O país auto-imune


Teresa Ribeiro,

Vejo na televisão uma reportagem sobre jovens enfermeiros que se preparam para fazer as malas e deixar o país, talvez para sempre, e vem-me à memória uma frase (agora muito) batida: “Os melhores são os que saem”. Ninguém a contesta, porque não só reflecte a opinião que temos acerca dos que emigram, como do país que os leva a emigrar.

Portugal é um país auto-imune, cujo povo mal tratado criou uma imagem de si tão reles que provoca a perplexidade nos forasteiros. Não sei quando teremos forjado sentimentos nacionalistas mais empenhados em proclamar a nossa inépcia que as obras valerosas que nos foram da lei da morte libertando, o que sei é que as páginas mais gloriosas deste país se escreveram quando nos fizémos ao mundo, excretados pela mesma nação valente que deu um pontapé no traseiro dos emigrantes que zarparam daqui para fora nos anos sessenta. Ou seja, o melhor da nossa História é uma história de exclusão.

Agora voltamos ao mesmo. E tal como em criança ouvia os mais velhos apontar os portugueses bem sucedidos no estrangeiro como o exemplo de que afinal até somos bons, não tarda voltarei a escutar como um fado a mesma narrativa e a meditar sobre essa alquimia de fronteira, que transforma tugas desvalidos em gente de sucesso.

Os que saem até podem ser fantásticos, mas se não conseguirem fazer carreira num sistema que funcione, de pouco lhes servirá o talento. O sistema, essa abstracção, é criado pelas elites. São elas a chave dos estudos comparados entre nações. Elites. Em Portugal o que temos?

“Parece-me óbvio que há uma falta de empresários, de capitalistas. Será um problema ancestral? Vem da nossa maneira passada de viver e de gastar? Dos desperdícios? Do facto de os ricos portugueses terem vivido à sombra do Estado durante 200, 300 ou 400 anos? De o Estado ter ocupado tudo desde os Descobrimentos? Não quero ir por aí, mas o resultado é este. Há poucos empresários, poucos capitalistas com capitais, as elites são fracas e têm uma noção medíocre do serviço público. É raríssimo encontrar ricos, poderosos, famílias antigas, com um sentimento forte do contributo que podem dar à sociedade”, reflectia António Barreto em 2009, numa entrevista concedida ao jornal i.

Desactualizou? Nada. Nessa entrevista falava também de iliteracia, da inoperância da justiça e a propósito referia: “Há 20 anos os magistrados vinham em primeiro lugar, era o grupo profissional que mais confiança merecia dos portugueses. Estão hoje em penúltimo lugar; abaixo só os deputados“.

Três anos passam a correr. O retrato desta plataforma triste de onde se pode ver o futuro apenas por um óculo, mantém-se mais actual que nunca.
 

23 comentários em “O país auto-imune”

  1. Certíssimo, Teresa. “Alquimia de fronteira” é uma brilhante expressão para o eterno mistério que nos define: os melhores fora, os piores dentro.

    1. Parece magia, Ana. Tem servido para alimentar a ideia de que só os medíocres ficam, iludindo a questão de fundo que é a disfuncionalidade deste país e que – coincidência – também não é mistério nem magia.

      1. Por acaso (não reparei) o que escrevi tem duas leituras. A tua é uma delas, e não a renego, mas o que queria dizer mesmo, é isto: saímos e somos os melhores lá fora, mas somos os piores cá dentro. Deve ser do ar…

  2. Pois, agora são os magistrados uma das causas da crise…

    1. Quem faz as leis deste país?

    2. Quem vota nos que fazem as leis deste país? Foram postos com pistolas apontadas pelos grupos económicos…

    3. Todo o politico para ter sucesso neste país tem que pensar “o que hei-de prometer, dar” porque sabe que a gulodice constitui a maioria.

    4. Quantos deputados desde 1987 têm relações com os grupos económicos conhecidos?

    5. Por acaso sabe que quando o dinheiro era gerido em cada tribunal era raro haver um défice? Quando é que mudou?

    6. Veja o curriculum de um ministro da justiça de 1945 a 1998, e compare com os subsequentes…

    7. Quem alterou mais de 6 vezes o C.P.P., mais de 10 vezes o C.P.C. (diplomas que regulam os processos)?

    8. Não é na Justiça que consta a grande fatia da despesa pública, não se compare com a Saúde, Educação, Segurança Social…

    9. A externalização económica dos processos de natureza cível é lenta. É um facto. Mas deve-se a quê? Ao critério legal segundo o qual um processo com um valor de mais 5 zeros de capital tem de ter um formalismo mais gongôrico, palavroso, barroco, … esquecendo os juristas (todos) que “time is money”.

    10. Quem desde 1995, falava de “direitos de defesa”, “direitos de audição” até ao infinito?…esquecendo que os direitos são desejos, e estes são infinitos porque a natureza humana nunca se satisfaz?…(a não ser por ocasião)

    1. Túlio, que um dos problemas mais graves deste país é a inoperância da justiça é tão consensual que nem se discute. Os magistrados, como todas as classes profissionais com representação e poder na área da justiça têm, obviamente, responsabilidades. Mas seria injusto dizer que estão sozinhos. Dividem-nas com advogados e políticos, obviamente.

  3. passamos a melhores fora por 4 motivos;
    – Entramos num sistema desconhecido, logo procuramos trabalho e não tachos.
    – Deixam de existir todos os habitos de socialisação, amigos, familia, etc
    -Depois o mais possivel é que esse novo sistema ser mais bem organisado que o nosso, pois se oferece trabalho, já é prova disso mesmo.
    – A necessidade de vençer é obrigatoria, para justificar a escolha de emigrar.

    Conheco emigrantes canadianos e americanos, inclusive familia minha. Dizem que no principio, quando se recomessa num outro país, para conseguir juntar algum patrimonio e alguma qualidade de vida, o melhor é andar sempre longe de outros portugueses, pois são a pior raça que se encontra em termos de inveja e de intrigas. Gente mesquinha.

    1. Também somos a “raça” que pior fala dos portugueses. Não precisamos que outros o façam.
      E deixe lá os quatro motivos; passamos a ser melhores porque queremos estar melhor, tão simples como isto.

      1. Antes de açoriano , sou português Se fosse alentejano por certo escolheria para meu nome portuguêsalentejano e assim por aí fora.
        Diga-me uma coisa, já experimentou a ir para um país estrangeiro, fazer vida, começando com uma mão à frente e outra atrás?

          1. fora do país não experimentei , mas tenho experiencia suficiente para dizer que o visto de turista acaba naturalmente, a partir desse momento, se não há qualquer apoio de retaguarda , é duro, a maior parte desiste.

  4. Como não querem conflitos os Portugueses são incapazes de se controlar. Não têm vontade.
    E por isso acabam de 25 em 25 anos a serem controlados por outros. É preciso um ditadorzeco para se controlarem durante 40 anos. E mesmo assim só 40 anos.
    E os emigrantes também vão ser controlados por outros…

    “The military penal code, otherwise called Articles of War – Artigos de Guerra – was severe; but the national manners proved more powerful than the laws. Justice proceeded with slow step; and notwithstanding the eternal threat of blows with flat of the sword, shooting, and hanging, the internal discipline sinned rather by indulgence than by severity.
    The Portuguese soldiers would have become excellent had pains been taken to make them so; tolerable officers could be trained without much difficulty; but the leaders were good for nothing…”

    Tempos Napoleonicos…de um Osprey sobre o exército português.

    O mais estranho é como os Portugueses gostam tanto de terem um Governo e de serem liderados e terem um Grande Estado Socialista, cada vez maior , talvez seja por isto, da mesma fonte:

    “Portugal is country of assemblies(juntas) which never assemble and councilors, who never give counsel…
    a greedy idleness…
    …it fastens upon mere plans the Government approves.The building of a bridge, draining of marsh the embanking of a river, furnish occasion for lavishing the public money on a multitude of persons who never fail to present themselves for the propose directing or superintending the works…”

    O Estado Moderno com as suas estruturas fixas ainda corrompeu mais o português.

    “Ou seja, o melhor da nossa História é uma história de exclusão.”
    Ou seja quando não temos segurança…emprego garantido e futuro assegurado e definido…

    1. Estamos em trincheiras opostas, como já percebemos há muito tempo. Não diabolizo o Estado, reconheço-lhe um papel imprescindível na regulação do mercado, no apoio aos mais desprotegidos (no desemprego, na velhice e na doença), na promoção da equidade e justiça social. Acredito que este modelo de sociedade, por ser o mais evoluído do ponto de vista civilizacional deve ser defendido a todo o custo.
      Mas defender o Estado não é defender o Estado gordo e mal gerido, a burocracia, a corrupção, o nepotismo e todas as outras doenças que foi contraindo. Quando argumentam, os liberais como o Lucky apontam-nos como os defensores do status quo, amantes da despesa irresponsável e do parasitismo estatal. Não conseguem fazer melhor se não enveredar por esta falácia?

  5. Tudo o e monumental em Portugal…

    Desde o Jerónimos ao Centro Cultural de Belem…
    Foi mmaná que nos caiu dos céus… Já lá vão 500 e tais!

    Agora, é tempo de sermos nós a “obrar”.

    Maos à obra!
    Eu já dei a minha parte : fui colonialista 37 anos !

  6. Teresa, concordando genericamente contigo (e com António Barreto), algumas notas:

    – Os empresários portugueses são parecidíssimos com os restantes portugueses;

    – Apesar de tudo, os (ou muitos dos) empresários portugueses arriscaram ao tornarem-se empresários;

    – Em Portugal, é muito difícil ser empresário se não se estiver ligado ao Estado (e os portugueses recusam diminuir o papel do Estado por, suponho, um Estado omnipresente lhes dar uma sensação de segurança – lê ou relê O Castelo, de Kafka, e constata como um sistema altamente burocrático pode tornar-se atractivo para muita gente);

    – Apesar de toda a incompetência (e ganância mesquinha) dos empresários portugueses, de leis que não ajudam, de impostos e custos de energia elevados, de uma economia que nas últimas duas décadas se voltou para os serviços (era mais fácil e dava mais dinheiro), as exportações portuguesas até se estão a comportar bem; talvez alguns empresários não sejam afinal assim tão maus.

    1. Sr. jaa
      Não sou empresário, por tal não conheço as dificuldades dos empresários em Portugal, devem ser muitas.
      Durante 25 anos este país foi inundado de fundos comunitários, fora excepções à regra, os empresários não precisaram de ser empreendedores, bastava-lhes manterem-se informados, de e como deitar a mão a mais um fundo comunitario.
      Para quê?
      – Para esse dinheiro sair do país através da zona franca para contas sigilosas na Suíça ou outros países.
      A Teresa fala da falta desta estirpe da raça, como causa da saída de Portugal de capital humano bem formado, com potencial de mudança.
      Nós somos um pais onde meia dúzia de famílias é que governam, tanto a si próprios como o país.
      Não conheci os tempos de Salazar nem os tempos da monarquia, mas sei que essas famílias já vêm governando isto desde há muito. Tivemos monarcas opulentos e esbanjadores que queriam andar pela Europa se pavoneando e contraindo empréstimos junto daqueles que poupavam e que acabaram por executar a divida e a monarquia. Sei que Salazar apoiava mas ao menos regulava o poder dessa gente, por forma a que o poder destes nunca fosse superior ao do estado.
      Essas famílias nem dão o rosto á politica, eles simplesmente movimentam as peças do xadrez e recrutam políticos para ajeitar a economia a seu favor a troco de um cargo em uma das suas empresas.
      Os governos ou recapitalizam, ou nacionalizam para dinamizar e depois voltam a privatizar. Golpes aprendidos com o Alves dos Reis, que comprava e pagava com dinheiro que ia buscar aquilo que havia acabado de comprar. Tristeza, muito tristeza, é o mínimo que se pode sentir por este país.
      Hoje vivemos na crise, mas marcas como por exemplo a Porsche nunca venderam tanto em Portugal como nos últimos meses, porque será?
      Agora é a ongoing “, uma politica empresarial única, que a mim mais me parece neocapitalismo sem escrúpulos: por onde passa, suga tudo até secar.
      Sr.jaa precisamos de capital verdadeiramente humano com sentido empresarial e nacional, que se afirme e una este país numa coesão do género da do Euro 2004, fazendo as pessoas terem esperança, pois a esperança é a única força capaz de vencer o medo. Porque só unidos poderemos manter a nossa identidade. Os que não quiserem que seja assim, devem ser considerados “personas non gratas”.

      1. portuguesacoriano: estou globalmente de acordo consigo – e com a Teresa (comecei por referi-lo logo de entrada). Mas convém perceber que, como em todas os outros grupos de pessoas, nos empresários há de tudo. O melhor que o Estado podia fazer era reduzir o papel que desempenha e deixar a concorrência funcionar. Mas os políticos não gostam da ideia; gostam de elaborar planos para o sector privado e de anunciar investimentos e de apostar em “sectores estratégicos” e de usar as obras públicas para fazer favores em troca de financiamento partidário e de amizades que são muito úteis quando saem do poder, etc, etc. E os empresários que se dão bem com estas ligações ao poder (alguns “formados” na escola do antigo regime) também não: teriam de aumentar o nível de eficiência das suas empresas (quando o Estado, de uma forma ou outra, lhes garante receitas, não precisam de se esforçar tanto). Já por várias vezes escrevi sobre o assunto, por exemplo aqui:
        http://escafandro.blogs.sapo.pt/177122.html

    2. Fala-se de responsabilidades das elites e acto contínuo, segue a conversa do ADN. Sim, corre-nos nas veias o mesmo sangue, mas a quem assacamos responsabilidades? Ao destino? Ou a quem por herança, engenho ou sorte se acha em lugares de decisão?
      Sim, a dependência do Estado creio eu ser inversamente proporcional à confiança no mercado, que sempre foi pobre e exíguo. É um vício que se tem de combater, mas entretanto é preciso ultrapassar todas as dificuldades que enumeraste no último ponto. Só assim os mais afoitos optarão por ficar em vez de lançar o seu negócio noutro sítio.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *