Os comendadores de ontem são os patriotas de hoje


Sérgio de Almeida Correia,

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Nos dias de hoje o patriotismo é “à la carte”.

E vai ser possível, para descanso de muitos comendadores, graças à revisão das leis eleitorais, apontar o dedo a um “não patriota” com o mesmo vigor e conforto com que antes houve quem o fizesse na Alemanha aos judeus, nos EUA aos comunistas para os afastar da vida política e social, ou faça actualmente no Uganda em relação aos homossexuais. 

O curioso é que muitos destes novos patriotas de Macau antes eram, e ainda são, certificados patriotas portugueses, norte-americanos e de outras nacionalidades. São assim como uma espécie de arrivistas do patriotismo chinês.

Muitos foram condecorados por estados estrangeiros pelos bons serviços que lhes prestaram. Não consta que tenham devolvido as condecorações.

Outros foram apoiantes confessos das instituições coloniais, prosperaram à sombra delas e à custa da sua falta de cerviz, fazendo da subserviência e da bajulice aos sobas coloniais o seu cartão de visita, jogando em vários tabuleiros, não raras vezes fechando os olhos ao tráfico de influências e à corrupção, porque também beneficiavam com isso, tirando partido das falhas do sistema e da sua degradação nos tempos de Melancia e Rocha Vieira, ignorando conflitos de interesses para serem nomeados, subsidiados, singrarem e enriquecerem graças às especificidades locais e à autonomia de Macau.

Aplaudiam a Constituição portuguesa de 1933 e o Estado colonial, antes do 25 de Abril, como depois aplaudiram a de 1976, a Lei Básica e a Declaração Conjunta, jurando hoje fidelidade à Constituição da RPC ao mesmo tempo que escondiam as suas outras nacionalidades e as contas no estrangeiro.

Antes questionavam a necessidade de se rever as leis de segurança interna, da mesma forma que aplaudem, logo pela manhã, a revisão das leis eleitorais, e até houve um destes novos patriotas que alertou em tempos para o perigo de se criar “uma polícia política inadvertidamente”. Como se fosse possível criar polícias políticas “inadvertidamente”.

O que estes novos tempos revelam é que o patriotismo é um fato que se veste e se despe em função das oportunidades de negócio e de promoção profissional, social ou política. Por vezes, esse patriotismo assume o formato de um subsídio, de um patrocínio, de um contrato ou de um convite. Noutras situações, as mais comuns, tem o formato de um cheque, onde colocam no verso, pelo seu punho, a certificação do seu patriotismo antes de o depositarem na conta bancária.

Veneram hoje a estrela de cinco pontas e os ensinamentos do Presidente Xi com o mesmo desvelo com que lá em casa passam a ferro as notas com a cara de Benjamin Franklin; ou se levantam da cadeira para falar ao telefone sempre que do outro lado da linha está um patriota militante a dar-lhes ordens e lições de bom patriotismo.

Pois são estes os novos patriotas, verdadeiros invertebrados que se vivessem no tempo do nazismo seriam os nacionalistas e burocratas ao serviço de Eichmann e companhia.

E depois, quando o regime mudasse, diriam que se limitaram a cumprir ordens superiores e que no seu íntimo nunca apoiaram o fim das liberdades e dos direitos cívicos e políticos, nem gostavam “desta democracia”.

5 comentários em “Os comendadores de ontem são os patriotas de hoje”

  1. Um dos maiores equívocos, recorrentes, dos ocidentais é pensar que os não-ocidentais pensam como os ocidentais. Suspeito que bastaria que conseguíssemos pensar numa língua não-ocidental um pensamento ocidental para começarmos a verificar algumas diferenças de sentido.

  2. Atenção ao conceito de patriotismo, Sérgio.
    Para nós é amar a Pátria.
    Para a China, sobretudo a actual, é amar a Pátria e não colocar em causa a liderança do Partido Comunista.
    Vê a Constituição Chinesa.
    Logo no Preâmbulo é isso que está previsto.
    Nem se discute.
    Depois há muita gente que parece ser verdadeiramente pinga-amores.
    Tem muitos.

  3. MARY SHELLEY in FRANKENSTEIN o Il Moderno Prometeo

    DRÁCULA por Abraham Stoker
    El conde Drácula me había indicado que fuese al hotel Golden Krone, el cual, para mi gran
    satisfacción, era bastante anticuado, pues por supuesto, yo quería conocer todo lo que me fuese posible de las costumbres del país. Evidentemente me esperaban, pues cuando me acerqué a la puerta me encontré frente a una mujer ya entrada en años

    1. Era suposto o maneta ter vindo jantar a Foz de Arouce, no seu progresso até Santarém e Lisboa. Mas Wellington derrotou-o perto de Condeixa e quem veio jantar à quinta do Conde de Foz de Arouce foi o general inglês. O Conde não se atrapalhou. Recebeu-o como se estivesse à espera dele.

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