O único poder dos jornalistas


Pedro Correia,

300px-Bundesarchiv_Bild_183-1989-1109-030,_Berlin,

9 de Novembro de 1989: a histórica conferência de imprensa em Berlim-Leste

 

Morreu há dias, com 92 anos, um jornalista que protagonizou um acontecimento capital do século XX. Riccardo Ehrman, italiano de origem polaca, trabalhava em 1989 como correspondente da Ansa em Berlim-Leste. No dia 9 de Novembro, numa conferência de imprensa, o porta-voz do então governo comunista, Günter Schabowski, anunciou a iminente publicação de uma lei destinada a facilitar a circulação rumo à metade ocidental da cidade. Ehrman fez então a pergunta que se impunha: «Quando entram em vigor as novas normas?» A resposta, algo atabalhoada do funcionário governamental, acelerou os acontecimentos: «Pelo que sei… entram já.» Foi quanto bastou para derrubar o Muro da Vergonha, erguido 28 anos antes

O jornalista rumou de imediato à sede da delegação da agência noticiosa italiana e escreveu num telex com prioridade máxima: «O Muro caiu.»

Fazia-se História. Com agá maiúsculo. 

 

Sabe-se hoje que o porta-voz, involuntariamente, induziu os jornalistas em erro. Não havia ordem formal para abrir a fronteira e permitir enfim a livre circulação entre os habitantes da Alemanha ocupada pelos soviéticos e a parte da cidade que havia ficado sob tutela militar norte-americana, francesa e britânica em 1945. Mas a pressão dos berlinenses cansados de décadas de opressão que logo acorreram em massa aos postos fronteiriços fez ruir na prática uma barreira que ainda não havia sido derrubada por decisão política. 

Ehrman trocou em 1991 Berlim por Madrid, onde chefiou a delegação da agência até se aposentar e ali se radicou até ao fim da vida. Certamente orgulhoso de ter cumprido a sua obrigação profissional naquele dia inesquecível. Assumindo o único verdadeiro poder de um jornalista: o de fazer perguntas.

Esqueçam as tretas do “quarto poder”: não existe nenhum outro.

11 comentários em “O único poder dos jornalistas”

      1. “Por vezes é mesmo este o primeiro poder.”
        Concordo. Até penso que por vezes os políticos querem mas não podem porque há poderes mais altos. Então são tidos como aldrabões….. não conseguem fazer o que prometeram.

  1. não eleitos, tal como os juizes
    raramente vejo notícias na TV, mas sem som
    não há deuses, nem contraditório

  2. O muro de Berlim caiu na Polónia e com a rebelião na Hungria.
    O que refere sobre a entrevista de Riccardo Ehrman só demonstra o que tenho afirmado: o povo alemão – os germânicos – só se “rebela” se receber ordens para o fazer. Não fosse o porta-voz a ter feito tal afirmação e nada teria acontecido dessa forma.

  3. Que o único poder dos jornalistas não seja o de se submeterem curvados aos interesses dos poderes instalados.

  4. Eu diria que neste caso o poder do jornalista não se materializou no momento ele fez a pergunta mas sim quando declarou que uma coisa que não era bem assim era assim. É no momento em que a coisa que se torna real por ser declarada para a massa (que acredita na manchete) que o fenómeno jornalístico se manifesta e realiza.

    Ou seja, existe um poder de intromissão do repórter na realidade (um poder alterar ou de criar factos que não eram bem assim) e que se manifesta através das metáforas e das leituras e ironias contidas nas manchetes e que são coisificadas pela Opinião. Se não fosse assim não seria necessário existir um código deontológico. Nem desmentidos, que são uma espécie de undos na virtualidade criada pelo jornalismo.

    E é aqui que o poder se transfere para o meio de massa<(i> — tal como o muro cai efectivamente por causa de uma manchete, se os jornalistas falarem com erros nas televisões (como acontece nas televisões todos os dias) as pessoas repetem esses erros e a língua modifica-se por influência do meio de comunicação. Não é um poderzinho qualquer. Não é por acaso que não há jornalismo propriamente dito nos países comunistas nem nos países islâmicos que subsistem apenas porque mantêm a sociedade civil esvaziada e “des-empoderada”.

  5. estive a analisar os seus cozinhados
    pode estar descansado quanto a degenerescências (cancros, demências)
    eite usar óleo e substituir por azeite
    se fritar use o menos possível e só uma vez
    nascemos com dentes caninos porque só a carne fornece ácidos aminados essenciais
    evite gorras animais de 4 patas ou margarinas de sebo
    beba 1/2 litro de agua ao pequeno-almoço e mais de 1l/ dia, as celulas cerebrais são as + frágeis
    Saúde e Fraternidade

  6. O muro de Berlim não separava a Alemanha, separa a cidade de Berlim numa parte capitalista e outra comunista. O muro apenas dividia na zona da cidade, que fronteira com a RFA estava a 144 km havendo outras localidades até à fronteira. Só havia o muro em Berlim.

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