Algumas sumidades gostam de traçar fronteiras irredutíveis entre o chamado “cinema artístico” e o denominado “cinema comercial”, associando em regra o primeiro às produções europeias e o segundo aos estúdios de Hollywood. Sempre nesta linha dicotómica, valorizam aquilo a que gostam de chamar “cinema de autor”, ligando-o forçosamente ao realizador do filme e nunca ao produtor. E são inimigos figadais do star system, associando-o a um cortejo de futilidades.
Como em regra sucede com os rótulos, também estes são redutores. E até mistificadores. O apogeu do cinema europeu, nas três décadas que se seguiram à II Guerra Mundial, coincidiu com grandes receitas de bilheteira e teve como pilares diversos filmes que, à luz do critério adoptado pelas tais sumidades, inseriam-se nos parâmetros mais “comerciais” da Sétima Arte. Não esqueçamos que nesse mesmo período o cinema europeu — designadamente o francês e o italiano, saído da quase mítica Cinecittà, mas também o sueco, sobretudo com Ingmar Bergman — foi um dos maiores viveiros de vedetas de que há memória. Mesmo quando as equipas de filmagens desciam à rua, despindo-se do tradicional “artifício” associado ao cinema desde os tempos pioneiros de Georges Méliès. Mesmo quando a câmara se separava do tripé para encurtar distâncias entre ficção e realidade. Mesmo quando a voz off substituía os diálogos, em nítida aproximação da linguagem cinematográfica à literatura.
Os realizadores podiam cobrir-se de prémios em Cannes, Veneza ou Berlim. Mas o público acorria às salas ao encontro dos actores. Os italianos e os franceses, por exemplo, rivalizavam nesse tempo em popularidade com os mais credenciados ídolos norte-americanos. Acompanhados por legendas sobre a versão original ou dobrados nos mais diversos idiomas, davam a volta ao mundo propagando a linguagem do cinema. Eram (re)conhecidos pelo seu rosto e pelo seu nome em qualquer recanto do planeta. E ainda são, tantos anos e tantas modas depois: Sophia Loren, Marcello Mastroianni, Claudia Cardinale, Alain Delon, Anita Ekberg, Raf Vallone, Brigitte Bardot, Romy Schneider, Jean-Paul Belmondo, Catherine Deneuve, Vittorio Gassman, Jacqueline Bisset.
Até a Nouvelle Vague — paradigma do cinema “artístico” — tinha também os seus intérpretes de culto. Actrizes que propagaram novos conceitos de beleza feminina, como Jeanne Moreau, Monica Vitti, Anna Karina, Anouk Aimée e Delphine Seyrig. Actores que passaram a ser imitados um pouco por toda a parte, como Jean-Paul Belmondo, Maurice Ronet, Jean-Louis Trintignant e Jean-Pierre Léaud. Astros de matinés, ídolos de multidões, detentores de passaporte universal.
Esses intérpretes protagonizaram cenas destinadas desde o início a figurar no nosso imaginário colectivo, geração após geração. Lembro-me sempre de uma, emblemática a vários níveis: um despreocupado Belmondo descendo os Campos Elíseos com Jean Seberg (O Acossado, de Jean-Luc Godard, 1959) nesses tempos em que todos os sonhos pareciam possíveis. Dentro e fora das telas, no cinema como na vida.


Caro Pedro Correia. Detesto a nostalgia, mas a imagem da Jean Seberg a descer os Campos Elísios e a anunciar o “New York Herald Tribune” não me abandonou nunca. Agora que o “International Herald Tribune” deixou de contar com artigos do “The Los Angeles Times” e do “The Washington Post”, ficando apenas com os textos do “The New York Times”, bem que podia perder de vez o “International” e regressar ao “New York”. A memória da “nouvelle vague” (expressão inventada pela Françoise Giroud, no “L’Express”, sabia?) ficava-lhe grata. Mas sabem lá eles quem é o Godard!
Neste fim de ano em que me tenho divertido com o susto que o nosso Sporting tem pregado a algumas agremiações mais ou menos conhecidas, aqui lhe deixo um abraço de Boas Festas.
Meu caro: não sabia que a expressão tinha sido inventada pela Françoise Giroud, uma jornalista que sempre venerei e por quem mantenho uma admiração sem limites.
Também me recordo com frequência deste filme e desta cena, como símbolos de um tempo irrepetível mas inapagável. E jamais cesso de me espantar com a maravilhosa Jean Seberg – tão frágil, tão volátil, tão fugaz, tão perturbante, tão eterna – aqui e em ‘Lillith’, outro dos filmes da minha vida e das vidas de tantos de nós.
Retribuo com gosto o seu abraço de Boas Festas no mais verde dos recentes Natais.
Muitas dessas sumidades são tão arrogantes quanto inseguras. Aliás, a arrogância que usam para se exprimir não é mais do que um subterfúgio para iludir a inconsistência das suas opiniões, sempre tão condicionadas pelo pensamento dos seus gurus.
Sim, Teresa. Funcionam de acordo com chavetas ou etiquetas e não sabem raciocinar fora desses parâmetros tão estreitos. Receiam o desconhecido e reagem instintivamente contra o que não conhecem. Resultado: são incapazes de reconhecer a qualidade quando não lhes chega acompanhada com as respectivas credenciais emitidas pelos gurus do gosto dominante. Muito do que é melhor acaba por lhes passar ao lado.
» um despreocupado Belmondo descendo os Campos Elíseos com Jean Seberg », mas é preciso dizer mais alguma coisa? Como eu gostei deste seu post !
A propósito (ou talvez não) porque não se vêm os clássicos na nossa Tv?
Muito Boas Festas e um 2014 que não acabe de vez com a nossa paciência.
É uma boa pergunta, Ana. Eu próprio já a fiz várias vezes aqui: a RTP tinha a obrigação de exibir com regularidade grandes clássicos do cinema. Para cumprir as obrigações de serviço público.
Fico satisfeito por ter gostado do que escrevi.
Boas Festas também para si.