Os coentros


fiodeprumo,

 

Eu tinha organizado a minha vida toda para não ter que andar na rua nestes dias. Mas, azar dos Távoras, a minha plantação de coentros não chegava para as necessidades e resolvi dar um pulo ao supermercado mais perto de casa, visto que na zona onde vivo foi morrendo de morte lenta tudo o que era comércio de bairro. Agora existem cinco restaurantes, quase pegados uns aos outros, e a única mercearia que sobreviveu pratica preços de monopólio.

O meu problema foi mesmo ter ido ao super porque antes de chegar aos coentros fui “atacada” por uma pessoa que só reconheci quando me disse o nome. E que ficou atónita por eu não me lembrar dela, que não via há cerca de vinte e cinco anos.

Além de me brindar com um “estás na mesma, rapariga”, perguntou-me pelo Natal, se continuava a ir para a neve, se estava só ou acompanhada, se agora estava mais cá ou em França, se, se, se. Tive de cortar o inquérito pessoal, mas fiz mal, porque se lhe seguiu a sua história que eu não tinha pedido para ouvir e em que os “ses” de que dependia o seu Natal – eu diria mesmo a sua vida – eram tantos, que nem consigo enumerá-los. E os ditos pareciam, de facto, estar a dar-lhe cabo da existência. 

Quando pude finalmente falar, tentei explicar-lhe que não adianta nada sofrer por antecipação e que, possivelmente, nada do que ela estava a imaginar iria acontecer. Atrevi-me, até, a sugerir-lhe que fizesse o raciocínio ao contrário, ou seja que pensasse na alegria que ia ter porque, “se” Deus quisesse nenhuma das suas pessimistas previsões iria acontecer.

Quando, por fim, cheguei aos coentros já só havia salsa e hortelã…

Um comentário em “Os coentros”

  1. Desculpe, Helena, mas já me fartei de rir com a sua odisseia: sim, que isto de uma pessoa querer coentros e apanhar uma melga é mesmo… uma espiga (como diria o Eça).
    🙂 Antonieta

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