Os derrotados do 21-D.


Luís Menezes Leitão,

É muito fácil fazer calculismos eleitorais para não querer ver o resultado óbvio. Os constitucionalistas perderam em toda a linha as eleições na Catalunha. Tanto assim que até a Inés Arrimadas, depois de uns delírios de uma noite de Verão em pleno Inverno, já apareceu a reconhecer que nem vale a pena ela fazer contactos para formar governo. Mesmo para a Arrimadas isto já é assunto arrumado.

 

Mas o mais patético é o posicionamento de Rajoy. Avisa que se vai manter em funções até 2020 sem perceber que o seu governo está morto e enterrado já em 2017. Recusa encontrar-se com Puigdemont, preferindo falar com Inés Arrimadas, mas reconhece que vai ter que se encontrar com o novo presidente da Generalitat que será seguramente ele e não ela. E depois ameaça com novas edições do art. 155, incapaz de reconhecer o mal que isto já causou ao seu próprio partido. Entretanto Albert Rivera esfrega as mãos de contente, vendo todo o eleitorado do PP a fugir para o Ciudadanos. Por isso neste momento Rajoy já é uma carta fora do baralho na política espanhola. Só ele é que parece não o querer perceber. Um dia acontece-lhe o mesmo que a Gorbatchev. Vão visitá-lo para lhe dizer que o país que governava já não existe.

29 comentários em “Os derrotados do 21-D.”

    1. Caro Pedro:

      A foto destina-se a ilustrar o delírio do comício de “vitória”.

      Quanto a derrotados só falei de Arrimadas e de Rajoy. Rivera para mim é um vencedor porque joga a nível nacional e nesse terreno ganhou muitos pontos.

      Quanto a Arrimadas, perdeu na Catalunha porque não vai formar governo e esse era o objectivo dela e do seu partido. Nas eleições ganha quem controla o parlamento e forma governo. É por isso que sempre defendi, contra muita gente da minha linha política, que Passos Coelho perdeu as eleições de 2015. A diferença é que ele insistiu em formar governo, não vendo o óbvio. Arrimadas acabou por o ver.

        1. A tadinha da Inés nem teve o bom gosto de pedir desculpa pela sua miserável prestação: levou um partido constitucionalista que sempre criticou a moleza da aplicação do 155 por Rajoy a ganhar as eleições na Catalunha, a tal região autónoma onde 80% dos eleitores chorava e gemia em ânsias por se ver guiada até à terra do Cava e do pan com tomaca por esse Moisés que é Puigdemont. Isso não se faz, ó Inés…

        2. Rivera não concorria nas eleições da Catalunha contra Puigdemont. Aí concorria Arrimadas e perdeu. Mas a nível nacional, onde os partidos catalães não têm relevância, Rivera impôs-se a Rajoy. Isso conta para poder contar vitória a nível nacional. Mas não sei por quanto tempo umas eleições na Catalunha continuarão a ter significado em Espanha.

        3. Ganhas pelo partido de Albert Primo de Rivera? Ai que não aprenderam nada com a geringonça… Aconselho-o a estudar sobre os parlamentos belga e holandês, onde muitas vezes o partido mais votado não chega a 20%. E se não conseguem uma MAIORIA PARLAMENTAR, ninguém os vai considerar vencedores.

  1. Ainda não consegui perceber qual o número de votos que cada lado teve , porque é isso que interessa dado os votos nas eleições serem ponderados consoante a população do município . podem ter a maioria dos assentos parlamentares mas não a maioria dos votos. E não era justo que a vontade independentista de um catalão de Gerona valha mais que a de um de Barcelona ou assim. Em 2015 já sei que os independentistas não tiveram a maioria dos votos , estas gostava de saber.

    1. Esse é um bom exemplo do calculismo eleitoral a que me refiro. Numas eleições parlamentares ganha quem elege mais deputados. Votos que não elegeram deputados não servem para nada.

      Quanto à contabilidade dos votos, depende onde põe o Catalunya en común / Podemos. Os constitucionalistas (PP, PSC e Ciudadanos) tiveram 43,44% e os independentistas (JpC. ERC e CUP) 47,53%. Não me parece que faça sentido somar aos constitucionalistas os votos da Catalunya en comùn / Podemos de 7,44%, já que estes, emboram defendam a pertença da Catalunha a Espanha defendem o referendo à independência, o que não permite incluí-los nos constitucionalistas. Por isso, a meu ver, mesmo em votos o bloco independentista é vencedor. Mas o que conta é a maioria absoluta dos deputados, e isso eles tiveram.

      1. Pelo que escreveu, não me parece legítimo falar em Bloco “independentista”; em Bloco “referendista”, isso sim. E se os eleitores mantivessem o sentido do voto que os Partidos “referendistas” defendem, então, a haver referendo, não haveria independência.

        1. “a haver referendo, não haveria independência.”
          Então porque é que o Estado Espanhol ataca o povo catalão por querer votar? Se têm assim tantas certezas que o povo catalão não deseja a independência, porque não deixam que o povo catalão vote? Se Rajoy aprendesse com o exemplo de David Cameron e a Escócia (ou o exemplo do Quebec onde houve dois referendos), não fazia figura de facho.

          1. Custa-me a entender estas campanhas a favor da independência da Catalunha.
            Eu só queria chamar a atenção para a incorrecção dos que dizem “o bloco independentista”. A mim, parece-me que não é legitimo falar nestes termos. Mais nada.
            Mas de uma coisa tenho a certeza, os espanhóis e os catalães vão resolver o problema. E os de fora racham lenha mas pouco ou nada adiantam.

          2. Custa-me a entender que pessoas que vivem num país que tanto lutou para se separar de Espanha (e apenas o conseguiu em 1640 porque a Catalunha revoltou-se ao mesmo tempo) tenha tão pouca solidariedade com o povo catalão. Isso diz realmente muito sobre o povo português.

  2. Eu não faria já o funeral a Rajoy: desde 2004 que lho fazem e ele permanece lá, primeiro como líder da oposição e depois como chefe do governo. Claro que até ele acabará por esgotar as suas vidas, mas é precipitado anunciá-lo como morto.

    Quanto a Arrimadas, é impossível não ver nela uma vencedora. Se pela primeira vez um partido não regionalista ganha eleições na Catalunha, isso tem um capital simbólico grande. Arrimadas passou a ser por direito próprio uma das protagonistas políticas da Catalunha. Já agora, embora Puigdemont seja um dos vencedores, a sua tese de que “90%” queriam a independência também cai por terra.

    1. O capital simbólico é grande. Mas não tem valor facial. Seria necessária uma indexação ao padrão ouro para que o capital tivesse valor facial. Assim, metaforicamente, foi desvalorizado pelo padrão parlamentar.

    2. Tudo depende das expectativas. Se a expectativa fosse apenas subir a votação, Arrimadas seria uma vencedora. Mas a expectativa, que todos referiam antes dos votos, era a de que ela iria governar a Catalunha e, como não o conseguiu, perdeu. Quanto ao capital simbólico, a transferência de votos dos independentistas para os constitucionalistas foi muito pequena. O primeiro lugar de Arrimadas dá-se à custo do descalabro do PP. Enquanto o bloco independentista se divide ao meio entre dois partidos principais, no bloco constitucionalistas, assume a liderança. É muito pouco para cantar vitória e muito menos sobre os independentistas.

  3. Sim, os independentistas “ganharam todos”…
    Analisemos mais de perto a magnífica vitória independentista: os 80% de votos a favor da independência daquele “referendo” de Outubro transformaram-se nuns meros 50% (nem aí chegam) de votos pró independência em Dezembro; o líder do segundo partido mais votado – o Sr. Puigdemont – formará governo e governará a partir… da Bélgica, pois mal ponha o pé em território espanhol irá parar com os costados a Soto del Real.
    Ver as coisas do avesso tem destas coisas e como alguém aqui há uns tempos dizia as jogadas do Sr. Carles devem vir certamente de um cérebro que tem um funcionamento “sui generis”: o estratega em “exílio” entre os netinhos dos bravos combatentes Waffen SS belgas matou com as próprias mãos a sua tão acarinhada independência, teimando em exibir o cadáver da sua vítima como a prova provada de que os cadáveres andam, falam, comem e reproduzem-se. É com políticos desta rija cepa que os países se constroem, pois certamente que é…

    1. “Os 80% de votos a favor da independência daquele “referendo” de Outubro transformaram-se nuns meros 50%”

      Meu caro está confundido. O que aconteceu na Catalunha foram eleições regionais e não um referendo sobre independência. Como sabe que os que foram, ou não foram, votar são contra ou a favor da independência. Fazendo um exercício mental. Poderão haver eleitores Socialistas contra a Aborto, ao contrário da linha partidária seguida. Assim o mesmo para a questão independentista catalã – eleitores que não se revêm em qualquer partido mas são pró independência

      1. Quem está confundido é o caro Vlad: se o prezado amigo assim pensa, vá comunicá-lo ao bom do Puigdemont, o tal genial xadrezista que, ao mesmo tempo que concorria a eleições que afirmava alto e bom som serem ilegais, as via como um autêntico referendo confirmativo do referendo fantoche de 1 de Outubro. E caso tenha algumas dúvidas sobre isso, faça o prezado Vlad a bondade de rever as declarações do genial Carles na noite das eleições.
        Como anteriormente disse, o sonho independentista viu derrocar a sua ficção de que 80% dos catalães apoiava a independência: não há independências com 50% do povo contra elas; o que há é a esperançosa hipótese de uma futura guerra civil.

    2. “o estratega em “exílio” entre os netinhos dos bravos combatentes Waffen SS belgas matou com as próprias mãos a sua tão acarinhada independência”
      Como é que não surpreende ninguém que a lei de Godwin tenha sido aplicada?

  4. E, já agora que vem na linha da conversa, a seguir a um Gorbachev vem sempre um Ieltsin – que, desta vez e dadas as diferentes coordenadas geográficas, em vez de lhe dar na vodka vai afinfar com largueza no cava – verdade? Pobre Catalunha, pobre Espanha, pobre Europa…
    E como é bom lembrar o que os furores nacionalistas produziram em não poucas ex- Repúblicas Socialistas Soviéticas…
    Esta alegria incontida face a uma futura implosão do Estado nosso vizinho já há muito que deixou de ser analisável sob a lupa do pensamento político e racional para entrar no campo dos recalcamentos emocionais subconscientes que teimam em persistir do lado de cá da fronteira.

    1. Não tenha dúvidas. Da mesma forma que Portugal se libertou de Espanha em 1640, é mais de que altura do que a Catalunha fazer a mesma coisa. Ainda que com quase 400 anos de atraso, mais vale tarde do que nunca.

      1. O caro senhor há de perder essa mania de analisar problemas alheios sob a lupa das soluções próprias: o que foi bom para nós (em 1640!!
        !) é hoje bom para os catalães. E aqueles catalães (os outros 50% de catalães) que se estão borrifando para as lições daqueles que ainda há pouco tinham retirado o 1º de Dezembro da lista dos feriados nacionais que se conformem com a vontade dos indepes ou que… partam para o exílio. Genial, meu caro.
        Depreendo pelas suas palavras que tanto se lhe dá a Espanha ser um país viável, economicamente próspero e em paz, como lhe não causa qualquer problema ver a Espanha afundar-se em sangrentos conflitos intestinos e transformar-se numa terra de ninguém mesmo aqui ao lado. Só uma pergunta me assalta: que ganhamos nós com isso?
        Mas uma coisa positiva encontro eu no seu comentário, meu caro Luís Menezes Leitão: ele confirma magistralmente aquilo que eu afirmei no último parágrafo do meu comentário anterior.

  5. Os votos que não elegeram deputados servem para lembrar à maioria que não pode fazer o que só um referendo permite fazer, porque num referendo todos os votos contam! LML, os independentistas têm a maioria dos assentos parlamentares, como já tinham, e julgo que até diminuíram. A não ser que o LML advogue a tirania das maiorias parlamentares, explique-me lá como é que estas eleições tão alargadas podem substituir-se a um referendo? É porque se isto era um referendo, então os independentistas perderam. Portanto, imagine-se que o PCP ganhava a maioria dos assentos parlamentares em Portugal. O LML acha então que o PCP tinha a legitimidade para suspender a constituição e impor a ditadura do proletariado. É isso?

    1. Não era um referendo, e nem foram os independentistas que convocaram eleições. Elas foram convocadas por quem não queria a independência. Mas os independentistas voltaram a ganhar. Por isso executarão o seu programa. Não tenha dúvidas de que o PCP faria o mesmo se tivesse maioria parlamentar. Ou está convencido de que seria moderado pelo facto de não ter 50% dos votos? A coligação PSD/CDS não tinha maioria de votos e fez tudo o que quis nos tempos da “troika”. Só muito raramente o Tribunal Constitucional a travou.

      1. O anónimo, sou eu. Peço desculpa. Portanto depreendo das suas palavras que as Constituições não servem para nada quando se tem a maioria dos votos. É isso? Gostava da sua opinião e não do que os partidos fazem ou deixam de fazer. É que para alterar a constituição (a nossa) é preciso uma maioria de dois terços. Não basta a maioria simples. Por isso os partidos da Catalunha governam mas não podem impor sobre mais de metade da população a sua vontade de independência. Isso seria desvirtuar a Democracia para além da própria Constituição.

  6. Quando a Catalunha for independente:

    Já “ganharam” um bom Embaixador em Portugal…

    Adivinha-lo é fácil….

    Boas Broas

    Am

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