Amigos de aluguer


viajarporquesim,

Li num artigo que em Tóquio é possível alugar amigos. Ou seja, pagar a alguém para ser nosso amigo durante umas horas. Os “amigos de aluguer” entrevistados contam as histórias mais variadas, desde serem contratados para passarem por familiares de uma noiva, posarem para selfies no Instagram, fingirem ser um namorado ou namorada, ou serem apenas correspondentes por email. No entanto, a grande maioria das pessoas que os contratam apenas querem companhia: para ver TV, ir às compras, ou simplesmente conversar.

Para quem trabalha nesta área, a motivação não parece ser o dinheiro – o valor que recebem por hora não é assim tão alto quanto isso (sobretudo num país caro como é o Japão), e a procura destes serviços é sempre incerta. Há quem diga que é o desejo de ajudar quem precisa de algumas horas de conforto emocional, ou quem o faça para quebrar a rotina de um emprego estável mas algo monótono. Alugar a nossa amizade a estranhos em troca de dinheiro parece estar algures entre um passatempo e a prestação de cuidados paliativos.

O que é que isso diz de uma cidade como Tóquio, tida como superdesenvolvida e onde há lugar para todas as excentricidades? E o que é que diz sobre a sociedade japonesa, que é supostamente tão correcta e amigável? A explicação dada no artigo é que no Japão, o importante é a fachada, o exterior impecável, a aparência de que está tudo bem. As pessoas não estão habituadas a mostrar o seu lado mais vulnerável, têm dificuldade em abrir-se com os outros. Não se tocam. Não exprimem as suas emoções. Psicologicamente, não estão bem, mas não partilham o que sentem, e não procuram ajuda – porque há um estoicismo, transversal a toda a cultura japonesa, que faz com que se vejam obrigados a aguentar tudo sem darem parte de fracos. Nas redes sociais podem até mostrar uma vida feliz, alegre e preenchida, mas muitas vezes tudo não passa de uma mentira.

Num país onde é normal ter um horário laboral diário de 10 horas e frequentemente o convívio se resume à família e aos colegas de trabalho – com o habitual distanciamento físico e emocional já firmemente incorporado nos hábitos sociais – sobra pouco espaço e tempo para construir amizades verdadeiras, e menos ainda duradouras. Num país que é tecnologicamente muito desenvolvido, culturalmente avançado (e esta é a explicação mais invocada para as reduzidas taxas de infecção e morte por covid-19 que o Japão tem mostrado), hiperprodutivo, politicamente estável e etnicamente homogéneo, esta incapacidade de ter e manter amigos parece coisa de ficção científica – e daquela mais pessimista.

Como latinos que somos (e optimista que sou), estou em crer que por cá a “moda” não irá pegar. Mas… este retraimento a que somos forçados há quase dois anos, somado à apetência cada vez maior pelos smartphones e à substituição de formas de entretenimento interactivas por quilómetros de scroll e horas passadas a jogar ou nas redes sociais, não são um bom indicador do que poderá ser o futuro próximo, sobretudo para as gerações mais jovens – que desconhecem o poder reconfortante das tardes à conversa com os amigos num qualquer café de bairro.

32 comentários em “Amigos de aluguer”

  1. A explicação dada no artigo

    A explicação dada no artigo diz mais sobre quem escreveu o artigo – claramente um europeu que deseja dizer mal da cultura japonesa – do que sobre o Japão. A explicação dada no artigo é negativista, desagradável para com a cultura japonesa. Quem escreve o artigo, em vez de louvar uma caraterística positiva dos japoneses, que podia e até devia ser imitada na Europa, achincalha-os.

  2. Isso por cá já acontece há muitos anos . Mas damos lhe o nome de amigas prostitutas.Tambem alugam o seu tempo.

    1. Há aquilo um ligeiro paralelismo, mas o espectro de actuação destes amigos não inclui envolvimento romântico ou sexual, e é muito mais amplo em termos de actividades possíveis.

  3. Se a Toyota veio para ficar porque não esta novidade? (Estou disponível para amizades curtas e castas, cavalheiro de aparência cuidada ou descuidada consoante a preferência, versado numa vasta panóplia de temas de conversa – whatsapp, e-mail, pessoal -, apreciador de canais televisivos, contas no youtube e vimeo, frequentador de instituições culturais e comerciais. Remuneração a combinar. Contacto por mensagem privada).

  4. Por acaso… se há aquela cena do sexo sem compromisso (fazer a coisa que a malta aprecia uns 5 min… 50 minutos, sem as complicações da relação social e emocional), por que não o amigo sem compromisso? Umas horas de conversa sobre os mais variados temas, umas confissões, tempo de lazer bem passado, uma qualquer actividade tipo dominó ou até corrida. Sem os pontos negativos das amizades, do tipo me telefonar a meio da noite para o levar ao aeroporto ou pedir dinheiro emprestado. Estou disponível. Se pagarem, melhor, mas tem que ser na base da economia paralela.

        1. A ver vamos quando é que esses ensinamentos começam a ter efeito sobre o PIB, a produtividade, os défices e todos esses números que os economistas (e não só!) gostam de exibir.

  5. Por cá também há isso, e é tendencialmente gratuito – ou melhor, paga-se o bilhete do transporte público, vai-se a um centro de saúde, e faz-se do cidadão ao nosso lado um amigo. Se não funcionar com o primeiro, mude de lugar. Também serve um posto dos CTT – como comprova qualquer cidadão que quer levantar um registo à hora de abertura, e já lá estão plantados 3 reformados para retomar a conversa com o funcionário.

    1. Porque cá já temos desde sempre esse serviço gratuito é mais um dos motivos para achar que a ideia de pagar por isso não deve ter muita saída.

    2. Tenho uma amiga que é farmacêutica e me diz que metade do que ela faz na farmácia é conversar com idosos que vão lá em boa medida para isso.

      1. comentador balio, proponho-lhe que pergunte à sua amiga farmacêutica se não quer contratar (part-time que seja) alguém (bloguista veterano) para cumprir esse serviço social enquanto ela, e restantes funcionários especializados, tratam do que será realmente relevante na gestão da farmácia em causa.

  6. Quando ouço dizer que os japoneses já usavam máscaras não só por razões de poluição (e Tóquio nem é a cidade asiática mais poluída) como por razões culturais e “delicadeza” para evitar passar quaisquer danos respiratórios aos outros, vem-me à ideia a sociedade asséptica e com fobia ao outro – em especial ao toque – em que o Japão se está a transformar. E a tecnologia, neste caso, não ajuda. Não é com certeza o modelo que desejo para a sociedade onde vivo.

    1. Cada cultura tem os seus hábitos sociais. Tive uma colega brasileira que dizia que teve alguma dificuldade em adaptar-se ao nosso país porque achava os portugueses muito fechados. Passados uns anos, quando regressava de férias no Brasil confessava-se com pouca paciência para as conversas das amigas brasileiras, que ela já achava muito fúteis. Mesmo sem darmos por isso, a sociedade em que vivemos vai-nos moldando devagarinho. Quando leio artigos deste género, ou livros de escritores japoneses, causa-me sempre uma certa estranheza aquela contenção subliminar que parece fazer parte da cultura tradicional japonesa (e sou uma admiradora confessa de muitos dos seus aspectos culturais), e que convive simultaneamente com as maiores excentricidades. Se a delicadeza no trato e o respeito pelos outros me parece ser um hábito saudável, este tipo de comportamento levado ao extremo acaba por criar algum isolamento e coloca entraves às relações interpessoais francas e duradouras. Como seres gregários que somos, precisamos de ter na vida outros seres que nos sejam próximos em todos (ou quase) os aspectos. A bem da nossa sanidade mental.

      1. Exatamente. A mim causa-me alguma espécie como é que os japoneses, que deram mostras de uma ferocidade e crueldade terríveis durante a II Guerra (contra os prisioneiros, por exemplo), caem agora em extremos de excessiva delicadeza ou fechamento sobre si mesmos.
        (Entretanto, bem vindo ao Delito, Ana).

        1. A cultura japonesa sempre foi um bocado extremista, e têm muito imbuída aquela ideia do estoicismo, do rigor, dos protocolos e cerimoniais. Dor e delicadeza para eles não são incompatíveis.
          (Obrigada! :)))) )

    1. Aqui chega tudo. Se depois tem ou não sucesso, isso já é outra história.
      Quanto ao trabalho, e com excepção dos estabelecimentos que têm porta aberta, acho que com um bocadinho de organização e destreza (e umas ajudinhas tecnológicas) poderemos fazer cada vez mais em menos tempo. A ver vamos…

      1. brincando e ainda assim respeitosamente : acredita mesmo no que diz no 2 paragrafo …
        A revoluçao industrial ja tem mais de um seculo e continuam as mesmas 8 horas…

        1. Quando a revolução industrial começou, os dias de trabalho eram muito superiores a 8 horas. E há algumas décadas em Portugal trabalhava-se meio dia ao sábado. Há empresas em que o horário é inferior a 40 horas semanais – e em algumas não se exige que as pessoas façam mais do que esse horário. Portanto… Tudo é possível. Pode não ser provável, mas é possível.

          1. aprecio, e elogio, o rigor.
            Todavia algo dispensável neste caso.
            O que “consta” é que trabalhamos cada vez mais, ou por outra, já deviamos estar a trabalhar bem menos.
            …mas já agora, depois do 25A houveram governos que quiseram repor o trabalho ao sabado de manha …pelo menos.

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