13 comentários em “Obiang deve poder resolver isto”

    1. Saberá esta gente quem foi (é) Dâmaso Salcede ? O que leram sobre ele – se de todo leram – há-de ter sido em “fichas” e “resumos” que é, parece, a forma preferida de abordar a literatura no nosso ensino. E se mesmo assim nada ficaram a saber, o mais provável, passam de ano. “Reter” (belíssimo eufemismo do eduquês; que está aliás muito bem para o acordês) um aluno é uma coisa muito traumática.

      E estatisticamente muito inconveniente nestes tempos da “geração mais bem preparada de sempre”. E da anterior – que agora manda nisto e da forma que se vê – e que se lhe segue. Pelo menos.

      Costa

      1. De Costa:
        Sabe se a transcrição que lhe deixo abaixo ter algo que ver com a frase que escreveu: a «geração mais bem preparada de sempre»?

        «Paulo Veríssimo, cientista da computação que dirigia o Laboratório de Sistemas Informáticos de Grande Escala (LaSIGE) na Faculdade de Ciências de Lisboa, o qual não passou na 2.ª fase de avaliação da FCT, teve de aproveitar a oportunidade (de emigrar), pois estava a viver acima das suas possibilidades.
        Concorreu a uma bolsa de investigação (socialista, certamente) no Luxemburgo e a mesma (desperdício puro) foi-lhe atribuída no valor de 5 milhões de euros, indo criar uma equipa de investigação no Centro Interdisciplinar para a Segurança, Fiabilidade e Confiança (SnT) da Universidade do Luxemburgo.
        É o que dá Portugal andar a formar ignorantes numa Escola Pública da brincadeira e depois em universidades de vão de escada.
        Acabado o dinheiro dos outros (dos nossos impostos e dos empréstimos externos), só lhes resta tentarem a sorte nos países do 3.º mundo.
        Foi o que mais este oportunista fez.
        E não é que conseguiu uma pipa de massa?
        Bem arrependidos vão ficar os luxemburgueses daqui por uns anos.
        Nós livramo-nos de mais este chupista que vivia à nossa conta.
        Viva o Passos, o Crato, o Miguel Seabra e a FCT.
        Portugal vencerá!
        Pimba!»

        1. Eu creio que não.

          A transcrição terá a ver, diria eu, com a liquidação da investigação científica entre nós, no que ela dependa do apoio estatal. Ou com um duríssimo golpe na mesma, pelo menos. Isso parece algo evidente, uma decisão mais – e uma vítima mais – da necessidade (real ou consagrada) de cortar despesas a todo o custo, seja no que for. Por muito que se pretenda dar uma imagem de “simples”, naturalmente necessária e, se algo, afinal até tardia disciplina de aplicação de fundos.

          Admissivelmente haveria “investigação” que sorvia parasítica e inutilmente dinheiros públicos; talvez se afirme pretender pôr fim a esta – coisa em abstracto muito meritória – mas põe-se fim a (quase) tudo, com ou sem mérito, em nome da austeridade, do ajustamento, do que se queira. Pelo caminho, milhões continuarão a desaparecer impunemente ao serviço da casta dominante, e dos contratos onde, sabe-se lá porquê, o princípio “pacta sunt servanda” permanece intocado.

          No caso concreto estará em causa, parece-me, mais um justo que pagou pelo pecador. O que é, por estes tempos, um verdadeiro e patriótico desígnio nacional (não faço – quem me dera fosse o caso – uma graçola fácil). Mas, seja como for, acredito que V. saberá melhor do que eu aquilo com que terá a ver a transcrição em causa.

          Quanto à “geração mais bem preparada de sempre” (tão frequentemente e tão acaloradamente invocada pelos politiqueiros de serviço que por ela tão exuberantemente rasgam as vestes), quanto a mim, e tentando ser sucinto:

          – é uma geração traída, levada à ilusão de que um curso superior lhe resolveria a vida e levada a frequentá-lo, independentemente da sua vocação, pela desvalorização do ensino profissional e pela quase obrigatoriedade entre nós de se ser dr., eng. ou arqt..;

          – é uma geração enganada, engodada por cursos bizarros e que levam a lado nenhum, feitos nem à medida do estudante (ainda que ele o pense) nem à medida do mercado de trabalho, mas à medida de algumas “universidades”. Nada tenho, de princípio, contra cursos “sem saída”, considero sagrada a liberdade de aprender e de seguir uma vocação, considero – quanto a alegados “cursos sem saída” – de valor e dignidade absolutamente incontestáveis, e essenciais a uma sociedade verdadeiramente civilizada, os cursos consagrados ditos de “humanidades” (só num país de bestas, como este, as Humanidades são tão desprezadas), mas o que para aí existe, ou existiu até há pouco, classificado como curso superior…;

          – é uma geração deslumbrada, onde até o ensino superior lhe aviva a expectativa ingénua de direitos, qualificações e correspondente e automática tradução prática, que a realidade vem paulatinamente desmontar; uma geração que agora é, em regra, em apenas três anos licenciada – donde, em Portugal, “doutora” -, desvalorizando o efectivo mérito social e (potencialmente) profissional próprios de um licenciado, de um mestre, de um doutor (porque se acabou com os bacharelatos? Porque se nivelou por baixo?). A sociedade, o “mercado”, não ignorará essa banalização. No caso, temo, pouco meritória para o título académico;

          – é, em termos médios, uma geração tendencialmente mais instruída, decerto, apesar do que escrevi acima, do que a anterior, mas com entristecedora frequência tão ou mais inculta (o desprezo pelas humanidades, já anterior ao ensino superior, não será alheio); capaz talvez de um complexo cálculo, com desconcertante facilidade, mas apresentando-o com um “póssamos”, um “a gente fazemos”, ou coisa afim, muitas vezes militantemente ignorante de tudo o que não seja a específica área que estudou e afirmando convictamente que, frequentando e concluindo um curso de ciências exactas ou sociais (por exemplo), todos os atropelos à sua língua materna são legítimos. Os “de letras” que se preocupem com isso.

          E já agora, e a propósito da sua pergunta e desta minha resposta, é uma geração que ao querer dizer “tem a ver com”, dirá tantas vezes, “tem a haver com” (ou melhor: “tem àver com”).

          E isso diz muito.

          Costa

          1. Caro senhor De Costa:
            Tanto lugar comum, tanta generalização abusiva, tanta afirmação que a análise rigorosa da realidade, com números, destrói sem grande esforço.
            Enfim, é o Portugal do negativismo, do bota abaixo, dos velhos contra os novos… afinal, a razão porque marcamos passo há tanto tempo, desde pelo menos a Revolução Liberal de 1820, em que passámos a ter um quadro mental com bastantes semelhanças com o nosso, bastante comparável com o nosso.
            «Mutatis mutandis», se se der ao trabalho encontra este seu discurso, estes seus lugares comuns, ao longo destes quase 200 anos decorridos.

          2. Meu caro senhor (senhora?) De M.S .,

            Seja então como escreve. E eu, deduzo das suas palavras, sou então um bota-abaixista, um negativista. Enfim, pior que tudo isso, sou um velho.

            Um velho. É forte, isso… Bem sabemos como neste país, tão dado à modernidade, com os impressionantes resultados que se conhecem, “velho” é das mais graves desqualificações que se pode apontar a alguém ou alguma coisa. Você fuzila-me impiedosamente, admitirá.

            Sendo certo, louvando-me na sua linha de raciocínio, que se poderá sustentar que um lugar comum só o é por ser uma verdade repetida muitas vezes (não será necessariamente sempre assim, reconheça-se; mas tendencialmente…). O que será consistente, aliás, com os duzentos anos que invoca.

            Costa

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