O umbigo do eleitor


Paulo Sousa,

Almocei há dias com um amigo que vive nos EUA. As conversas circularam por diferentes assuntos. Os que mais lhe interessam, e que o levaram a ir tentar a sorte fora daqui, são os negócios. Por cá não é de bom tom alguém se assumir como material e financeiramente ambicioso, mas esse não é o registo dele nem dos americanos. O optimismo corre nas veias dos empreendedores dos EUA.

Há uns tempos, numa visita que lhe fiz, reparei no detalhe da resposta habitual à coloquial pergunta “Como vais?/How are you?”. Na esmagadora maioria das vezes ouvi a resposta “Great!”, que não podia ser mais díspar do nosso tradicional “Vamos andando”. A diferença de atitude que estas duas respostas encerram é bem maior do que o Atlântico que nos separa.

Depois de esgotar a primeira ronda de assuntos, tornou-se inevitável abordar o tema Trump. Logo desatou a elencar todas as vantagens que quem tem negócios sentiu no seu mandato e de como agora, com Biden, se sente claramente a diferença e para pior. É do senso comum do círculo onde ele se desloca, associar-se o crescimento económico à diminuição do desemprego e por essa via espera-se, e verificou-se, uma diminuição da criminalidade. Pelo contrário, explicou-me, os apoios sociais distribuídos pelos democratas estão por de trás do aumento do desemprego e, simetricamente, do crime.

Quando lhe falei no assalto ao Capitólio, que em muito pouco se distinguiu de uma tentativa de golpe de estado, e na gravidade que isso encerra numa democracia, fez uma pequena pausa, e logo regressou ao relambório do crescimento económico.

Dei por mim a pensar como é que tanta gente faz por desprezar questões de princípio nas suas escolhas eleitorais, preferindo centrar-se nos seus interesses materiais.

Nesta conversa com este meu amigo emigrado nos EUA, senti que ao falar-lhe do assalto ao Capitólio, tive a mesma reacção que teria de um eleitor socialista se lhe lembrasse todos os escândalos do PS, o nepotismo, a endogamia, a tomada do estado pelo partido, o consulado do engenheiro Sócrates, a terceira insolvência, os incêndios de 2017, a TAP, a Efacec, os emails para as embaixadas, o financiamento do partido via contratos com Joaquim Morão e tantos e tantos outros. Engolem igualmente em seco, abdicam de decência democrática e a escapatória da conversa passa sempre pelo seu respectivo umbigo.

34 comentários em “O umbigo do eleitor”

  1. nos EUA os camones ou gringos matam PRs sem atender à cor política.
    por cá não temos campos de caravanas cada vez mais populosos porque os pobres vão acabar no Resort ‘7 Estrelo’ com falta de apetite

    1. “Knowledge will forever govern ignorance, and a people who mean to be their own governors, must arm themselves with the power knowledge gives”.

  2. Havendo dias dedicados a todos os gostos, que em alusão às trapalhadas do PS e do seu governo, seja criado e lhes seja dedicado um dia sem broncas.

      1. O post critica e bem um problema preocupante, “o umbigo” das pessoas, ou seja o seu individualismo.

        “Quando lhe falei no assalto ao Capitólio, que em muito pouco se distinguiu de uma tentativa de golpe de estado, e na gravidade que isso encerra numa democracia, fez uma pequena pausa, e logo regressou ao relambório do crescimento económico.”

        Comigo isto também acontece frequentemente. Eu falo com algumas pessoas sobre assuntos graves e importantes, e no fim fica a sensação que estive a falar para uma pedra. Logo eles desviam a conversa para assuntos da treta.

        “Dei por mim a pensar como é que tanta gente faz por desprezar questões de princípio nas suas escolhas eleitorais, preferindo centrar-se nos seus interesses materiais”.

        Muitos só veem à sua frente $$$. Parece que também têm a mente formata, de modo que não conseguem evoluir.

        “Engolem igualmente em seco, abdicam de decência democrática e a escapatória da conversa passa sempre pelo seu respectivo umbigo”.

        E nos blogues vemos bem este problema que fala no seu post. Muitos escrevem os seus textos apenas a pensar em si, em ganhar algo. De modo que não vão ver outros blogues porque isso vai contra o seu “umbigo”.

        Eu não sigo o “rebanho” nem os assuntos da moda. Tenho o meu blogue há alguns anos e falo em vários assuntos importantes que não se encontram noutros lados. Mas porque muitos estão apenas preocupados com o seu “umbigo”, não se consegue divulgar nem discutir informação importante.

        E esses que estão apenas preocupados com o seu “umbigo”, estão também a enganar os outros pois a imagem que fica inicialmente é que são diferentes.

        Pelo que eu vejo, os que estão apenas preocupados com o seu “umbigo”, serão quase todos. Mas fico à espera para ver se o autor que critica este comportamento, é diferente.

        Infelizmente muitas vezes aplica-se a frase: Olha ao que eu digo, não olhes ao que eu faço.

  3. Esplendidamente explicado, Paulo. Tenho amigos-familiares em South Lake City com negócios nos EUA, que estiveram por cá durante o mandato de Trump, fazendo uma gestão à distância e deslocando-se ao Utah pontualmente, e mal os democratas venceram a presidência, aconteceu o inverso, mudaram-se permanentemente para lá, e apenas vêm de visita. Ao que parece ” eles” ( os democratas) não são nem nunca foram de fiar…

    1. Há uma tremenda diferença cultural entre os EUA e a Europa, com especial destaque para o nosso rectângulo.
      Noutras democracias mais maduras, recordo-me da Holanda, Reino Unido Áustria, Suécia, entre outras, a espessura cultural do eleitorado não aceita os cambalachos que por cá se impunemente praticam.
      E isso, Dulce, demora muitas gerações a mudar. Já não será para os nossos dias, embora o sonho, e o indicador indiscreto, ninguém não nos pode tirar.

  4. Os incêndios de 2017 são culpa de muita coisa, mas certamente que não do Governo. Sempre houve incêndios em Portugal, e não foram os sucessivos Governos quem teve culpa deles. Aliás, a imensa maior parte das terras florestadas em Portugal pertence a privados.

      1. O balio deveria dizer de quem é a culpa dos catastróficos incêndios que se verificam nos EUA seja quem for o Presidente.

    1. depois do 25 a republiqueta devia chamar-se serra pelada.
      leia: MÁRIO: LUTAS CIVIS PORTUGUESAS DE 1820-1834 de Silva Gaio

        1. Isso já foi há uns anitos.
          Sei do que falo porque fui um dos que o andaram por lá a combater e só por acaso não
          fui apanhado como os outros.
          Tenha vergonha em ir buscar um caso com quase 57 anos, mais precisamente 6 de Setembro de 1966, de que se calhar só ouviu falar vagamente.
          Fogos é o que nunca faltou, nestes tempos como nos outros.
          A diferença é que os meios são outros e há fogos que hoje não têm nenhuma desculpa.
          Muito gostam as pessoas de falar por falar do que não sabem.

          1. Pois, pois os fogos em Espanha e na Grécia ninguém tem nenhuma desculpa…..
            Então só por acaso não foi apanhado como os outros, por sorte não estar junto deles.
            Mas, por que havia de falar por falar sem saber o que aconteceu, não me lembro é quem foi culpado do fogo e o responsável, principalmente, da morte de 25 jovens.
            Então quer dizer estava em Queluz, mas eu estava na EPC-Santarém.

    1. Este é um jogo assente na miséria e é alimentado pela falta de uma visão para o futuro. Se o país tivesse uma ambição, Cristina, as prendas generosamente distribuídas aos pobrezinhos seriam percecionadas como aqui que são e não são mais do que esmolas para iludir. E iludem.

    1. A escala da nossa miséria, Pedro, é inversamente proporcional aos valores das “ofertas” da “austeridade humanista” que nos governa (este é um novo conceito lançado ontem no texto do Raio X aos 50 anos do PS no Observador). As prendas estão agora nos 30€/mês com um acréscimo de 15€ por criança. O recorde de sempre da carga fiscal não é para aqui chamado.

      1. Também concordo 90 e 15 paus não é nada, mas ficaram com medo de esturrar o dinheirinho e não haver contas certas.
        A haver bancarrota que seja na CML que depois logo se vê.

  5. e tantos e tantos outros

    Não referiu o em minha opinião principal: o cancelamento da liberdade das pessoas durante a pandemia.

  6. Viva, Paulo.
    Tudo bem. E com “tudo bem” não quero apenas dizer que concordo com tudo o que escreveste. Quero também dizer que o “tudo bem” já substituiu o “vamos andando”. O problema é respondermos com “tudo bem” quando nada está bem.

  7. “….senti que ao falar-lhe do assalto ao Capitólio, tive a mesma reacção que teria de um eleitor socialista se lhe lembrasse todos os escândalos do PS, o nepotismo, a endogamia, a tomada do estado pelo partido, o consulado do engenheiro Sócrates, a terceira insolvência, os incêndios de 2017, a TAP, a Efacec, os emails para as embaixadas, o financiamento do partido via contratos com Joaquim Morão e tantos e tantos outros.”
    Desculpe mas está a ver mal, nos EUA é tudo isto que se faz de muito mais. As nossas coisas e coisinhas são passarinhos fritos para a governação estadual ou presidencial americana.
    Os americanos assaltar o Capitólio por causa da Coca-Cola vender refrigerantes para a Marinha por escolha do Presidente? Essa era pra rir.

  8. > em muito pouco se distinguiu de uma tentativa de golpe de estado

    O que vale é que pessoas que viram pela CNN do outro lado do oceano toparam logo a coisa.

    Foi por pouco, iam deitando a mão ao comando dos mísseis.

  9. E o “umbigo pessoal” explica porque as questões que nos tocam a todos, como por exemplo o ambiente, olhamos todos para o umbigo, idolatramos o umbigo, passeamos o umbigo, pomos o umbigo ao Sol, mas a culpa, claro é do umbigo dos outros e dos umbigos dos políticos, mas apenas daqueles que estão no Governo.

  10. inacreditável !!!
    Almoçou com um empreendedor (EMPRE) e nao lhe contou as novidades domesticas , nao pediu a sua opiniao, ou se estaria interessado em comprar um banco por 1 euro. Ou uma companhia aerea vendida a credito e a meio da noite…mas por causa dos fusos horarios.
    (e nao é de agora vender bancos a credito. Nunca nenhum autarca recusou receber dos diferentes governos graveto para construir “rotundas” )
    Perguntar-lhe ia se lá tambem existem tribunais para julgar os EMPRE.
    Cá (tambem ) existem. Mas com os recursos concentrados anos a fio na investigaçao de um banqueiro, os EMPRE andam roda livre, despreocupados.
    Como no transito: estacionam todos os dias os mesmos carros de manha á noite em avenidas principais de estacionamento proibido. E nas curvas, vale tudo, sem medo, que nao existe policiamento : nas curvas, com os pesados de passageiros a nao conseguirem fazer a manobra para entrar na rua, assim parando o transito total em duas ruas. E a esquadra ali ao pé.
    Se investido (tenho espirito EMPRE !!!), passaria dezenas de multas ao dia, só na minha rua, e bastaria o valor de uma só multa para me pagar o dia.
    Consegue explicar porque o Estado (bloco central ) nao contrata pessoas para “regular” o transito ?
    Pois…compreendo, o mes de abril nao pode ser eliminado do mapa, e as alergias saudosistas sao tramadas.

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