Foi só há pouco tempo, ao ler um notável ensaio de William Styron intitulado Visível Escuridão (Darkness Visible, 1990) que me apercebi das estreitas relações entre a depressão e o ofício da escrita. É quase inacreditável o número de grandes autores que cometeram suicídio, no auge de uma grave depressão.
Styron fez uma lista, que está longe de ser exaustiva: Hart Crane, Virginia Woolf, Cesare Pavese, Romain Gary, Ernest Hemingway, Jack London, Sylvia Plath, Henri de Montherlant, John Berryman, Wiliam Inge, Paul Celan, Tadeusz Borowski, Anne Sexton, Serguei Essenin, Vladimir Maiakovski. E Stefan Zweig, Primo Levi, Emilio Salgari, Yasunari Kawabata, Arthur Koestler, Paul Nizan, Yukio Mishima, Sándor Márai, Reinaldo Arenas, David Foster Wallace – acrescento eu.
No caso português, poderíamos mencionar, por exemplo, Camilo Castelo Branco, Antero de Quental, Mário de Sá Carneiro, Luís de Montalvor, Manuel Laranjeira, Trindade Coelho, Florbela Espanca, Miguel Rovisco.
Outros houve, outros há.
“Apesar do raio de alcance da depressão ser ecléctico, demonstrou-se de forma bastante convincente que os temperamentos artísticos (particularmente os poetas) são especialmente vulneráveis a este mal – que, nas suas manifestações clínicas mais graves, colhe mais de 20 por cento das suas vítimas através do suicídio”, escreve Styron nesta notável obra sobre uma das maiores doenças da nossa civilização (Visível Escuridão, com tradução portuguesa de Teresa Caria, foi editada pela Bertrand em 1991). O próprio Styron – galardoado com o Prémio Pulitzer e o American Book Award, universalmente aplaudido por romances como A Escolha de Sofia – sofreu de depressão. “Receamos a perda de tudo, de todos os próximos e dos amados. Há um medo agudo do abandono. Ficar sozinho em casa, mesmo só por um momento, provocava-me um pânico e uma trepidação estranhos”, recorda o escritor neste impressionante e dilacerante depoimento.
“Não mais palavras. Um acto. Não voltarei a escrever.” Com estas palavras, redigidas num bilhete que lhe serviu de testamento, Pavese despediu-se da arte e da vida. O que levará um grande autor ao desespero? Quem de nós conhece devidamente os abismos da existência humana?
“Não mais palavras. Um acto. Não voltarei a escrever.” Com estas palavras, redigidas num bilhete que lhe serviu de testamento, Pavese despediu-se da arte e da vida. O que levará um grande autor ao desespero? Quem de nós conhece devidamente os abismos da existência humana?
Texto reeditado e ampliado


“Apesar do raio de alcance (…)”
Deveria ser “apesar de o raio de alcance etc”, yes?
Ipsis verbis.
Por Toutatis!
É verdade. Eu acredito que a capacidade de sentir (ou de já ter sentido) dor cria textos mais bonitos, profundos, dedicados. E isso vai de encontro ao que escreveste. Muitos dos grandes escritores sentiam tão profundamente, que acabavam por timbrar palavras tão belas que quase tocavam no imaterial.
Muito do drama interior dos escritores está sintetizado de forma magnífica nesta célebre quadra do Fernando Pessoa:
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
A soma de várias dores – a dor imaginada, a dor pressentida, a dor ficcionada – à dor real, experimentada ou recordada, constitui uma insuperável matéria literária. Mas também um acesso directo a esse túnel fundo e escuro a que chamamos depressão.
Sem dúvida. 🙂
O que mais dá que pensar é sabermos que boa parte da melhor literatura jamais teria existido sem estas depressões.
E essa é mais mágica da coisa. 🙂
“E isso vai de encontro ao que escreveste”, se vai de encontro a…choca.
E isso vai ao encontro do que escreveste.
A democracia burguesa não é o regime dos artistas. Nesta prima a cálculo mesquinho do possível. Os artistas são gente que tendem para o infinito, para as ideias românticas. para a emoção, para o desmesurado, para os absolutos…vidas desconhecidas para o merceeiro burguês capitalista, que resume a boa vida a contas de adição, e que treme ao primeiro rufar de tambores. Para este verme as grandes ideias são idealismos. O que conta é o prato transbordante de carnes frias que lhe põem diante do focinho.
É no fascismo, no Estado Fascista, que toma como sua a Missão de Moralização do Povo, que os artistas e as grandes ideias poderão vicejar. Transcender a luta de classes, através da irmandade
A Arte sujeita as leis do mercado é uma arte condenada.
Recomendo-lhe a leitura de um livro de auto-ajuda. Ou da bula de um ansiolítico.
Agora mais a sério:
A eterna questão de a genialidade surgir, não raras vezes, associada à doença. Talvez pelo mundo ideal do artista não ter correspondência com o real. E dessa consciência, da impossibilidade da reforma da realidade, provir a desilusão e o desespero. A loucura e o suicídio.
A beleza da arte nunca conseguirá maquilhar a fealdade do prático mundo materialista (hoje tão presente – para que serve a arte? O que se ganha com isso? etc). Os que o tentaram, recriar um “Homem Novo”, apenas conseguiram criar monstros maiores que os que combatiam.
Certo. O que seria de boa parte da literatura do século XIX (e ainda na fase inicial do século XX) sem a tuberculose, por exemplo?
Os abismos da doença, em várias das suas formas, são inseparáveis da obra de escritores como Proust, Kafka, Céline, Orwell, Thomas Mann, Katherine Mansfield e Virginia Woolf.
Menos em Júlio Dinis, qualquer coisa em António Nobre.
Sim. Sem esquecer Cesário Verde.
Dostoiévski , Nietzsche, Rosseau, Papinni, Camões, Pessoa, Antero, António Gancho, João César Monteiro, Thomas Bernhard , Zweig, Ezra, …Teriam produzido melhor se não fosse a doença?
Muito provavelmente não. O que também dá que pensar.
Isso de pensar que um merceeiro burguês não pode ter ideias românticas (quando elas são geradas realmente e mais propriamente no lazer do indivíduo que criou o seu próprio sustento) é a prova de que a vossa praxis, comunas do bloco, está assente na arrogância, superstições de esquerda e muitas, muitas manias.
V, sou fascista.
Pronto, pronto, no big deal.
Einstürzende Neubauten como a maior parte das pessoas que dizem que defendem o regime do 25 de Abril, mas não assumem ou desconhecem que o são.
Os escritores têm muitas vidas, encerram muitas personagens dentro deles e o conflito interior é inevitável.
Eu não sou escritor, muito longe disso, mas quando escrevo no meu caderninho de notas sinto-me estranho, pois parece que outra pessoa escreve por mim.
Imagino os verdadeiros escritores
É uma profunda e por vezes pungente verdade: “Os escritores têm muitas vidas, encerram muitas personagens dentro deles e o conflito interior é inevitável.”
Outro nome – e de um português – para incluir nessa deprimente lista: Miguel Rovisco. Um talento como que cadente, que brilhou muito intensamente mas também muito brevemente.
Com um fim trágico, sim. Ainda hoje arrepia lembrar isso. Vou acrescentar à lista, Octávio.
Se calhar escrevem muito à noite, entram em depressão com a conta da electricidade ou então será como diz o Mexia, vivem em casas mal construídas


Alguns poderão entrar em depressão cada vez que o doutor Mexia presta declarações à imprensa.
Lembremos que ele é autor de algumas frases imortais. Esta, por exemplo:
«Era bom para Portugal que o Benfica fosse campeão, acho que isso teria um efeito positivo no PIB.»
Esqueci-me do nome no outro comentário
a vidente) 
isa (
Ora muito bem. Cuidado com a conta da luz, Isa.
Uma parte de muitos escritores é um ser solitário.
Escrever é um acto muito solitário.
Marx era um boémio, como Bukowski, como Hemingway…
Marx era boémio? Curioso: sempre pensei que ele fosse alemão.
Eu disse uma parte do Bukowski do Hemingway.
Como o Pedro Correia escreveu(r) é um acto solitário.
Raros actos são tão solitários, o que talvez ajude a explicar algumas das perplexidades que anoto aqui.
O post chama a atenção, mas os comentários não ficam atrás. Sim senhor, gostei de ler.
Ainda bem, Beatriz. Nós gostamos de escrever sobre vários temas, mesmo que nada tenham a ver com a actualidade noticiosa.
Também gosto destes temas, sobretudo gosto de ver como o “respeitável público” reage a eles, sempre numa vasta gama opinativa entre o cinismo defensivo ou inconsequente e o quase temor reverencial pelo glamour do autor infeliz. Que sabemos nós dos gelos e dos fogos com que se forja a natureza humana? Será a infelicidade pessoal que forja os grandes escritores ou, se “toda a alma tem uma parte negra”, terão os grandes escritores, para o serem, que responder aos anseios dessa parte de nós, perseguindo ou fingindo a dor que não sentem ou que deveras sentem? Eu estou com o Pessoa e o seu “poeta fingidor”. O caminho da grande literatura ou da grande poesia, implica um mergulho exploratório nos nossos abismos mais profundos. Não se regressa de lá com a mesma leveza, nem o escritor, nem o leitor. Depressão literária, causa ou consequência?
Por lapso não me identifiquei no post acima, do “Anonimo das 21.04”. Sorry …
«Eu estou com o Pessoa e o seu “poeta fingidor”. O caminho da grande literatura ou da grande poesia, implica um mergulho exploratório nos nossos abismos mais profundos. Não se regressa de lá com a mesma leveza, nem o escritor, nem o leitor.»
Grande verdade, Fátima. Subscrevo.
Um livro, um ensaio, um poema, são filhos que põem no mundo e em quem depositam a alma, são projecções de si, são o barro que encarnou a seu toque e a seu toque fambém se fez pó.
Criar um personagem é como se um ser superior bipolar ortografasse caprichosamente uma página do livro da vida : pode dá-la e tirá-lá numa fracção de segundo.
É o paradoxo do criador. Não pôde decidir o seu prólogo, nem a maior parte dos capítulos, mas pode escolher o fim.
É como diz, Dulce. Isso ajuda a explicar de algum modo, creio eu, muitos desfechos trágicos.
Vamos lá contribuir para aumentar o número de comentários neste post: conheço tantos outros exemplos de pessoas deprimidas que não são ou não foram escritoras, que saber-se de escritores deprimidos ou suicidas não me parece suficiente para se poder concluir que possam ser mais susceptíveis por causa ou efeito a depressões…
Chega portanto à conclusão oposta a que chegou William Styron. Se o tema lhe interessa, recomendo-lhe este livro.
Não necessariamente, e sim que trágico destino poderá ser também o de todos, escritores e não escritores (estou muito positiva hoje)
Vou procurar o livro…