A tecnologia blockchain – I


Paulo Sousa,

Lembro-me de antes do virar do milénio ouvir dizer que uns fulanos registavam o domínio informático de algumas marcas conhecidas e depois os vendiam por um dinheirão. Talvez fosse um mito urbano, mas garantiram-me que a própria expo98 teve de negociar o seu domínio .com com alguém que se tinha antecipado.

À época, imaginar o que era um domínio, o que permitia e como este poderia ser comprado e vendido, era algo de uma escala quase esotérica.

Os anos foram passando. Com a progressão e penetração da internet nas nossas vidas esse e muitos outros conceitos impossíveis de explicar nos nossos tempos de juventude tornaram-se banais. O conceito de blog faz parte deste grupo de coisas. Como poderíamos explicar ao nosso avô o que é que afinal é isto do delito de opinião ponto blogs ponto sapo ponto pt?

Tendo já todos estes conceitos enraizados e clarificados, está em curso nos dias de hoje uma outra revolução. Já aí está, mas ainda só mexe nas franjas das massas. Refiro-me ao blockchain. Há muitas fontes de informação, mas nem todas são muito claras. Ouvir algumas dessas explicações traz-nos à memória aquela sensação de 1998 quando tentávamos entender como se podia negociar um domínio.

Sem me querer substituir aos entendidos, julgo que podemos explicar a tecnologia blockchain como algo que permite realizar registos comparáveis aos feitos num livro-razão mas de forma partilhada e descentralizada. Pode ajudar imaginarmos que esta tecnologia permitirá o equivalente aos registos públicos centralizados, mas que dispensa uma autoridade que os valide, pois podem ser verificados por todos e por isso tornam-se incorruptíveis.

Quando nos afirmarmos donos de um carro ou de um imóvel, baseamo-nos no registo que temos em nosso nome na Conservatória do Registo Automóvel ou Predial, conforme o caso. Ora, a tecnologia blockchain permite algo comparável, mas dispensando o registo centralizado. Segundo algumas opiniões é o próprio conceito de comunidade que sai reforçado face ao controlo centralizado.

É nesta lógica que assentam as criptomoedas, mas há um mundo imenso para além disso.

Daniel de Oliveira Rodrigues é um colunista convidado do Observador que aborda frequentemente estes temas e sobre os desafios que tudo isto coloca aos estados, à democracia e à liberdade. Como já disse não pretendo substituir explicações mais competentes, mas em termos das criptomoedas existe uma outra fronteira entre as que são efectivamente descentralizadas e aquelas que os estados pretendem programar como forma de controlar os movimentos financeiros e os assim os seus cidadãos.

A China, que não permite que nada das vidas dos seus cidadãos fique fora do controlo do Partido, quer banir as criptomoedas e subsitui-las pelo yuan digital que passará a ser mais uma ferramenta dentro do seu sistema de créditos sociais. O yuan digital é uma criptomoeda programada que, ao contrário das descentralizadas, além de permitir saber onde os seus cidadãos gastam cada um dos seus cêntimos de yuan, permite ainda que o stock de moeda de cada cidadão seja valorizado ou desvalorizado de acordo com o comportamento do seu detentor. Nem George Orwell se lembrou disto.

As criptomoedas descentralizadas funcionam como se de uma cortina se tratasse, na medida em que para além das quais não se consegue seguir o trajecto de pagamentos e transferências de valores. Os criminosos sabem disso e até se pode dizer que estas acabam por fazer concorrência às offshores.

Desde Setembro passado que a moeda oficial de El Salvador é o Bitcoin. Este pequeno país da América Central, que mais facilmente associamos aos narcotraficantes do que à inovação financeira, tornou-se assim o primeiro estado do mundo a abdicar de uma moeda convencional e a confiar numa criptomoeda descentralizada.

Se por um lado os estados, tal como os conhecemos, pretendem continuar a cobrar impostos sobre todos os movimentos comerciais, financeiros, sobre todas as remunerações de trabalho, valores patrimoniais e tudo mais, e ao mesmo tempo abdicar de invadir a última esfera de controlo sobre a privacidade dos cidadãos, acabarão por ter de decidir se permitem que esta realidade funcione de forma descentralizada ou se, tal como a China, exigirão que só funcione de forma programada. Tudo isto num mercado sem fronteiras e onde a concorrência é efetiva.

Como é visível, o debate sobre as possibilidades que esta tecnologia irá acarretar nas nossas vidas está atrasado face ao seu potencial impacto.

Mas, muito para além das criptomoedas, o blockchain permite também transaccionar outros activos, como obras de arte, música, domínios, “cromos” coleccionáveis, mundos virtuais para jogos, tudo isto e ainda mais um par de botas.

O meu próximo postal será sobre os NFT.

31 comentários em “A tecnologia blockchain – I”

  1. Não, não é mito urbano (já os valores envolvidos…).
    O caso mais conhecido é o de Tuvalu, que tem um TLD apetecível.

  2. As criptomoedas são como o certificado digital dos vacinados, um dia há um apagão na internet e deixam de poder ir ao restaurante.

    1. Tal e qual como quando num incêndio pode arder o colchão onde guarda as suas poupanças, pois que se houver um apagão na internet todo o sistema financeiro e os pagamentos electrónicos fica com pouca saúde.

      1. Se houver um apagão na internet como é que você faz as compras do dia a dia?
        É que se me arder o colchão ainda fico com uns trocos do mealheiro dos miúdos, se virar tudo para as criptomoedas, como é que é?
        Não será que se está a repetir a história dos domínios, em que há uma meia dúzia de pato- bravos a querer ganhar dinheiro à conta dos papalvos?

      2. Questão lateral: a malta (uns diriam lobby, mas tem conotação negativa, portanto só se aplica às farmacêuticas e pretroil) do elécrico, o que diz sobre as crescentes necessidades de produção? Está prevista, quais serão as fontes… é que isto da sociedade digital é bonito, mas a infra-estrutura tem custos energéticos que duvido que os mecos que andam por esses Parlamentos conheçam.

        1. Não sei, mas os ambientalistas Alemães que exigiram o encerramento das centrais nucleares, estão agora a importar energia de França. E como é que esta é produzida? Deixo a resposta à sua imaginação.

          1. Por cá, com o preclaro fecho das centrais a carvão, a coisa é análoga. NIMBY, creio ser o acrónimo da corajosa fundamentação. Mas se for no quintal dos outros (outros que, no caso, até facturam alegremente) está muito bem.

  3. Os criminosos sabem disso e até se pode dizer que [as criptomoedas] acabam por fazer concorrência às offshores.

    Desde Setembro passado que a moeda oficial de El Salvador é o Bitcoin. Este pequeno país da América Central, a que mais facilmente associamos aos narcotraficantes

    Faz todo o sentido. Um país de narcotraficantes utiliza uma criptomoeda como divisa oficial. Um país de criminosos só pode utilizar uma moeda de criminosos.

  4. Para mim o facto essencial a saber sobre a blockchain é que gasta um montão de eletricidade.
    E ao preço a que esta está.

      1. As energias renováveis não-hídricas (ou seja, fotovoltaica e eólica) atualmente nem 1% da eletricidade atualmente necessária produzem.
        Até produzirem toda a eletricidade atualmente necessária será um bom par de décadas.
        Mas se nessa altura já houver montes de blockchains e montes de automóveis elétricos, não produzirão a eletricidade necessária nessa altura.
        Conclusão: o melhor é mesmo poupar eletricidade. O fotovoltaico e a eólica não irão dar para tudo.

      2. Deveriam ser. O Sócrates vendeu muitas, e havia quilómetros de textos a defendê-lo.

        Não ficou nada mais barato nem nada mais sustentável. Já as nossas serranias e os pinhais antigos, isso marchou tudo nas mãos destes cabrões de merda.

      3. Eu iria sugerir uma petição para abolir o automóvel e fazer regressar a carroça, mas já li algures que o PAN quer proibir os veículos de tracção animal.

    1. A questão dos gastos energéticos é complexa, mas deixo aqui uns tópicos (um pouco longos, é verdade) de dois locais insuspeitos de serem fanzines da BTC:

      Harvard Business Review, 05.05.2021

      “Energy Consumption Is Not Equivalent to Carbon Emissions

      In December 2019, one report suggested that 73% of Bitcoin’s energy consumption was carbon neutral (…). On the other hand, the CCAF estimated in September 2020 that the figure is closer to 39%. But even if the lower number is correct, that’s still almost twice as much [neutralidade carbónica] as the U.S. grid”.

      “Bitcoin Can Use Energy That Other Industries Can’t

      Almost all of the energy used worldwide must be produced relatively close to its end users [perdas na transmissão]— but Bitcoin has no such limitation, enabling miners to utilize power sources that are inaccessible for most other applications.”

      “Mining Bitcoin Consumes a lot More Energy Than Using It

      The vast majority of Bitcoin’s energy consumption happens during the mining process. Once coins have been issued, the energy required to validate transactions is minimal. (…) the final critical misconception: that the energy costs associated with mining Bitcoin will continue to grow exponentially [a BTC tem um tecto máximo de unidades passíveis de serem criadas, dos quais 90% estão já em circulação].”

      Nasdaq.com, 17.05.2021

      “Bitcoin
      Research: Bitcoin Consumes Less Than Half The Energy Of The Banking Or Gold Industries”

    1. Algumas da mais recentes criptomoedas já são desenvolvidas com essa preocupação, mas o que me custa mesmo é quando as pessoas mudam de divisão e deixam as lâmpadas todas acesas.

      1. As lâmpadas, mesmo as de incandescência, tinham um consumo desprezável em casas onde existissem aquecedores. Apagar lâmpadas eléctricas quando não se está numa das poucas divisões das casas de habitação e falar disso a propósito da tecnologia block chain é não ter o sentido das proporções.

    1. Ainda vai demorar a criarem um algoritmo que pague a alguém para escrever livros em seu nome e que depois ordene a outros para que lhe esgotem as edições. Isso é que era um algoritmo valente.

  5. Criptomoedistas estejam à vontade, com uma condição: se o dinheiro desaparecer vão-se queixar ao TOTTA.
    (não digam que a culpa é do Estadp)

  6. Excelente artigo!
    Verdade, muitas marcas sofreram com as negociações de domínios.
    Com a evolução daa tecnologia a internet tornou-se o maior mercado do mundo, por isso as empresas têm realmente de estar atentas mesmo antes de estarem online. O desenvolvimento da blockchain veio trazer também muitas vantagens para as empresas que aderem à tecnologia.
    O que também se desenvolveu foram as capacidades dos hackers por isso o maior conselho que os especialistas em cibe segurança dão é para se proteger. https://brcryptos.com/tecnologia/ciberseguranca-nas-criptomoedas/

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