O santo horror de todas as coisas


Pedro Correia,

  

 

Bernard Henri-Lévy diz tudo quanto há de essencial sobre o finado Michael Jackson num artigo notável.

Alguns excertos:

 

– "Antes de tudo, as coisas. O santo horror de todas as coisas. Todo um aparato de máscaras, sombrinhas e mascarilhas. Toda uma borbulha, tão asfixiante como superoxigenada, a um tempo fechada e sobrexposta, que funcionava como uma estufa e o preservava da contaminação das coisas. E não apenas, como se disse, dos vírus, germes e bactérias, mas da vida em si mesma, entendida e vivida como um germe. O ser vivo como uma bactéria."

– "Não morreu devido a uma sobredose de medicamentos, mas por haver pretendido não apenas inventar mas também inocular uma vacina contra a vida."

– "[Via] a humanidade como um fiasco, os homens como feridas e a sociedade como um mal necessário."

– "Esta reencarnação de Peter Pan pensava sinceramente que os meninos se faziam sem contacto físico. Este adulto inacabado alimentou o sonho louco – e, em certa medida, concretizou-o – de conceber os seus próprios filhos sem contacto, quase sem mãe."

– "Reparem nas fotografias dele. Vejam a sua epiderme cada vez mais clara, como se tivesse sido passada por cal viva. Observem o seu nariz reduzido a quase nada, os lábios comidos do interior. (…) Considerem esta redução de um rosto reduzido à sua expressão mínima e convertido no seu próprio sósia. Não é o rosto a assinatura de um ser humano? A sua verdade? O modo como a expõe e se expressa? O signo da singularidade de cada qual, da sua unicidade sem preço?"

19 comentários em “O santo horror de todas as coisas”

  1. Temo discordar deste artigo, Pedro.

    O essencial de MJ, aquilo que ele ofereceu ao mundo, não foi o homem, mas sim o artista e a esse não reconheço nada de aberrante, disforme, algo de inacabado e muito menos, qualquer tipo de mentira.

    Quanto ao homem, penso que só muito poucos poderão falar dele.

    1. Em desacordo consigo, Patti. Concordo naturalmente com o artigo (e daí tê-lo citado). O MJ como ‘artista’ nunca me interessou. E a imagem que projectava, como BHL acentua, era a de um indivíduo que tinha horror à vida, que se refugiava detrás das muralhas blindadas das mansões e das máscaras e da maquilhagem para se isolar dos outros, para evitar as ‘contaminações’ da vida real, tornando-se uma caricatura de si próprio.

          1. Se este Bernard, escreve assim de um MJ, imagino o vómito da sua opinião acerca de um assassino, um pedófilo ou um violador.

            Há gente muito estranha, na verdade.

    1. O estilo é algo espalhafatoso, claro – muito à francesa. Mas BHL é mesmo assim e também MJ era espalhafatoso no palco e na vida, de modo que fica tudo a condizer. Acho que Lévy tocou no ponto certo. Resta acrescentar que a tradução é minha, não do original francês, mas a partir de uma tradução espanhola, que me pareceu mais fidedigna do que a inglesa.

  2. Notável mesmo, Pedro. Concordo absolutamente com esta visão, a de uma total aberração humana, patética e arrepiante, que fugia da vida mais do que de tudo o resto.
    Mas não estou de acordo contigo quanto ao “artista”: descobri-o muito tarde, ou seja, comecei a dar-lhe crédito como artista muito depois de o ter conhecido. E gostei muito do que ouvi e vi, depois de passada a idade dos ídolos. Ele era verdadeiramente original, e é essa a grande mais-valia de um artista.

    Não me interessa nada o espalhafato mediático da morte e os lucros com o sucedido. Nem vejo, sequer. O mundo sorve escândalos vorazmente, com o prazer de quem saboreia um pitéu. Com a morte prematura e com a vida escandalosa, MJ transformou-se num novo Elvis. Essa faceta é a menos importante e não desmerece em nada o talento que ele tinha.

    1. Quem vive para o ‘showbiz’, morre para o ‘showbiz’. É esta a regra, Ana. Valeu para o Elvis, que morreu aos 52 anos, valeu também para o MJ, que morreu com quase 51. É curioso: a filha do Elvis, com quem o MJ chegou a estar casado, veio agora revelar que o ex-marido vivia obcecado com a decadência e morte prematura do sogro. Há linhas do destino que acabam por se cruzar, de forma insólita, sem percebermos bem porquê…
      O resto é questão de gosto, que não discuto.

  3. MJ viveu como quis. Do nada fez uma fortuna incalculável e, gastou-a como lhe aprouve. O dinheiro era seu, nada a comentar. Fica a genialidade dos seus concertos, músicas e inovações ao nível de clips, etc.
    Quanto a BHL, é um ideólogo do regime. Vive à custa da sua filiação política, escreve o que quer e onde quer e, sexualmente é casado com uma mulher que me excuso a comentar. Gostos. Vive majestaticamente nos meios de conunicação social, escreve livros de pseudo-filosofia que, na prática se traduzem numa vaidade pessoal focada na imagem física e intelectual. A diferença é que enquanto MJ queria ser branco, BHL trabalha para ser um símbolo sexual activo, a esquerda caviar no seu melhor, o negligé chique. As grandes diferenças entre MJ e BHL é que o primeiro viveu do seu talento e, pour cause,fez da sua vida o que entendeu enquanto BHL vive à chamada conta, à sombra do caviar e duma mulher de cabaret que os franceses pagam. Ainda há quem ouça esta gente?

      1. Não. Sou mais o género o que vier morre. Não ultrapasso ninguém em filas de supermercado ou de emprego. Vivo para o que gosto, não para que os outros gostem e me façam subir na vida. Aliás, numa forma mais grosseira podemos dizer que também nós temos os nossos BHL, Carrilho e Sousa Tavares. A Carrilho falta-lhe o ar negligé, mas, agora em Paris quem sabe?

        Madame

  4. Pedro: É um retrato cruel mas o que mais se aproxima da realidade.
    Para minha perplexidade, vejo dois MJ distintos: o da fase inicial, mais alegre, doce, platónico, e o da fase aclarada, mais triste, distanciado, a apagar-se.

    Também me surge como uma metáfora dos tempos actuais ou mesmo dos que aí vêm: o não se sentir bem na sua pele, alterando o rosto (a “identidade”) e outras partes que se rejeitam. A sagração da primavera, não querer envelhecer, mesmo nas imagens veneradas de lolitas e de adolescentes imberbes.

    Mas que sei eu? Apenas que se tratava de um talento, sobretudo na primeira fase, isso é indiscutível, que por estranhas razões rejeitou a sua imagem e a passagem do tempo…

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