
Poucos livros como este ilustram de forma tão credível e lapidar a pobreza extrema – assunto que costuma estar arredado da grande literatura. John Steinbeck não se limita a descrever paisagens agrestes povoadas de gente disposta a recomeçar do zero na América rural dos anos 30, em jeito de reportagem impressiva e pungente: coloca estes pobres concretos no patamar das figuras de recorte universal.
Trabalhadores agrícolas há incontáveis gerações, são eles o «sal da terra», para usar uma expressão bíblica. E tornam-se protagonistas políticos a partir do momento em que adquirem consciência da sua força potencial nas circunstâncias mais adversas, quando um homem valia menos do que um cavalo no mercado laboral. Ao combate pela sobrevivência sucede-se a luta por um salário digno, disputado ao cêntimo pela mão-de-obra exangue num cenário em que a oferta de emprego excede largamente a procura.
Como aprende Tom Joad, romeiro no asfalto do Oklahoma à Califórnia naqueles dias áridos da Grande Depressão, ao descobrir-se como sucessor dos hebreus antigos num novo Êxodo em busca de um lugar ao sol que lhe garanta o sustento básico: «Dois valem mais do que um, porque ambos terão maior recompensa pelo seu trabalho. E se um cair, o outro erguerá o companheiro. Mas ai do que estiver só, pois quando cair não terá ninguém junto de si disposto a levantá-lo.»
São poucos os livros que, como este, conseguem transmitir-nos de forma fidedigna a sensação física de fome que atinge todos os membros da família Joad nesta odisseia quilométrica. À mercê da feroz inclemência da natureza e vítimas da devastadora prepotência humana. Mas sem nunca desistirem de sonhar.
Romance justamente distinguido com o Pulitzer, As Vinhas da Ira é um fabuloso mosaico de uma América em transição. A América suja do pó da estrada, que caiu na berma mas ousa erguer-se em resposta a uma voz de comando que vem do mais fundo de si própria.

Boa tarde Pedro Correia
O seu texto recorda-me que estou bastante……. “menos novo”.
Belíssimo livro e crua realidade, que perdura por muitos cantos do nosso planeta.
Li-o “outro dia” !
Saúde.
Bom fim de semana.
António Cabral
Um belo livro, que deu um excelente filme de John Ford. Obras-primas, num caso e noutro.
Saúde, meu caro.
Desse livro, que li em jovem, só me recordo da cena da jovem grávida que com as unhas arranca a cal das paredes para a comer, por estar com falta de cálcio.
Uma cena impressionante.
A extraordinária fotografia “Migrante Mother”, de Dorothea Lange, dá uma imagem daqueles tempos de pobreza nos EUA.
Mais tarde, final dos anos 40 início de 50, apareceu outros tempos de pobreza, conforme nos mostra a dramática fotografia “4 CHILDREN FOR SALE”.
No nosso tempo, já nos anos da década de 2010, aparece-nos a falência da cidade de Filadelfia e as imagens filmadas de milhares de pobres a vaguear pelas ruas da cidade. Mas o interessante destas filmagens é ver-se dezenas de luxuosos carros parados sem serem danificados.
A pobreza extrema, vizinha muito próxima da miséria, é matéria de muita cartilha política mas pouca arte literária. Steinbeck é uma honrosa excepção: fala deste tema com um vigor e uma verosimilhança impressionantes. Como se estivesse lá. Como se fosse um deles.
Gostei tanto do livro e quando o li a primeira vez, teria uns dezoito a vinte anos. Já o reli e voltei a gostar. O filme, que também já vi e revi, é bom; Henry Fonda salienta-se. Mas nada chega à densidade do livro. Um grande escritor.
Para, um dos melhores romances do século XX à escala mundial. Inesquecível.
Um título tão forte quanto indecifrável.
Indecifrável?
Quem é que conseguiria adivinhar que ele simboliza marcha e revolução?
É brutal esse romance. Impressionou-me muito. Não sei se teria estômago para o ler novamente…