Os candidatos.


Luís Menezes Leitão,

 À Direita já se percebeu que vai haver dois candidatos às presidenciais. Um é Marcelo Rebelo de Sousa, que já disse de si próprio que é como o código postal: “meio caminho andado”. Na verdade, fez muito mais de meio caminho, andando há anos a preparar a sua candidatura, através de um processo metódico de reconstrução televisiva da sua persona pública. Hoje já ninguém se lembra do Marcelo mefistofélico e criador constante de factos políticos, mas não se sabe se essa personagem não vai regressar, logo que ele se veja em Belém. É por isso que nem nos seus maiores pesadelos Passos Coelho admite Marcelo Rebelo de Sousa na presidência e tudo fará para que ele não seja eleito. O mesmo dirá Portas, que ainda se lembra de como terminou a segunda AD, que construiu com Marcelo. Este só poderá assim avançar em caso de derrota da coligação.

 

Em caso de vitória da coligação, já se sabe que o candidato é Rui Rio. E será uma boa escolha. É um candidato que deixou uma imagem de seriedade na gestão da Câmara do Porto e tem condições de imparcialidade para assumir a presidência. Curiosamente não é muito bem visto na entourage de Passos Coelho que, vá lá saber-se porquê, sempre preferiu Luís Filipe Menezes. Talvez por esse motivo, Rui Rio apareceu nos últimos tempos muito próximo de António Costa, o que pode ser uma vantagem para as presidenciais. Já não o será, porém, em caso de derrota da coligação, pois aí naturalmente disputará a liderança do PSD e esta proximidade a António Costa pode lhe ser fatal.

 

À Esquerda está tudo definido. É Sampaio da Nóvoa o candidato único, já que até Carvalho da Silva desistiu de o defrontar. Não admira. Como se vê nesta entrevista, mais do que o candidato do PS, Nóvoa é o candidato dos sectores à esquerda do PS. O seu baptismo político foi na LUAR e numa entrevista televisiva recusou-se a assumir que votaria PS. Na verdade, o discurso político de Nóvoa faz lembrar o discurso de Lurdes Pintasilgo, parecendo que recuámos trinta anos no tempo. Diz que é independente e até acha que essa independência será apreciada pelos sectores militares, como se os militares tivessem um voto diferente do de qualquer outro cidadão. É contra o “arco da governação” e só a contragosto é que daria posse a um governo do Bloco Central, já que acha que é capaz de forjar outros entendimentos contra a austeridade. Mas em qualquer caso, dará posse a um governo minoritário, sem problemas com a estabilidade, já que estabilidade para ele “não é ficar tudo na mesma“. E de tal forma o assume que quer referendos aos Tratados Europeus e defende a renegociação da dívida “até ao limite do possível“. Quanto ao fracasso desta política na Grécia, ainda não o consegue ver. Pelo contrário, até acha que “estamos aqui e agora, para poder construir um projecto de mudança em Portugal e darmos um contributo para a mudança na Europa“.

 

Como bem lembrou João Gonçalves, num célebre debate entre Soares e Pintasilgo, aquele respondeu a este tipo de discurso sonhador com a afirmação de que “nem um castiçal cá ficava se a senhora fosse eleita“. Mas o Soares de hoje já não é o mesmo desses tempos. O que espanta, no entanto, é que António Costa empurre o PS para um apoio a um candidato com este perfil e que, felizmente para todos nós, não tem a mínima hipótese de ser eleito. A não ser que o objectivo de António Costa seja o de apresentar este candidato para satisfazer a ala esquerda do seu partido,  permitindo a eleição de Rui Rio, com quem facilmente pode estabelecer pontes. Neste enquadramento a estratégia faz sentido. Só que, como acima se salientou, para Rui Rio ser candidato é necessário que Costa perca igualmente as eleições legislativas…

0 comentários em “Os candidatos.”

  1. Atendendo aos enternecedores encontros / debates que mantiveram, não me custa a acreditar que Costa preferisse Rio em Belém a um lunático re-editor do PREC. Só se me afigura um pequeno problema: Rio aprecia as contas controladas e Costa é um gastador: é fazer as contas – como dizia o outro – às promessas em catadupa que todos os dias lhe saem boca fora.

  2. Para já, parece-me URGENTE que a indústria farmacêutica lance o mais rápido possível uma vacina contra as entrevistas do nefelibata. Em pouquíssimos dias, tem havido uma autêntica praga delas – SIC Notícias, TSF, jornal i, RTPi, hoje mais uma no Público (isto caso me tenha escapado mais alguma, mas, para o caso, tanto faz: imediatamente se percebe que, como candidato a PR, ele não tem absolutamente nada que valha a pena ouvir/ler, o que me faz passar adiante de qualquer aparição da figurinha mal barbeada, sem hesitações de nenhuma espécie).

  3. Não comentarei candidatos a PR nem tampouco sobre estes dois personagens cuja reflexão nos oferece.

    Mas gostaria de partir desta sua reflexão para sintetizar as ambições nacionais. Portugal nunca mudou com planeamentos e estratégias. As grandes alterações sociais ocorreram sempre de improviso e foram entregues ao seu destino.

    Sabemos ler as angústias comuns mas não somos capaz de forma comum e organizada batermo-nos por elas. Não acreditamos em nós, desconfiamos de nós e estamos convencidos que somos uns incapazes, excepção, naturalmente, para a primeira pessoa do singular, de todas as pessoas singulares da nação.

    Há na realidade um sebastianismo em cada um de nós, e não é por acaso que só saímos do banco dos velhos do restelo quando alguém decide aventurar-se.

    Para mudar Portugal necessitamos de um aventureiro. E, cá está o fado, Deus protege os aventureiros. E assim que ocorrerá na Europa com o pontapé de saída dado pelos Gregos.

  4. Calculo que o próximo presidente será R.Rio; se Costa for 1º ministro talvez se façam algumas alterações ao regime que travem o aparecimento de Podemos ou Ciudadanos.

    1. A única coisa que pode parar o surgimento de movimentos alternativos aos partidos “tradicionais”, é estes mudarem de perfil e política para dar as respostas que as pessoas não encontram. Não há nada de mal nos «Podemos» e nos «Ciudadanos», eles apenas surgem pelo que há de mal nos que existiam antes.

  5. Também me parece que Rio vai ser o próximo PR. O PS não vai ganhar as eleições. Só eu disponho de 2 votos contra o PS: não vou votar mas se fosse votava no PSD só para que o PS não ganhasse. E como eu muitos milhares. Por acaso preferiria que Rio disputasse um partido (quem sabe um novo partido) mas tenho a sensação de que vai ser PR e ser PR é fim de carreira neste regime podre e sem brilho.

  6. Por mim, voto em Henrique Neto, que conhece o país, foi um empresário bem sucedido, é culto, tem história e tem mundo, não era amigo de Ricardo Espírito Santo – como Marcelo – ou de Miguel Relvas ou Sócrates e não pertence a “organizações discretas” que estão a fazer de Portugal uma república das bananas.

  7. Os candidatos do armário. Não há maneira de se assumirem ou desassumirem.
    Podemos chamar-lhes os candidatos do “não … nem …”.
    É nisto o que dá a famosa experiência de intriga partidária, que em certos sítios é confundida com política.

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