Acabo de chegar de Inglaterra. Enquanto os portugueses estão preocupados com as sanções da UE, temendo a expulsão (como se isso alguma vez fosse acontecer, qualquer que seja o défice) desta confraria que já ninguém sabe exactamente o que é nem para onde caminha, os ingleses estão mortos por sair dela. Muitos deles, muitos mais do que se pensa. Cameron farta-se de fazer discursos inflamados – aflitos, diria mesmo – apelando ao Sim no referendo de dia 23, sinal claro de que não é nada improvável uma vitória do Brexit. Até o funcionário do aeroporto que me despejou a mala inteira numa mesa (por causa de um maldito creme de 30 ml que eu não pus no maldito saquinho de plástico) e revistou tudo com o ar enfadado de quem considera pertencer a uma casta superior, me disse, antipático: “Da próxima vez que cá vier, esse documento que tem na mão já não lhe vai servir de nada”. Fingi não ter percebido e perguntei-lhe se o meu BI estava ilegível ou fora de prazo. Respondeu-me, no mesmo tom seco, “Não, mas vai precisar de um passaporte porque nós já não estaremos na UE. Não precisamos da Europa para sabermos quem somos.” Respondi-lhe que nós, portugueses, também não. E acrescentei, de nariz empinado – apesar do pouco edificante espectáculo dos meus soutiens e outras intimidades espalhados na mesa entre nós – “Talvez o senhor não saiba que Portugal tem as fronteiras mais antigas da Europa,” (eu sei que não é exactamente assim, mas cheguei para ele) “mas, sabe, achamos que a Europa precisa de nós”. O resultado foi uma cara ainda mais antipática e algum tempo extra de inspecção aos meus pertences, mas saí dali consolada.
(Fotografia – Chema Madoz)


“mas, sabe, achamos que a Europa precisa de nós”.
É o que se chama um final delirante 😉
Claro que é, mas chegou para calá-lo. Era tudo o que eu queria. 🙂
Na fotografia que ilustra o post, vê-se na parte de cima um mapa da Indochina. (Na parte de baixo não entendo do que se trate.) Não percebo o que tenha tal mapa a ver com o post.
Ora bem, vamos então por partes e devagarinho: uma mala de viagem, o mundo lá dentro, fronteiras. Rings a bell, now?
Além, claro, do génio de Chema Madoz.
Ah, é uma mala de viagem? OK. A mim parecia-me a modos que uma caixa de madeira.
Admira-me que não me tenha perguntado o que tem o título que ver com o texto. Olhe que está a perder qualidades, Luis Lavoura.
Portugal já teve tantas fronteiras, que as actuais têm 42 anos.
Era do Minho a Timor.
Quero vê-los aos ingleses quanto vieram ao algarve e tiverem que demorar mais do que o normal e verem cidadãos de outros países a despacharem-se mais depressa.
Ora aí está!
“You know, we’ve upgraded Algarve’s turism and it would be a blessing not having british drunk hords down there.”
E a terem de pedir vistos para passarem cá férias. 🙂
Portugal a pedir vistos aos turistas ingleses? Teria a sua graça.
E os nossos emigrantes lá?
Continuamos a não perceber bem a nossa pequenez e insignificância. Ainda se tívessemos as contas em dia, podíamo-nos dar ao luxo de alguma bravata. Sendo o único país europeu (ou, talvez, do mundo) que não tem um superávit há 47 anos temos pouco a dizer ou a fazer seja a quem for.
Talvez pedirmos a inabilitação, a designação de um curador. Até podia ser inglês.
E pronto temos o nacionalismo bacoco em vez do inteligente.
Gastar energias a dificultar a vida dos outros sem ganhar nada com isso.