Olá, leitura


Pedro Correia,

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Abro uma obra de literatura portuguesa contemporânea – um romance muito conceituado, coberto de elogios. Leio as primeiras cinco linhas: deparo com três palavras que me desmobilizam de imediato. Três peças de artilharia pesada: “adejando”, “ajoujado”, “ajaezada”. São indícios claros de indigestão vocabular. Fico por aqui. Fecho o livro, devolvo-o ao sossego da estante.

Pego noutro: uma edição portuguesa antiga de uma obra de William Faulkner, O Homem e o Rio. Com prefácio do tradutor, figura com reputação. Há muito que prometi a mim próprio deixar de ler prefácios: arrependo-me sempre que me esqueço desta promessa. Foi o caso: vou a meio quando percebo que o prefaciador, além de resumir o enredo da novela, apressa-se também a desvendar o seu desfecho.

Travo a fundo, salto páginas – adeus prefácio. Agrada-me bem mais este começo: «Era uma vez dois presidiários (passou-se isto no Mississípi, em Maio, no ano da cheia de 1927).»

Olá, leitura. Durante uns dias terei o Faulkner à cabeceira.

 

Imagem: Faulkner na época em que escreveu O Homem e o Rio

44 comentários em “Olá, leitura”

  1. O que mais me seduz num escritor é a sua capacidade de transmitir a sua visão pessoal da situação que retrata quer concordemos com a mesma ou não. Um exemplo, no “Ensaio sobre a Cegueira” Saramago acabou por criar aquilo que mais detestava: um grupo de heróis à boa maneira de Hollywood. Tinha que emendar a mão, assim no “Ensaio sobre a Lucidez” Saramago diz-nos o que acontece aos seus heróis, foram chacinados um por um, sendo o cão o último a levar com um balázio. Quando li o romance “detestei” a mensagem, estava de férias e atirei o livro com alguma violência para o areal. Mas um grande escritor é isso: não nos deixa indiferente. Tudo isto para dizer que o prefaciador português não se limita a revelar o enredo e respectivo final dá-nos na maioria das vezes a sua interpretação pessoal como sendo a verdade absoluta. Uma boa leitura nestes tempos em que estamos quase a atingir a impunidade de grupo.

    1. Toca num ponto fundamental: um grande escritor nunca nos deixa indiferente.
      Já senti isso em relação a Saramago, já senti isso em relação a Lobo Antunes (de quem leio agora o romance “O Esplendor de Portugal”, que me está a tocar de forma muito intensa).

  2. É engraçado, já me aconteceu exactamente isso com um escritor português contemporâneo, muito aclamado pela crítica e recomendado por amigos. Achei pretensioso e não passei das primeiras páginas.
    Gosto de literatura simples e luminosa. Os clássicos são sempre uma boa opção.
    Estou a reler O Crime do Padre Amaro. É ainda melhor do que me lembrava. Simplesmente fenomenal.
    🙂

    1. No último ano li ou reli várias obras de Eça: “A Cidade e as Serras”, “O Conde de Abranhos”, “Correspondência de Fradique Mendes”, “A Tragédia da Rua das Flores”…
      Mesmo nas chamadas obras menores deste grande escritor encontramos trechos dignos de figurar em qualquer antologia.

    2. Curiosamente também estou a reler Eça. É gratificante e estimulante e apesar dos spoilers de outras revisitações, não me esmorece o entusiasmo, ao contrário de outros escritores portugueses, contemporâneos e ditos conceituados.

      1. Ando a ler ou reler há ano e meio romances portugueses do século XX. Tinha muitas lacunas: Agustina, Aquilino, Brandão, mesmo Saramago e Antunes.
        Isto permitiu-me conhecer obras muito interessantes, de que tenciono falar aqui, e consolidar o meu gosto antigo por autores como Vergílio Ferreira, Namora, Rodrigues Miguéis, Ferreira de Castro…

        Compensa termos um plano de leitura e mantermo-nos fiel a ele.
        Por exemplo: decido que nos próximos três meses lerei dez romances de autores portugueses do século XXI. Ou dez romances escritos por mulheres estrangeiras dos séculos XIX e XX.
        Faz sentido ordenarmos as leituras desta forma.

        O tempo da leitura caótica, em que tudo quanto vinha à rede era peixe, passou. Há que aproveitá-lo bem, mesmo em confinamento. Direi até: sobretudo em confinamento.

    1. Eu também faço isso.
      E muitas vezes também releio o princípio. E às vezes, depois de reler o princípio continuo, e releio o livro todo outra vez.
      Pancadas… 🙂

      1. Por outro lado, mantenho-me intransigente na recusa de ler badanas.
        São demasiadas vezes escritas por gente incompetente e cedem à tentação de desvendar enredos e até antecipar desfechos.
        Guardo distância sanitária dessa fauna.

        1. Há uma lógica para começar a ler jornais pela última página. Por ser um espaço nobre para publicação de uma crónica especial, do texto principal colunista desse periódico ou até o do chamado “artigo de fundo”.
          Não só em Portugal. O ‘El Mundo’, por exemplo, ocupou quase 20 anos o espaço privilegiado da sua última página com a coluna do grande escritor Francisco Umbral. Era quase obrigatório começar a leitura do jornal por esses textos.

  3. Uma edição mais recente junta a essa novela (muito bem traduzida por Ana Maria Chaves com outro título Rio Velho) uma outra « Palmeiras Bravas » com tradução de Jorge de Sena. Os capítulos das duas novelas aparecem alternadamente – creio que foi originalmente a opção do Faulkner. Eu preferi ler uma de cada vez.
    São duas belas novelas.

    1. Gosto muito de Faulkner, de que conheço (entre outros romances) “Santuário”, “Sartoris” e “O Som e a Fúria”. É um escritor a que regresso sempre com imenso agrado.

    1. Faulkner é considerado um autor “difícil”. É uma fama que não nos deve afastar das obras dele. Pelo contrário, devemos considerá-la um estímulo adicional para mergulhar num dos grandes universos ficcionais do século XX.

  4. Nunca leio prefácios, embirro com eles desde miúda.Quando me lembro, leio-os depois de terminar o livro. Tantas menções ao Eça nos comentários fizeram-me lembrar “A Perfeição” um conto dele que só li este Verão, onde encontrei esta frase (que não me atrevo a qualificar), que me ficou na cabeça durante dias e que trouxe o verbo trambolhar para o meu vocabulário.

    “Sete anos, sete imensos anos, iam passados desde que o raio fulgente de
    Júpiter fendera a sua nave de alta proa vermelha, e ele, agarrado ao mastro partido, trambolhara na braveza mujidora das espumas sombrias, durante nove dias, durante nove noites, até que boiara em águas mais calmas, e tocara as areias daquela ilha onde Calipso, a Deusa radiosa, o recolhera e o amara!”

    E ainda hei de me abalançar a ler o Faulkner em inglês.

    1. Eu há muitos anos deixei de ler badanas, prefácios e editoriais (sem deixar de os escrever, neste último caso).
      Há excepções, admito. Mas que só se destinam a confirmar a regra.

      (Tenho aí um Faulkner em inglês: “Soldier’s Pay”. Hei-de pegar nele.)

        1. Passamos o tempo a falar dos melhores livros que lemos. Um dia destes lanço aqui um desafio para falarmos dos outros, dos injustiçados e excluídos, dos marginalizados e desprezados.
          Os piores livros que já lemos.

      1. Nas séries escandinavas também alinho — e nos filmes e séries inglesas também embora comecem a ficar demasiadamente doentias com as quotas para as etnias todas. Não faz sentido. Os produtores até já têm de incluir à força criaturas pela cor da pele, ao ponto de serem obrigados a fazer o Wuthering Heights com um Heathcliff preto.

      1. «ajaezado» faz-me sempre pensar num burro. Devia ser o ajoujado, mas que fazer?

        Que o meu caixão vá sobre um burro
        Ajaezado à andaluza…
        A um morto nada se recusa,
        E eu quero por força ir de burro!

  5. “Aujourd’hui, maman est morte. Ou peut-être hier, je ne sais pas. J’ai reçu un télégramme de l’asile : « Mère décédée. Enterrement demain. Sentiments distingués. » Cela ne veut rien dire. C’était peutêtre hier.”

    Quando se inicia um romance assim, não é preciso ajoujar ninguém nem ajaezar o quer que seja, porque se fica logo prisioneiro sem vontade de adejar dali para fora.

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