Obviamente demitam-nos.


Luís Menezes Leitão,

 

O grande problema dos partidos políticos portugueses é a falta de controlo político sobre a sua liderança. Como existe muito pouco espírito crítico a nível interno, é possível permitir-se a um líder ir somando erros sobre erros, que levam o partido, e se estiver no governo também o País, ao desastre. E as poucas vozes críticas que surgem são normalmente silenciadas pelo coro da côrte de fiés, que habitualmente circula à volta do líder.

 

Foi assim que Santana Lopes fez embarcar o PSD num governo sem qualquer legitimidade política, que foi acumulando erros sobre erros, acabando o Governo ceifado por Sampaio, com o PSD a tentar evitar o evidente desastre eleitoral subsequente cantando em hino louvores ao “menino guerreiro”. Sócrates, pouco tempo antes de atirar o país para a bancarrota, era reeleito pelo PS  em Congresso com 91% dos votos, não tendo o seu partido naturalmente escapado ao desastre eleitoral subsequente.

 

O governo de Passos Coelho enfrenta neste momento a mesma crise de legitimidade do governo de Santana Lopes. Foi eleito com um programa completamente contrário ao que está agora a realizar e tem-se revelado de um enorme desprezo pelo sofrimento das pessoas, o que é chocante para a matriz humanista do PSD. Passos Coelho transformou-se num novo “menino guerreiro”, querendo combater a todo o custo pela execução do programa de ajustamento, efectuando assim a maior engenharia social a que o país alguma vez foi sujeito. E os que circulam à sua volta minimizam os custos enormes disto para o país. Só a maior inépcia política pode levar Passos Coelho a anunciar estas medidas a seco, sem qualquer palavra para os sacrificados, a que se segue este patético post no facebook, terminando com o ir assistir a um concerto logo a seguir. E que dizer desta inenarrável declaração de Aguiar-Branco, segundo o qual os funcionários públicos só estão a ser “um bocadinho prejudicados nas remunerações”.

 

E, como já se sabia, estas medidas brutais não são suficientes, porque para quem tem esta insensibilidade social nada é suficiente.

 

Neste momento o PSD está confrontado com uma questão muito simples. Ou vai atrás deste segundo “menino guerreiro”, deixa-o afundar o país, e afunda-se com ele, ou põe imediatamente termo a este Governo. Com a capacidade de sobrevivência que o PSD sempre teve, espero que tome a decisão que se impõe e que é a de parar imediatamente com isto. O governo de Santana Lopes pode ter cometidos muitos erros políticos, mas pelo menos não era cruel. Pelo contrário, este governo é de uma crueldade sem limites, com um profundo desprezo pela desgraça dos sacrificados e pelos limites constitucionais à sua actuação. E a crueldade deliberada, como diz a personagem de Blanche Dubois no Um Eléctrico chamado Desejo, é a única coisa que é insusceptível de ser perdoada. Os eleitores portugueses nunca perdoarão ao PSD o que este Governo lhes está a fazer.

 

Pessoalmente espero que Passos Coelho se tenha divertido imenso a assistir ao concerto de Paulo de Carvalho. E espero também que o cantor não se tenha esquecido de lhe dedicar esta música.

22 comentários em “Obviamente demitam-nos.”

  1. Quanto aos salários dos funcionários públicos, é bom não esquecer que já desde há 2 anos que têm um corte mensal que pode ir até 10%, dito como transitório mas que é permanente. A que acresce a redução de 2 salários.

    1. Podem-nos pagar em espécie…:
      Bilhetes da CP/METRO/ Transtejo…. senhas de ração no Pingo Doce e Continente…

      Anda tudo louco! Ou pior… quer fazer-nos!

  2. “E, como já se sabia, estas medidas brutais não são suficientes, porque para quem tem esta insensibilidade social nada é suficiente.”

    Não são suficientes porque a simples matemática diz que não são suficientes.
    Portugal pediu emprestado novos 13 mil milhões de euros até Julho…
    Contas de somar e subtrair, aquilo que fez nossa civilização ocidental diferente de um mero tribalismo.

    Mas como os argumentos e os da maioria estão a um nível mais baixo que o “criacionismo” -esses ainda podem dizer que Darwin é criação de Deus-…o que conta é simplesmente o romantismo.
    Portugal terá de voltar à riqueza dos anos 90. Se se portar bem e não fizer estupidez.
    Pois foi a partir daí a riqueza só cresceu com Dívida.
    Ou então muda e produz mais. Mas os portugueses não mudam.

  3. Então, e se não for com soluções destas, os futuros governantes do país carregados de legitimidade, vão legitimamente buscar o dinheiro em falta aonde?
    Tenho lido e ouvido nos media todas as declarações que me foi possivel, todas a criticar o 1º ministro, (hoje até fiz o sacrificio de ouvir o discurso do Tozé no encerramento da Universidade de verão do PS em Évora), mas ainda não vi ninguem dizer como é que se devia fazer. Para além dos lugares comuns do costume, é claro.
    Por isso é que ando há dias a defender que o Passos Coelho, depois de aprovar o OE/2013, porque seria criminoso deixar o país sem OE mesmo que seja mau, devia apresentar a demissão ao sr PR, e deixar os portugueses lá para o principio do proximo ano, pronunciarem-se nas urnas sobre o seu futuro.
    E não defendo isto por achar que este governo tem falta de legitimidade democratica como diz o ilustre autor do post, mas porque temos actualmente em Portugal os partidos de esquerda, os sindicatos, as confederações patronais, o Tribunal Constitucional, e até, desconfiança minha, próprio Presidente da Republica, todos juntos contra as medidas deste governo; as eleições serviriam apenas, e já é muito, para clarificar as águas! E depois, siga a dança!

    1. A questão não é dinheiro, nem sequer a brutalidade das medidas. É a incapacidade de ser honesto e fazer política. Política não são truques: exige uma inteligência e determinação que este parece não parece ter.

    2. Este senhor declaradamente é apoiante do Governo que nos desgoverna, o que nesta altura parece pregar no deserto ou então ou é rico ou míope.

  4. Embora as declarações de membros do governo sejam contraditórias e não tenhamos ainda a informação necessária para uma avaliação mais rigorosa, De facto estas medidas terão um efeito relativamente marginal sobre o défice na medida em que mesmo a pequena melhoria das receitas da segurança social será, pelo menos em parte, absorvida pelo aumento das deduções em IRS. O que só torna ainda mais inexplicável uma medida que: i) não contribui significativamente para a redução do défice e ii) contrariamente ao anunciado irá, pelo menos em 2013 agravar a recessão e o desemprego.

    1. Sr Santos explique lá isso do IRS. Que se saiba os salários brutos continuam sujeitos aos mesmos descontos para efeitos de IRS. E se mexerem nos escalões, os rendimentos mais elevados (como sabemos 50 mil contribuintes sustentam quase 30% do IRS), as receitas deste imposto vão fatalmente subir. Em relação ao IVA, já é outra história.

      1. Uma vez que as contribuições sociais são dedutiveis para efeitos do IRS nos termos do artigo 25.º do CIRS isso significa que não havendo alteração deste Código para um mesmo nível de salário bruto a subida anunciada das contribuições sociais a cargo do trabalhador irá conduzir a uma redução do IRS a qual poderá concretizar-se já em 2013 – caso esse efeito seja tido em conta na elaboração das tabelas de retenção – ou apenas em 2014 aquando da liquidação do IRS relativo a 2013.

  5. Fico com a sensação que temos rapazitos perigosos e deslumbrados, por facilmente manipuláveis, a governar este país. Eles fazem-me lembrar os putos, passado o período da “aborrecência”, que julgam poder fazer tudo sem que lhes caia a casa em cima.

  6. Obrigado.
    Obrigado pelas palavras, pelo humanismo, pelo rigor, pela justiça e simplicidade das mesmas.
    Nas entrelinhas, este texto é humano e como tal contrário à crueldade declarada e atento à realidade social do paìs (independentemente da cor ou do partido analisado porque PPC brincava ao Risco com AJS nas jotas, pelo menos assim me lembro).
    No Monstro ninguém toca ou mexe. E reformas estruturais devidamente estudadas nos pilares Justiça, Educação e Saúde não serão executadas/implementadas por qualquer dos partidos representados pela população portuguesa. E assim segue este fado, até que voz lhe doa e se apague.

  7. Matematicamente, a ordem dos factores não altera o seu produto.
    Humanamente, a escolha dos factores para alcançar o pretendido produto, é imoral, parcial e comprometida.
    Coisas simples, dogmaticamente simples.

  8. Não sei se alguma vez comentei um post seu (não comento muito) mas já discordei muitas vezes. Este post está excelente. Em cheio! Parabéns e devo confessar que essa analogia com o PSL já me tinha ocorrido. Agora o problema é que na Presidência está quem está. Até quando aguentaremos tantos disparates e dislates?!

    1. Está hoje mais do que provado que o golpe de estado constitucional perpretado pelo então Presidente da Républica Jorge Sampaio, que resultou na defenestração de PSL, e a demissão de um governo com o programa aprovado pelo Parlamento onde existia uma maioria absoluta, só trouxe coisas boas para Portugal e para os portugueses.
      Tão boas, que hoje estamos aqui a discutir a injustiça das medidas tomadas pelos que têm de resolver os problemas que a sábia decisão presidencial provocou.

      1. ah! golpe de estado constitucional sobre um governo errático e não eleito?! Golpe de estado económico é o que estamos a assistir. Pontos de vista…

  9. O número de deputados eleitos devia depender do número de votantes.Assim, se a abstenção fosse, por exemplo, de 40%, apenas 60% do nº total de deputados seriam eleitos e ocupariam os seus lugares. As restantes cadeiras ficariam vazias.Se determinado Círculo elege 10 deputados, só iriam 10 para a AR se não houvesse abstenção, caso houvesse seria aplicada a regra acima. Esta seria a única maneira democrática de responsabilizar efectivamente os políticos – não agradavam aos eleitores, estes não votavam como forma de protesto e o desejado poder não seria atingido. Assim, resolver-se-íam certamente muitos problemas.

  10. …muito pouco espirito critico, ou muita sofreguidão pelo “pote”? Será de aproveitar, enquanto se tem o dito cujo á mão…!

  11. O Passos não é cruel. A questão parece residir em alguma falta inteligência e na falta de escrúpulos de quem o aconselha e rodeia.
    Tragam o Rangel (com quem pessoalmente não simpatizo muito, mas que me parece mais “denso”) e ponham gente mais velha no governo.
    As medidas poderão ser muito idênticas, mas nós não somos os “colaboradores” de uma empresazeca de um padrinho.

  12. Muito bom o seu post.
    Revejo-me no que escreve e, desde sexta feira que aguardo novas do Sr. Presidente Cavaco Silva. Parece-me que vou ter que esperar sentada.

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