Ódio à solta em antena aberta


Pedro Correia,

Esta manhã, a Antena 1 abriu os seus microfones à voz do “povo” que fervia de indignação contra Israel. Só escutei alguns minutos, mas foi quanto bastou para ouvir as coisas mais espantosas. Coisas como estas:

 

“Hitler só cometeu um erro na II Guerra Mundial: não ter exterminado apenas os judeus.”

“Os judeus são por natureza insociáveis.”

“É pena que não haja um país que de um momento para o outro perca a cabeça e extermine Israel.”

“A comunidade internacional tem de tomar medidas contra o Estado nazi de Israel.”

 

Repito: só escutei alguns minutos. Mas foi o bastante para ter ouvido proclamações carregadas de ódio racial, reles exclamações xenófobas, frases negacionistas pretendendo “desculpabilizar” o nazismo e até instigações abertas ao genocídio. Tudo a pretexto das lamentáveis mortes ocorridas a bordo do navio turco ao largo de Gaza, imputáveis ao Governo e às forças armadas de Israel.

Há quem possa chamar a isto serviço público. Eu não.

28 comentários em “Ódio à solta em antena aberta”

  1. Eles andam por aí, não é Pedro?
    Os padres, os Monsenhores, os papas, que os defendem e promulgam, os intelectuais, estes e aqueles, os neo-nazis que negam o Holocausto.

    Já tinha lido e comentado no Facebook do Henrique Monteiro, algo idêntico, mas não tão feroz.

    Faça-se então serviço público, afinal até pagamos uma taxa de radiodifusão, passem em horário nobre e também na RTP1, documentários e filmes sobre o que foi realmente o Holocausto.

    Não consegui ler as acusações todas, saltei ao fim do segundo negrito.

  2. Desce ao abismo e vê .
    como trabalha o ódio,
    como o ensinam às crianças,
    como é fácil a morte.

    – Fernando Pinto do Amaral – in Em Voz Baixa.

  3. Mas a TSF há muito que deixou de ser serviço público, com aquela garra e objectividade informativas a que nos habituou durante alguns anos.
    Quanto à fúria colectiva contra Israel… é apenas mais um caso de «condicionamento» noticioso, para quem não conhece verdadeiramente o assunto e traga aquilo que lê sem conhecer nem os ingredientes, nem o cozinheiro.

  4. Enganei-me, claro. O Pedro C. falava da Antena 1 e não da TSF. Eu é que li logo assim, porque ultimamente a minha zanga contra esta última cresce diariamente… E o facto é que a TSF, não sendo do Estado, fazia em tempos um jornalismo exemplar, muitas vezes qualificado de “serviço público”, por oposição à modorra dos propriamente ditos.

    1. Chloe, não leve a mal, mas o que é que a leva a ouvir uma rádio que acha que não presta? Vontade de se zangar? Masoquismo?

      1. Não levo nada a mal, claro. É simplesmente um hábito de longos anos, este de ouvir a TSF logo de manhã e ao fim do dia, no carro. Não tenho paciência para aqueles programas matinais do género “levanta astral”, barulhentos e festivaleiros. – Nunca lhe aconteceu persistir num hábito porque não encontra alternativa, e porque no fundo espera que o que lhe começa a desagradar seja passageiro? É o meu caso.

  5. E não pode ser serviço publico no sentido de nos dar a ver quem somos como país?Ou como povo? Que isso do “povo de brandos costumes” pode ser 1 ilusão ( e perigosa)?
    Já agora,serviço publico também fazem vocês aqui, e do bom! 🙂

    1. Não, Rosa, não é serviço público dar voz às vozes condenáveis, à falta de princípios, ao ódio, à xenofobia e ao racismo. Estamos cheios de saber quem somos e como somos, certo?

      Inversamente, é serviço público usar alguma pedagogia para sermos maiores e melhores, para sabermos mais e seguirmos em frente. Divulgar pode confundir-se com promover e é inaceitável dar voz ao assassino que matou a avó na banheira e que explica como o fez, como conseguiu escapar à justiça e como tenciona matar a outra avó na banheira.

      Obrigado pelas suas palavras dirigidas ao DO, Rosa.

  6. Caríssimos,
    Não se trata da TSF ou da Antena 1 ou de qualquer outra estação de rádio ou TV.
    Por exemplo as TVs diariamente abrem as antenas a ouvintes que dizem as maiores barbaridades com a maior naturalidade.
    Dizem eles que democracia é dar voz às pessoas, mas não creio que seja isso que façam: eles dão voz a grupos organizados ou a pessoas que se tornaram “habitués” através dos telefonemas para lá.
    No fundo essa tal democracia mediática dá voz a um número ridiculamente pequeno de pessoas.
    Já ouvi os maiores disparates que me parecem francamente directamente tributários da mais santa ignorância.
    Mas já ouvi também uns quantos celerados fazerem afirmações sofisticadas e aparentemente conhecedoras dos temas em debate, que me provocam profunda repugnância.
    Esta nova moda de dizer mal dos judeus entronca nessa lógica: um biltre qualquer sabe que não pode deitar cá para fora o seu ódio primário aos judeus sem justificação; a sorte dos pobres palestinianos vem a calhar que nem ginjas para dar largas a esses ódios primários.
    Esta “democracia” mediática está profundamente doente, até porque os jornalistas/moderadores frequentemente são quase tão ignorantes como os comentadores encartados, é evidente que não têm qualquer critério e deixam passar todas as enormidades e todas as loucuras – a maioria deles não sabe sequer o que foram os “pogroms”.

  7. Ódio à solta, dizes bem. E basta um qualquer alvo de ocasião, muitas vezes totalmente desconhecido, para se destilar todo o ódio acumulado a outros alvos mais reais e mais próximos. Lamentável é que seja dada cobertura a essas vozes irracionais.

    1. Fico sempre espantada quando ouço, leio ou vejo coisas assim. Para que servirá o horror da história se não aprendemos nada com ela!
      Uma tristeza tudo isto.

  8. Pedro, não se consegue mesmo escutar mais do que os minutos necessários para perceber o ódio, preconceito, incultura e simplismo da “análise” (ou seja lá o que for que se possa chamar a esse tipo de grunhidos que passam por opinião) que tão facilmente se faz. Apesar de já não surpreender, vemos para crer. Também não surpreende (um péssimo sinal, claro) o facto de rádios e tvs estatais os veicularem. Pena é que essas pessoas não possam experimentar a vida em Gaza sob “protecção” ou jurisdição do Hamas.
    Joana

    1. É como dizes, Joana. Ódio, preconceito, cegueira, fanatismo, hipocrisia. Apelos à destruição do Estado de Israel na rádio pública. Bastaram poucos minutos para me sentir totalmente enojado.

  9. Ou entendi mal ou a maioria dos comentadores aprova o sionismo e suas consequências para os povos que habitavam a Palestina. Eu não sou contra os judeus, da mesma maneira que não sou contra os maometanos ou católicos; mas sou contra os crimes que eles praticam em nome das suas convicções religiosas.
    Não é a morte de alguns activistas que está mal. Eles sabiam o que os esperava.
    O que está mal é o bloqueio a Gaza e a cumplicidade internacional com esse bloqueio. Como reagiria o Governo americano se uma frota de navios iranianos tentasse furar o bloqueio a Cuba?

    1. Pela parte que me toca, entendeu mal.
      Verberar o ódio primário que por aí anda a grassar contra os judeus não é o mesmo que aprovar as malfeitorias que o Estado de Israel comete por exemplo na faixa de Gaza.
      A realidade não é uma folha de papel impresso a preto e branco.
      É policromática.
      E a 3 dimensões.
      Com montanhas castanhas e depressões azuis.

    2. Acho que entendeu mal, José. Não encontrei comentários que permitissem essa conclusão. Quero acreditar que a maioria aqui condena a violência e, sobretudo, a morte, independentemente da(s) causa(s).

  10. Curioso não é é? Nem uma única nota sobre o que se passou….
    Repetição até à náusea do velho discurso, dos pobrezinhos contra o Mundo. Como se ali tudo fosse mel, e leite. Quando um grunho , que é Embaixador em Portugal, diz alarvidades tipo “os terroristas que iam dentro dos navios”,isso é o quê?Mesmo depois de saber das mortes existentes….
    Pois o problema é sempre o mesmo, quando se quer ver sò para um lado….
    Embora se aparente, dar um ar liberal á coisa!

  11. Olá, eu sou brasileiro, e pretendo casar em Portugal, com meu amor que é alfacinha. Eu sempre pergunto a ele sobre como é aí, quero sempre saber como andam as coisas, como vocês vivem aí em Portugal, e admiro muito a cultura portuguesa: o Fado, os poetas, a maneira única de falar o português…

    Mas, depois de ler isto, estou indignado. Pensei, de verdade, que era uma brincadeira, que se trata-se de algo que não era real. Aqui no Brasil, é crime negar o Holocausto (a Shoah), e é crime fazer declarações de ódio ou que incitem ao preconceito. Dá cadeia, é proibido.

    Admiro os portugueses, são pessoas mais cultas que nós, mais politizadas, não são gente fanática. Eu sei o que falo. Meu país é, por exemplo, laico no papel, mas o que se vê é cada vez mais a subida ao poder de políticos religiosos e conservadores. E aí em Portugal, até o casamento gay foi aprovado! Não é para qualquer país esse luxo, vós sois realmente uma sociedade progressista.

    Lamento muito esse facto, e até agora confesso que não sei se creio-te ou não. É mesmo verdade? E ninguém fez nada para prender esses criminosos? Quero dizer, tu podes ir na rádio, na televisão ou num outro veículo de comunicação e proferir palavras de ódio gratuito aos membros de uma minoria da sociedade, assim sem mais nem menos? Onde fica a justiça?

    Eu, como um admirador de Portugal, como um cidadão consciente que me imagino ser, exijo uma retratação (no mínimo) por parte do indivíduo que ousou dizer essas coisas horríveis, e melhor seria uma punição legal ser imediata e devidamente aplicada. Onde está o bom senso e o respeito? Existe alguma lei que puna a essas pessoas?

    Obrigado pela atenção, e bom sábado.

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