Os filmes da minha vida (45)


Pedro Correia,

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O SEGREDO DOS SEUS OLHOS:

VER PARA CRER

 

«Se de noite chorares pelo sol não verás as estrelas.»

Tagore

 

Um crime chocante permanece impune durante um quarto de século. Não será nenhum prodigioso detective nem nenhum superjuiz a solucioná-lo, muito depois de o processo ter prescrito, mas um banalíssimo funcionário judicial de Buenos Aires. Que, ao desvendar a autoria e o móbil daquela violação seguida de homicídio, decifra ao mesmo tempo um enigma que lhe toldou os melhores anos da existência.

Ele, que tão bem soube interpretar o significado de um olhar perturbado numa velha fotografia, funcionando como chave daquele crime, fora incapaz de perceber que noutro par de olhos, em nada relacionado com o primeiro, estava afinal o grande amor da sua vida. Um amor talvez correspondido, ao contrário do que ele sempre imaginara, tolhido pela sua eterna insegurança e por uma infindável teia de convenções sociais.

 

Há filmes que nos conquistam pelo inesperado. Aconteceu-me com este. O Segredo dos Seus Olhos, produção hispano-argentina de 2009 que viria a receber o Óscar de melhor filme estrangeiro (isto é, de língua não inglesa) no ano seguinte, cruza de forma brilhante as convenções da ficção cinematográfica, transcendendo-as.

Tem algo de filme negro, tem algo de Casablanca, tem algo do cinema político dos anos 60 e 70 cultivado por cineastas tão diferentes como Alan Pakula e Costa-Gavras. Mas não se confina às fronteiras de nenhum género.

Mais do que um policial com um enredo capaz de nos prender do princípio ao fim. Mais do que uma viagem a um tempo de trevas políticas na Argentina, capaz de se infiltrar nas ínfimas minudências de um quotidiano sem esperança. Mais do que um comovente romance, capaz de aproveitar todas as regras clássicas do melodrama para lhes dar novo fôlego e novas asas. Uma obra-prima, sem dúvida.

É um enredo que se desenrola noutro continente e noutro hemisfério, distantes dos nossos. Mas podia passar-se aqui, podia repetir-se aqui, este Benjamín Esposito de barba e gabardina (numa interpretação superlativa de Ricardo Darín) podia ser um de nós, esta Irene Menéndez Hastings, magistrada do Ministério Público, podia habitar no prédio onde vivemos. Porque não existe linguagem mais universal do que a do cinema.

 

Esta belíssima longa-metragem do argentino Juan José Campanella — baseada no romance La Pregunta de Sus Ojos, de Eduardo Sacheri, co-autor de um “extraordinário guião sem nenhuma fissura”, como bem sublinhou Carlos Boyero no El País — tem, desde logo, o mérito de ser muito bem escrita. O que se detecta de imediato nas palavras de abertura: «O dia 21 de Junho de 1974 foi o último em que Ricardo Morales tomou o pequeno-almoço com Liliana Colotto. Lembrar-se-ia de cada pormenor dessa manhã até ao fim da vida.»

Com apenas 23 anos, recém-casada, esta atraente professora foi assassinada da forma mais bárbara. Benjamín, chamado ao local do crime, jamais esquecerá as imagens daquele corpo trucidado por uma torrente de ódio. A morte dela mudaria para sempre várias vidas. Como só muito tarde saberemos, como só demasiado tarde saberão alguns dos envolvidos. Oficialmente, tudo ficará por esclarecer. Porque há verdades que a justiça deliberadamente ignora.

Mas, mesmo quando todas as bocas se silenciam, «os olhos falam».

Ensina-nos Benjamín, comunicando com a máscara aparentemente imperturbável de Irene, sussurrando para o mais fundo de si próprio neste filme onde os diálogos se abeiram da perfeição.

Algum dia se reencontrarão antes que sobre eles se abata aquilo que há de irreversível no crepúsculo de cada destino humano?

 

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Ele, a partir de certa altura, gasta o melhor do seu tempo a mirar para trás, como se ainda redigisse autos de inquérito na decrépita Olivetti que havia perdido a letra A.

Ela atira-lhe sem rodeios, «fingindo completamente», como Fernando Pessoa tão bem fixou: «Toda a minha vida olhei em frente. Para trás não sei olhar: não é a minha jurisdição, declaro-me incompetente.»

Detemo-nos em quê quando as palavras desmentem o olhar?

Esta é a história de um amor impossível. A história de um desencontro. A história de uma fotografia. A história de um crime que permanece sem castigo — ou pelo menos assim o imaginamos. A história de instantes irrepetíveis, capazes de mudar uma vida, qualquer vida, a minha, a tua, a daquela mulher que decide correr no último momento na plataforma da estação ferroviária, a daquele homem que a contempla a uma distância crescente do interior da carruagem.

Vi várias cenas destas no cinema — O Segredo dos Seus Olhos é uma das mais recentes de uma nobre, vasta e fascinante linhagem de filmes com momentos decisivos passados em comboios (aqui fica a sugestão de um ciclo temático para a Cinemateca de Lisboa).

 

Por vezes só um desencontro permite reencontrar-nos connosco próprios. E decifrar todos os enigmas, não da tela mas da vida. Vendo uma velha fotografia, desvendando o véu da esfinge que se abriga na memória de um olhar.

E podemos então interrogar-nos, à semelhança do que ele disse enfim para ela: «Como se pode viver uma vida vazia? Como se pode viver uma vida cheia de nada?»

Com o comboio a acelerar, o contorno das figuras diminuindo na razão inversa do aumento da distância, uma existência em fragmentos prestes a dissolver-se no horizonte.

 

…………………………………………..

O Segredo dos Seus Olhos (El Secreto de Sus Ojos, 2009). De Juan José Campanella. Com Ricardo Darín, Soledad Villamil, Guillermo Francella, Pablo Rago, Javier Godino, Mario Alarcón, Mariano Argento.

 

22 comentários em “Os filmes da minha vida (45)”

  1. Excelente filme, sem dúvida um dos da minha vida também. Mas se não o fosse já, passava a ser, depois de ler esta tua apresentação apaixonada. Grande texto.

    1. Novamente em sintonia, Ana. Este é um belíssimo filme que de algum modo me devolveu o prazer de frequentar com assiduidade as salas de cinema depois de uma temporada em que me fartei de ver inanidades reservadas ao consumo de baldes de pipocas.
      Vi-o e revi-o, como tantas vezes me acontece quando gosto muito de um filme. Passou em todos os testes. De argumento, escrita, produção, realização, música, caracterização, reconstituição de época, verosimilhança, criação de atmosfera. E sobretudo ao nível da interpretação: por aquele duo de protagonistas (Ricardo Darín e Soledad Villamil) passa um magnetismo que raras vezes resulta tão bem.
      Sem isso, seria sempre uma excelente filme. Mas não a obra-prima que claramente é.

      (obrigado pelas tuas palavras)

      1. Tudo isso é verdade, e ainda tem a refrescante novidade de uma língua menos habitual e de fantásticos actores praticamente desconhecidos no cinema dito mainstream. Tenho o filme em dvd e já o vi mais do que uma vez.

        1. De facto, tudo isso é refrescante. Porque andamos a ver um cinema cada vez mais formatado e mais codificado, o que contraria o essencial do espírito artístico. E o cinema, muito mais do que uma indústria, é uma arte – embora muita gente se vá esquecendo disso.
          Ninguém duvida: ‘O Segredo dos Seus Olhos’ é arte.

  2. Completamente de acordo com o seu texto, Pedro.
    Gostei tanto de ver este filme, que quando acabei voltei novamente ao princípio (vantagens do dvd).
    Quando isto acontece vou sempre à procura de outros filmes do mesmo realizador, e encontrei “O Filho da Noiva”, também com o mesmo actor e, curiosamente, também nomeado para Melhor Filme Estrangeiro.
    Obrigada, Pedro.
    🙂 Antonieta

    1. Raras vezes concordei tanto com a atribuição de um Óscar a um filme de língua não-inglesa como me aconteceu em 2010, Antonieta.
      Este é merecido, do princípio ao fim.

      1. Também na categoria de Melhor Filme Estrangeiro recordo estes dois, para mim, grandes filmes:
        “Sol Enganador”(Rússia) em 1995 e “As Vidas dos Outros” (Alemanha) em 2007.
        Antonieta

        1. E recorda muito bem, Antonieta. Plenamente de acordo.
          Se recuarmos mais uns anos encontramos outra obra-prima do cinema galardoada com o mesmo troféu: ‘Cinema Paraíso’, de Giuseppe Tornatore.

  3. Com Ricardo Darín, Soledad Villamil, Guillermo Francella, Pablo Rago, Javier Godino, Mario Alarcón, Mariano Argento.

    Em sete atores principais, uma mulher e seis homens. Deve ser um filme bué de machão. A mulher só lhe dá mesmo os olhos.

          1. Repare que eu não faço julgamentos sobre o filme, que nunca vi.
            Mas acho que um elenco de atores quase exlusivamente masculino é inapropriado. Até porque há mais atrizes que atores.
            E mais inapropriado ainda é colocarem-no no anúncio do filme.
            Um filme de Hollywood nunca seria assim. Teria sempre no cartaz uma representação minimamente equilibrada de atores dos dois sexos. Só num país sem sensibilidade para a participação feminina, como o México, é que se tolera uma coisa destas.
            E admira-me ver uma mulher ser insensível a estas coisas. Cada vez mais me parece que cá em Portugal as mulheres acabam a ser mais machistas que os homens.

          2. ??????!!!!!

            Nem comento… para quê? Aconselho-o só a não ver nunca filmes de guerra ou passados em prisões, por exemplo, em que o elenco será sempre uma provocação intolerável às suas belas quotas.

          3. Caro Luís,

            1-O filme não é do México, é da Argentina.
            2 – “Lawrence da Arábia” é apenas um exemplo de um grande filme de Hollywood sem mulheres no elenco.
            3 – Aposto que se o Luís visse o filme ia gostar, é que é mesmo muito bom.
            🙂
            Antonieta

          4. (1) México e Argentina, deve ser mais ou menos a mesma coisa em matéria de machismo.
            (2) Estou a comparar este filme com outros modernos, não com filmes de há dezenas de anos atrás, quando a sensibilidade machista era muito maior. Se Lawrence da Arábia fosse rodado hoje, teria certamente algumas protagonistas femininas de relevo (incluindo algumas cenas de sexo explícito, também, claro!). Caso contrário seria considerado inaceitável.

  4. Muito bem lembrado, Pedro. Este é sem dúvida um dos filmes da minha vida e, concordo consigo, uma obra-prima.
    E este seu post é o melhor texto que li sobre ele. 🙂

    1. Quando vi o filme pela primeira vez, senti exactamente o que refere no seu texto de 2010, Suzana. Permita-me a citação: «Devo dizer que há muito tempo não via um filme tão belo, tão intenso e tão cheio de emoção.»
      Tal e qual. E voltei a sentir o mesmo quando o revi.

  5. Foi preciso você escrever para eu me relembrar que ela tem o mesmo apelido do companheiro do Poirot. É também um dos poucos filmes da dita minha vida.

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