criadas para o efeito, vai ser o bonito. E aqui creio que estes funcionários públicos irão deixar de ser nossos amigos, porque inevitávelmente terão que haver cortes na quantidade dos quadros de pessoal das autarquias

    1. Será? Mas durante anos não se queixaram… ora vejamos: Médicos à borla, medicamentos à borla, baixa quando lhes apetecia, regalias para a família… tudo grandes “vidas”… agora que isso pode acabar, já “berram”!

    1. Abstraindo das relações pessoais, sim. Porque nos prestam um serviço necessário. E, por isso, não os gostamos de ver mais tristes do que os outros. Porque a tristeza deles é também o nosso prejuízo. Numa galera (e a imagem não é inocente) são tão importantes os que remam à frente como os que remam atrás, os da esquerda e os da direita. Se alguns são obrigados a remar menos, o barco vai mais devagar. Por isso, não faz sentido dizer que uns são enteados sem falar dos outros que estão desgraçados.

  2. “Há, apenas, um pequenino problema. É que o país não tem dinheiro.”

    o mais escandaloso, nem é tanto, o orçamento de 2012, se basear em dados irrealistas…o que é escandaloso e trágico é não haver dinheiro a circular na ecónomia portuguesa, mesmo com ajuda financeira…os funcionários publicos ou privados, estamos todos no mesmo barco, o Titanic…

  3. Olá minha gente.

    Sou funcionário publico do quadro… posso dar o meu testemunho?

    Olhem dou graças à Virgem Santissima por ter emprego assegurado… felizmente ,o Estado não vai á falencia ( bato tres vezes na mesa)… o “meu” está garantido! O que não acontece com o meu marido… Cortaram-no tudinho!
    Triste não é?

    Tátá e cumprimentos e beijinhos á D laura que esta´muito zangada!

  4. Sondagem da Universidade Católica para a TSF /RTP e Delito e Opinião

    (resumo)

    99,999 dos inquiridos ( não funcionários publicos) disseram que preferiam o patrão Estado …
    (A segurança no emprego foi a razao invocada.)

    Sondagem efectuda depois da comunicação de PPC…
    nº telefonemas. 9.300.000
    Margem de erro : 0,0001

    1. é estranho como gente adulta e com sentido cívico se deixa arrastar nesta “conversa” das virtudes público-privadas nesta altura, ou seja, no seguimento do comunicado do pm “à nação” sobre o orçamento de estado para 2012.
      porque esse é o objectivo do pm.
      porque os “privados”, lá mais para o verão de 2012, também vão ser privados do 13º e 14º meses, para o pm fazer boa figura à conta dos “desvairios” causados pelos seus anteriores governantes e pela conjuntura actual (na altura).
      e aí então ficamos todos irmanados nos “sacríficios” e ouvaremos o senhor pela sua coragem e sabedoria salomónica.

      a mim, o que me faz “confusão” mesmo, mas mesmo, é que nunca, mas nunca, vi um blogger queixar-se que não tem médico de família, seja o blogger trabalhador “público” ou “privado”.
      caramba, isso é o que mais acontece com as pessoas que conheço.
      má sorte a minha…

      1. Concordo com o sentido do seu comentário, Carlos. Não há qualquer razão para distinguir entre público e privado num barco que se está a afundar. O fundo do mar será tão insuportável para uns como para outros.

    2. Também não prevejo uma intenção maciça de abandono da função pública. O que não significa que existam razões para contentamento quanto às medidas duras anunciadas para a função pública.

  5. Em boa verdade, os únicos que não gostam dos funcionários públicos são… os funcionários públicos (FP). São os únicos que verdadeiramente os dispensam. É por isso que o sistema de greves funciona tão bem.
    Há greve dos transportes? Para os outros FP não há problema: metade tem carro atribuído, a outra metade mete baixa.
    Há greve dos médicos? Para os outros FP não há problema: as consultas são no privado (ADSE).
    Há greve dos professores? Para os outros FP não há problema: os meninos andam em colégios particulares.
    A única greve que verdadeiramente desesperaria os funcionários públicos seria a do pessoal da Caixa Geral de Depósitos. Uma semanita, a começar ali por volta do dia 20. Já não me lembro de quando foi a última…

    1. Sampy, todas as generalizações são odiosas. Exemplos positivos e negativos existem em todos os lados. E por isso não faz sentido que se diga que uns são enteados e outros não.

  6. Encontrando-nos nós a discutir trabalho/obrigações e não emprego/direitos…
    Encontrando-nos nós a discutir funcionários públicos e não funcionalismo público…
    Encontrando-nos nós a discutir os valores inerentes ao trabalho contratado, com honra (será assim tão rara?), dignidade, empenho e sentido de dever…
    Sim os funcionários públicos são/(deveriam ser pelas suas experiências) SEUS amigos. Obrigações e Direitos como em qualquer contrato….e Honra (ponto)

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