(foto: Vaticano)
O modo como Cuba está a fazer a transição do socialismo puro e duro, herdado de Fidel, para um modelo, que ainda não se sabe qual é, mais consentâneo com os valores globalizadores da liberdade e da democracia, tem vindo a afirmar-se de forma discreta e, ao mesmo tempo, a meu ver, inteligente.
Não sei até onde poderá ir a abertura cubana, nem se o restabelecimento de relações diplomáticas normais entre Cuba e os Estados Unidos da América conduzirá à implantação da democracia. De qualquer modo, penso que não será difícil imaginar, pelos sinais que nos chegam, que o que vier terá todas as condições para ser melhor, do ponto de vista dos direitos humanos, da liberdade, da democracia, do apoio da comunidade internacional e da qualidade de vida dos cubanos, do que o testemunho que foi recebido.
Sem grande alarido, nem declarações excessivas, Cuba parece reencontrar o seu espaço, que no caso implica também uma mudança no seu relacionamento com o Vaticano, o que é capaz de deixar apreensivos os mais fiéis guevaristas. E, às vezes, são pequenos (grandes) pormenores que, passando despercebidos na comunicação social, vão marcando a diferença. É certo que persistem algumas contradições quando tudo isto acontece ao mesmo tempo que é publicado um artigo de Fidel com o sugestivo título de “Nuestro derecho a ser Marxistas-Leninistas“, mas essas serão arestas que o tempo se encarregará de limar.
Embora tenha sido assinalado o carácter privado da visita de Raúl Castro ao Vaticano, não deixa de ser irónico que o Presidente cubano se tenha feito acompanhar, para além de um vice-presidente do Conselho de Ministros e do chanceler Bruno Rodriguez Parilla, do ministro das Forças Armadas Revolucionárias de Cuba, Leopoldo Cintra Frías. Notar-se-á que Castro também chegou ao Vaticano num belíssimo Maserati, com a bandeira de Cuba, para visitar um Papa que se tem afirmado, entre outras coisas, pelo seu desapego ao luxo e aos sinais exteriores de opulência, aliás em coerência com aquilo que tem publicamente defendido, é a sua prática e constitui o seu pensamento.
Sem colocar em causa o caminho que está a ser seguido, que vejo com satisfação pelos benefícios que poderá trazer a todos os cubanos e pelo clima de paz e segurança que transporta para as Caraíbas, espero igualmente que em nome da verdade, e por respeito para com todos aqueles que sofreram os horrores da ditadura, o facto da Revolução Cubana e das suas Forças Armadas Revolucionárias passarem a estar abençoadas não faça Francisco esquecer-se dos excessos que em nome delas foram cometidos.


“Leio todos os discursos do Santo-Padre e se o Papa continua a falar assim, um dia destes vou recomeçar a rezar e regressarei à Igreja Católica. E não estou a dizer isto a brincar”, afirmou Raul Castro, após a audiência com Francisco.
Público 10/05/2015
A verdade é que, neste caso particular Vaticano/Cuba, são muito maiores as diferenças na liderança da Igreja Católica do que nas de Cuba. Aproximou-se muito mais o Papa de uma prática socialista, do que o contrário.
Também se espera que, no caso da aproximação CUBA/EUA, leve os Estados Unidos a abandonar, ou a suavizar, as práticas anti-democráticas que ainda prevalecem, especialmente as que praticam longe das suas fronteiras, mas mesmo nos seus limites, acabarem com as torturas a presos e outras.
Obviamente que isto é menos óbvio do que as ideias apresentadas pelo autor do post, mas como tem dois lados, pareceu-me que, por distracção, isso foi esquecido no texto.
Não, não foi distracção, e embora não tenha sido assinalado estou plenamente de acordo quanto ao que refere.
As práticas que refere não me têm passado despercebidas. Talvez não lhes tenha dado o ênfase devido. Ou então também lhe têm passado ao largo.
O caminho faz-se caminhando. Na sua reflexão verifico que vai colocando, em forma de alerta, traves nesse caminho.
Ora, a questão sobre a deriva cubana para o comunismo está ligada a um passado em que a política mafiosa americana, com o seu companheiro Batista, o PR de Cuba, praticava os mais diversos crimes e subjugava a população de uma pequena ilha a seus caprichos. Porque lhes interessava manter um ditador corrupto nas mãos da máfia americana. Não é por acaso que as secretas americanas, nas diversas tentativas de neutralizar (eufemismo usado para suavizar a palavra assassinar) Castro, usavam estes canais.
Fazer a história de Cuba sem se ligar à barbárie mafiosa americana desse tempo é ignorar o rigor histórico. Castro foi empurrado pelos americanos para os braços da URSS. E num conflito entre mundos, que conheço muito bem os resultados e as putices destes interesses, não venhamos com conversas de que há bons e maus ditadores, incluindo os ditadores norte americanos que sub-repticiamente emergiam num sistema democrático.
Aliás, a propaganda, de um lado e do outro destes mundos, sabia, e ainda sabe, como conduzir as mentes.
Francisco tem de fazer o papel de mediador e não de acusador. Da mesma forma que João Paulo II no derrube do comunismo a leste entendia que a queda tinha de se dar com luvas de pelica. E foi com luvas de pelica que se minaram as bases que fez explodir o sistema comunista a leste.
Neste momento a luta deve centrar-se contra a barbárie que ocorre em tudo o mundo capitalista e cujos resultados estão à vista nas guerras vividas no médio oriente (e não é única) fruto dos extremismos que este mesmo sistema gerou e alimentou.
A barbárie gera barbárie.
Tambem deve haver dedo das novas gerações dos quadros do PC cubano que como é lógico não sentem os incriveis ataques que durante decadas massacraram um a pequena ilha.
Vamos a ver se com a ajuda de brasileiros e chineses conseguem resistir ao garrote natural dos interesses economicos dos EUA/ingleses; as elites economicas nacionais, os quadros preparados para a livre competição é o pior legado desta incrivel postura de partido unico e que vai custar caro aos cubanos.