O teto dos inteletuais


Pedro Correia,

  

 

"Neste momento, temos o corretor pronto a ser instalado em todos os computadores." A frase – com o itálico da minha lavra – consta de um despacho de sexta-feira da agência Lusa, que desde ontem começou a escrever notícias "ao abrigo do Acordo Ortográfico", como foi sublinhando no remate de todos os telegramas distribuídos ao longo de sábado.

Li aquelas linhas e espantei-me: um corretor vai ser instalado nos computadores do mais oficial órgão de informação existente em Portugal? Durou pouco a perplexidade: afinal a notícia não aludia a um tipo qualquer especializado em transaccionar acções da Bolsa de Valores mas a um corrector ortográfico, agora destinado a dar caça às supostas consoantes mudas. E emprego aqui o adjectivo supostas porque muitas dessas consoantes têm a insubstituível missão de abrir as vogais. "Ao abrigo" da nova norma, para usar a curiosa expressão da Lusa, o vocábulo "diretor" passa a ser lido com E mudo, o som do A em "redação" também emudece e nem preciso de referir que o O de "adotar" passa a equivaler a U. Nada que refreie o entusiasmo do "diretor" da agência, que revela: "Cada jornalista esteve um dia a refletir sobre a filosofia geral do Acordo."

Também a mim isto dá para "filosofar". E lembro-me da celeuma que a reforma ortográfica concebida por Malaca Casteleiro gerou há 20 anos na comunidade literária portuguesa, com alguns dos nossos maiores escritores – de Miguel Torga a Vergílio Ferreira, de Agustina Bessa-Luís a Sophia de Mello Breyner – tomando posição firme contra a falsa "unificação", afinal quase um decalque da norma brasileira. Sophia, particularmente, acentuou então a importância das chamadas consoantes mudas na abertura das vogais num país que a sul do Mondego persiste em fechá-las.

Desta vez quase não houve polémica, o que é um esclarecedor sinal dos tempos. Adeus corrector, olá corretor e meses escritos em minúscula. Este é o tempo dos inteletuais, não dos intelectuais. Prontos a "abrigar-se" sob qualquer tecto. Perdão, teto.

10 comentários em “O teto dos inteletuais”

        1. Não, não está na Academia das Ciências, que é demasiado jovem para isso. E lá velhice não é sabedoria. Porque, como canta o Brel, “chez les bourgeois, c’est comme les cochons / plus ça devient vieux, plus ça devient …”

  1. eu achei este texto de teto elevado, pedro. de fato nunca fui muito à bola com intelectuais, por isso é melhor nem pensar quando se trata de inteletuais. Abraço.

    p.s. -peço perdão por alguma falha. é que ainda não estou acostumado com o acordo. aliás, escrever de acordo com o acordo é uma ação complicada para mim. será que algum dia o conseguirei? depois de meio século? dúvidas… sérias dúvidas.

  2. O inteletual da foto não está de fato convencido da bondade deste acordo ortográfico. Se o estivesse estaria de facto vestido e não tão à-vontade. Só não sei é se ele estará a ler o corretor ortográfico ou as atas dos últimos conselhos de ministros. Aceitam-se apostas.

  3. De fato Pedro não se suporta tanto artefacto cultural…;))
    Melhor será, despirem-se…Eu, não, não uso fato,,,:))

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