O segredo do mundo


Teresa Ribeiro,

Se não fosse mulher Roberto Bolaño não me teria impressionado tanto com 2666. Saber-se com os dias contados e portanto sem direito a uma segunda oportunidade foi determinante para conseguir escrever uma obra tão impiedosa. Mas nada na sua mortal pretensão de se transcender o obrigava a escolher o indizível como tema central desta espécie de tese sobre a natureza humana.

Uma parte considerável deste livro fala-nos da violação, tortura e assassínio em série de mulheres, inspirada em factos reais ocorridos no México. Estas mortes rituais percorrem 2666 ora através de alusões esparsas ora, na parte a elas inteiramente dedicada, através da exposição "fotográfica" dos cadáveres, feita a um ritmo torrencial, sufocante.

Na página 404 a frase dita por uma das personagens femininas revela-se a chave do livro: Ninguém presta atenção a estes assassínios, mas neles esconde-se o segredo do mundo.

A misoginia é o segredo do mundo? A misoginia que rasga estas 1027 páginas é assumida por um homem como o segredo do mundo?

Nesta obra Bolaño é duro para os homens, como não me lembro de ter visto outro escritor ser, sobretudo quando expõe a misoginia até ao osso: Como é a mulher perfeita? Pois, com meio metro de altura, orelhuda, com a cabeça chata, sem dentes e muito feia. Porquê? Assim com meio metro pode chegar exactamente à cintura, pá, orelhuda para a manejarmos com facilidade, com a cabeça chata para termos um sítio onde pôr a cerveja, sem dentes para não nos magoar a verga e muito feia para que nenhum filho da puta no-la roube.

A cena passa-se num bar onde se encontram alguns dos polícias que investigam os assassínios em série: Porque é que as mulheres não sabem esquiar? Porque na cozinha nunca neva.

O contador de anedotas continua: Vamos lá a ver, meus amigos, definam-me lá uma mulher. Silêncio. É um conjunto de células que rodeiam uma vagina. E então, narra Bolaño, alguém se ri. É um inspector: Essa é muito boa. – as anedotas seguem ao longo de quase duas páginas, cada uma mais alarve que a outra. 

Em 2666 há demasiadas marcas autobiográficas para que se deva presumir que deste retrato o autor se está a excluir olimpicamente, daí que faça sentido perguntarmo-nos se esta descrição tão cruel para os homens é um acto de contrição. Se não é, até parece. Mas de uma coisa tenho a certeza, gostar de mulheres é escrever isto: A sobrevivência da família foi-lhe difícil. Mas como era uma mulher humilde e discreta, de índole optimista e que além disso sabia ouvir, não lhe faltaram amizades (…) Não se importou de ter de caminhar mais vinte minutos todas as manhãs. Pelo contrário, caminhava-os quase a cantar. Não se importou de passar noites sem dormir, ligando um turno com o outro ou de ficar até ás duas da manhã na cozinha. Pelo contrário, o esforço físico enchia-a de energia, o esgotamento transformava-se em vivacidade e graciosidade.

E isto: É difícil ser feminista no México. Se uma pessoa tem dinheiro, não é tão difícil, mas se for da classe média é difícil. A princípio não, claro, a princípio é fácil, na universidade, por exemplo, é muito fácil, mas à medida que os anos vão passando é cada vez mais difícil. Para os mexicanos, só para que saiba, o único encanto do feminismo radica na juventude. Mas aqui envelhecemos depressa. Envelhecem-nos depressa.

No fundo 2666 é uma sentida homenagem às mulheres. Era o que me faltava dizer acerca do livro que mais me marcou em 2009.  

9 comentários em “O segredo do mundo”

  1. Teresa, mais uma vez, obrigada pela partilha da sua “leitura” do livro de Roberto Bolaño – tocou-me muito – deixou-me sem palavras… Retibuo-lhe com um poema de Fernando Assis Pacheco, espero que goste. Hoje, dia 1 de Fevereiro, se fosse vivo, faria 72 anos …

    Eu cantei este amor sem que soubesses.
    Falei de ti com as palavras mais limpas,
    viajei (sem que soubesses) no teu interior.
    Fiz-me degrau para pisares, mesa para comeres,
    tropeçavas em mim e eu era uma sombra
    ali posta para não reparares em mim.

    Andei pelas praças anunciando o teu nome,
    chamei-te barco, flor, incêndio, madrugada.
    Em tudo o mais usei de parcimónia
    a que me forçava aquele ardor exclusivo.

    Hoje os versos são para entenderes.
    Reparto contigo um óleo inesgotável
    que trouxe escondido aceso na minha lâmpada
    brilhando ( sem que soubesses) por tudo o que fazias.

    Fernando Assis Pacheco
    (in Cuidar dos vivos)

  2. Eu, para além de dizer que achei o texto muito bom (parabéns, Teresa), não vou dizer mais nada que, em tempos a autora do texto insinuou que eu talvez fosse misógeno. Não, não consigo, não resisto… é que eu achei piada àquela de não nevar na cozinha. (eheheheh)

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