O Velhismo


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vai vigorando um pensamento algo “lite”, pois psicologista, que quer reduzir a desvalorização de uns quaisquer outros ao “medo” sentido diante do “diferente”, da “alteridade”: o machismo como receio do vigor das mulheres, qual síndrome fálico; o elitismo como temor da pujança das massas, vera obsessão de condomínio; o racismo como pavor diante das gentes ditas “outras”, assim impuras, como se compulsão higiénica. E até a heterossexualidade, agora dita heteronormatividade – mas nunca heterossexualismo -, tende a ser desvalida como vil sublimação do homoerotização.

 

Nas lutas contra essas desqualificações, punitivas, instalou-se uma atenta crítica dos discursos e termos, sob a ideia de que a realidade se constrói na “fala” – até crente que as palavras têm valor facial, cristalino, e que compelem a reacções unívocas. Enfim, uma simplificação do que alguns pensadores chama(ra)m “construtivismo” – a ideia de que isto que somos e vivemos se construiu e vai construindo nos afazeres do quotidiano até impensado. E – nessa visão mais militante, agora dita “activista” – que nós todos não apreendemos essa “construção”, suas ambivalências, rugosidades, polissemias, dela sendo meros reflexos. Ou seja, que seguimos “alienados”, como se dizia quando eu era mais novo e os agora “pós-“marxistas eram marxistas…

 

Por isso esta actual generalizada adesão à infectologia lexical e semântica, exigindo a vacinação universal contra os “preconceitos” (no sentido de ideias negativas preconcebidas), estes quais miasmas transmitidos por termos, solitários ou associados em frases. Os mais recentes exemplos disso são os anúncios da desinfectação dos livros de Dahl, a serem purgados de violências como “feio” e “gordo”, e de Fleming, a serem amputados de racializações menos adequadas ao pulsar actual… São esses os exemplos públicos, mas que se querem traduzidos em obrigações pessoais, sendo todos nós convocados não só a um exercício democrático de cidadania mas também a uma extrema ponderação na locução, a um “dobrar a língua”, nas (tão necessárias) invectivas, no humor, até nas meras descrições, nos espantos e saudações. Pois, ao que parece aos tais “construtivistas”, cada vez que falamos estamos a “construir”… malevolências, está visto, pois vivemos num inferno. Ou, vá lá, para ser mais bíblico e actual, num “vale de lágrimas”.

 

Isentos desta protecção, desabrigados diante do tal “medo” alheio, vítimas do referido “construtivismo” verbal, seguem (seguimos) os velhos, verdadeiros “trapos” diante da indisciplina lexical e semântica dos “construtores” e “restauradores” deste mundo de malévolos preconceitos, de todos esses cultores do velhismo, o desprezo, até ódio, pelos vistos de medo feito, face aos mais antigos.

 

Na internet isso vê-se muito – mostram-no todos esses (pseudo-)artigos elencando as belezas cinematográficas ou da moda, comparando-lhes o aspecto (radioso) do auge das carreiras com o actual, evidente modo de nos convocar o pesar, até resmungo, mesmo aversão às ditas (ex-)beldades e aos da sua classe de idade. Pois se entre esses “ricos e famosos” há quem mantenha o ar jovial e belo (ainda ontem vi a deusa Julia…., que nariz!!) muitos outros pura e simplesmente… envelhecem – e há os desgraçados que se esticam e/ou se insuflam, algo que tende a tétrico.

 

Encontrei hoje um exemplo maior dessa despudorada agressão velhista: o grande Gene Hackmann reformou-se do cinema há já 19 anos. Retirou-se na sua quinta onde vem escrevendo ficção (já publicou pelo menos 5 livros). Há meia dúzia de anos fez narração de dois documentários – e rezam as crónicas que vai tendo alguma vida cultural lá no Novo México onde vive. Mas, acima de tudo, segue confortável na sua “reclusão”. Ou seja, na sua vida pessoal.

 

Foi agora fotografado. Sozinho ao volante do seu carro. E saindo de um um snack-bar após comprar um take-away. Como é raro ele aparecer as fotos correm mundo. Nota-se que envelheceu, que perdeu massa muscular, que está algo curvado. Decerto que não será apenas pelo hábito de escrever, a postura diante do computador. Pois tem 93 anos! Ou seja, o nonagenário pega no carro, sai da quinta, vai à cidade, compra qualquer coisa para comer ou beber… Fotografam-no e publicam-se as fotos. 

 

Pois o que se comenta nos “sítios” que as divulgam é arrepiante. Sim, há muitos admiradores a saudarem-no. Mas há também imensa gente, sem rodeios, sem “correctismos” ou “wokismo”, a verter fel, caústico, sarcástico, ofensivo, diante do corpo naturalmente velho do Grande Gene Hackmann. Repugnam-se, repugnam-no. E nisso seguindo imunes a críticas…

 

Talvez seja o tal omnipresente “medo”, agora o do envelhecimento. Mas é o puro Velhismo, recorrente, constante, indisciplinado, agressivo, imune a críticas. É tempo de clamar “Old is beautiful!”. (E, mais privadamente, “dá-lhe gás, Gene…!”).

17 comentários em “O Velhismo”

  1. “(ainda ontem vi a deusa Julia…., que nariz!!!

    Penso o mesmo: os fetiches com a Júlia Pinheiro ainda vão dando tesão.

    1. Ainda bem que no seu caso assim é. Por mim, e nada tendo contra a apresentadora Júlia Pinheiro, bem pelo contrário, não foi a ela a que aludi no texto. E, já agora, na visão da beldade longínqua encontro algum alento. Mas não a tal erecção que refere – cada um como cada qual, eu lá vou andando…

    1. a tasca do sr. Zé tem ratos e baratas na cozinha e serve carne e peixe estragado.
      nada de fechar a tasca do sr, Zé, bora matar os ratos e baratas e oferecer-lhe carne e peixe fresco, coitado do sr. Zé.

  2. «a ideia de que a realidade se constrói na “fala”»

    Uma ideia a reter, pata bem entender paranóia vigente.

  3. Construtivista para mim era quase sinónimo de “Naum Gabo” o escultor russo cuja obra conheci numa exposição na Gulbenkian que me fascinou tanto que fiz em casa uma cópia da Construção linear nº 2 de que falei numa porção de posts: https://imagenscomtexto.blogspot.com/search?q=Naum+Gabo

    O Gene Hackman vai muito bem, palpita-me que seria bastante alto, será mais difícil nesse caso evitar curvatura na coluna vertebral.

    A “sua” Júlia deveria ser a Roberts. Havia outra Júlia distinta, que era o nome duma personagem do “Reviver o Passado em Brideshead”.

    1. Tem razão, o termo “construtivismo” sociológico é uma verdadeira “apropriação cultural”, como agora sói dizer-se.
      E também tem a razão quanto à “minha” (ai, ai) Julia. E sim, na juventude também tive a minha “Julia Flyte”.

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