Morreu António Jorge Branco, uma figura inconfundível da rádio portuguesa, a quem muitos profissionais da comunicação justamente chamavam mestre. Morreu Joaquim Lobo, um dos nossos melhores fotojornalistas, testemunha de momentos irrepetíveis da História. Morreu, aos 98 anos, uma figura singular da política europeia do século XX: o arquiduque Otto de Habsburgo, último herdeiro do trono austro-húngaro, nascido ainda antes da I Guerra Mundial, durante o reinado do avô, o imperador Francisco José, e descendente de uma dinastia que dominou a Europa Central durante quase sete séculos.
Cada qual à sua escala, a vida destes homens dava um filme – a do arquiduque, que chegou a viver refugiado no Funchal, dava seguramente uma longa-metragem. Durante a II Guerra Mundial, Hitler mandou executá-lo: escapou da morte ao ser salvo por Aristides de Sousa Mendes. Distinguiu-se como deputado no Parlamento Europeu (1979-99) e foi um dos grandes responsáveis pela fuga de húngaros para o Ocidente em 1989, o que viria a influenciar decisivamente a queda do Muro de Berlim. Viria a estar sempre ligado a Portugal, como o seu pai, o imperador Carlos, falecido na Madeira em 1922. “Hasta el último dia de sua vida, el emperador expresó su agradecimiento hacia los campesinos de Madeira, que acudían a la casa en la que se refugiaba la familia imperial com alimentos frescos e sencillos regalos para el pequeño Otto”, lembrava hoje o El Mundo, em artigo de página inteira.
No entanto, ao ler a imprensa portuguesa, não vi nenhuma destas notícias desenvolvidas para além de uns banalíssimos parágrafos de circunstância. Um bom obituário, escrito com a paixão de quem gosta de narrar histórias, podia e devia fazer a diferença na imprensa diária, cada vez mais previsível e redundante. Hoje houve estas três oportunidades praticamente perdidas. E só faço a ressalva devido à talentosa veia nostálgica do Ferreira Fernandes, no DN. Excepção à regra. Mas porquê apenas esta?
Imagem: casamento de Otto com a princesa Regina, em Nancy, França (1951)


Conheci o António Jorge Branco não há muitos anos, mas há alguns, em circunstâncias singulares que não vêm ao caso. Durante umas horas, partilhámos muito mais do que a semelhança dos nossos enfeites de colarinho. Trocámos então telefones e falámo-nos muitas vezes. Fiquei a dever-lhe um telefonema que não devolvi há muito.
Às vezes, compadre, dá-me a impressão de que hoje já quase ninguém conhece ninguém com mais de 40 anos nas redacções dos jornais. O testemunho pessoal, único, intransmissível, dá lugar ao texto anódino da agência ou ao primeiro ‘google’ que vem à tecla. Isto, nos dias que correm, quase sempre substitui o olhar autónomo e a memória do jornalista.
Infelizmente, acho que estás carregado de razão.
Pedro tenho uma pequena dúvida…Porque se diz que o Otto é o último herdeiro ao trono da Austro- Hungria? Ele teve e tem filhos entre os quais o Carlos que dá continuidade ao nome dos Habsburgo (E também os há em Espanha ainda não há?)
É uma boa pergunta, Daniela. Em estrito rigor, deveria ter escrito o último herdeiro directo por ser filho do imperador Carlos, sobrinho de Francisco José e último detentor da coroa. Otto de Habsburgo abdicou dos direitos dinásticos quando se tornou cidadão alemão. Foi, aliás, destacado membro da CSU bávara e eleito deputado europeu pela Alemanha.
Otto de Habsburgo, que grande referência e que exemplo, a tantos níveis. Um Habsburgo que cresceu e não ficou preso nas malhas confortáveis da história. Este, sim, devia ser sempre o sentido do termo “noblesse oblige”.
Quanto à doença das redacções, que desvaloriza a experiência em detrimento de outras “aptidões”, Pedro e João, é assim em todo o lado. Temos muito que aprender… (a Europa com os EUA, para começar).
A infantilização das redacções nota-se até na forma de escrever e dizer as notícias, Laura. Com o recurso a expressões como ‘sexagenário’ a propósito seja do que for. Um ‘nonagenário’ quase ‘centenário’ como o arquiduque Otto deve equivaler ao paleolítico.
Deve ser isso mesmo, paleolítico… 🙂 Ainda havemos de voltar a perceber o que são “senadores”.
Das redacções, nada conheço. Mas sei o que se passa noutros meios profissionais e a lógica imperante é a mesma.