O que mudou?


Paulo Sousa,

Quando estamos a sair de uma doença ou lesão, é normal dosearmos gradualmente o regresso ao dia-a-dia, de forma a acompanhar e estimular o nosso aumento de capacidades.

Ora, se o vírus do momento não passou a ser menos contagioso, e se ainda não estamos imunes, esta abertura gradual baseia-se em quê?

Temos apenas como certo que, se forem cumpridos alguns procedimentos de resguardo, o risco de contrair a doença não é anulado mas é reduzido significativamente. E isto é tão válido hoje como há seis semanas atrás.

Se a nossa vida confinada, com um risco de contágio próximo de zero, era apenas 50% normal, aceitamos agora um risco de 5% para ter uma vida 80% normal? Claro que estas margens de risco são apenas intuitivas e não têm qualquer base estatística ou científica, mas traduzem a forma como interpreto esta nova fase. Cada um de nós terá uma resposta diferente para a mesma questão, assim como cada um de nós atribuirá diferentes ponderações a estas variáveis.

Existem naturalmente outros factores que contarão também para a avaliação individual da situação. Um deles será o facto de se pertencer ou não a um grupo de risco, e o outro resulta da respectiva situação profissional e/ou financeira.

Quem tiver estabilidade financeira que lhe permita manter o isolamento poderá fazê-lo, mas como nem todos o podem ou querem fazer, é normal que o país passe a funcionar a diferentes velocidades.

O actual estado de espírito da sociedade já não é igual ao que levou ao auto-confinamento generalizado, que foi até anterior à declaração do estado de emergência. A incerteza e o medo continuam presentes mas enquanto cenário de pandemia global… concluímos que os números da letalidade não são assim tão graves, que justifiquem o impacto económico decorrente de uma paragem demasiado longa.

Assim, e apesar de objectivamente não estarmos imunes nem o vírus ser menos perigoso, decidiu-se iniciar o regresso faseado à nova normalidade, não pela alteração da situação epidemiológica mas simplesmente pela digestão que já fizemos da realidade.

– / –

Não foi assim há tanto tempo que assistíamos ao debate sobre o uso da nikab nos espaços públicos e sobre a ameaça cultural e até de segurança que este consubstanciava. Agora, o uso de máscara é obrigatório nos transportes públicos.

Temos de ter capacidade de rir de nós próprios.

6 comentários em “O que mudou?”

  1. Que raio de país é esse que falam, que dizem estar parado ?
    No país onde vivo e estou não pararam a Agricultura,as Pescas,a Indústria Transformadora,a Indústria Química, a Construção Civil, a Construção Naval,a Indústria Química,os Transportes,a produção de Energia,os Seguros, a Banca,a Segurança Social,os Hospitais,os Bombeiros, a GNR,a PSP,o Exército,a Polícia Marítima,as Finanças,a Informação, Aeroportos,Portos,etc.,etc.,etc..
    Dizer que Portugal parou só um débil mental pode dizê-lo,um coitadinho que viva encerrado,ou que tenha umas palas tamanhas, de não o deixarem vêr o mínimo.
    Só má fé cínica ou obtusidade córnea…o que parou foi a cabeça de quem tal declara!11

    1. Milhares de portugueses mudaram de rotina nas últimas semanas.
      A quebra prevista do PIB será maior que a do último resgate do país.
      Eu, mesmo estando a trabalhar as habituais 49 horas semanais, fora os extras, reparei que muita coisa parou.

  2. Dir-se-á que fujo à questão (sendo certo que tanto sobre ela se tem escrito e falado, e tão pouco dela se parece poder ainda taxativamente afirmar, a não ser sobre a calamidade económica que aí vem; que já cá está), mas não posso deixar de pedir cautela, muita cautela, nas analogias ao nikab.

    Não faltará decerto quem quanto a isso – e desde logo entre nós, malvados ocidentais – vá já entrando em rituais auto-flagelatórios da eterna culpa do ocidente, que ficará para eles uma vez mais demonstrada. Convém também por isso não ir aí, em nome da mais elementar honestidade, além do anedótico. Não vale a pena dar-lhes argumentos. Ou reconhecer aqueles que invoquem. Não é um obsoleto fanatismo religioso que nos leva a usar máscara; nem uma guerra de civilizações (uma delas requerendo generoso uso de aspas); nem uma indefensável misoginia. Nem a máscara que utilizaremos tapa como o nikab tapa.

    É uma reacção defensiva, espera-se que temporária (mesmo que o uso de máscara doravante se torne mais frequente) perante um fenómeno definitivamente não religioso e ainda longe de dominado. Uma questão biológica que não de fé. Muito menos de imposição de uma espécie de fé (ou assim se espera).

    Na civilização em que cresci, o reconhecimento do outro faz-se largamente pelo seu rosto. Não vejo, lamento, mal nisso. E se necessário for, perante quem tenha legitimidade para mo exigir, ou se eu próprio entender que o devo fazer para que se saiba quem sou, não hesitarei – havendo para tal condições sanitárias – em momentaneamente retirar a máscara que esteja a usar. Não hesitarei e espero que não hesitem as senhoras. Sem invocar com isso o regresso dos cruzados, a urgência absoluta de um califado mundial, a necessidade imperiosa de chacinar cristãos ou qualquer jihad. Ou lá como se chama.

    Entre o nikab e as nossas máscaras a analogia começa e acaba aí: em cobrir parte do rosto (praticamente todo, no primeiro caso). E em agora aumentar-se talvez o trabalho das nossas polícias no reconhecimento de criminosos. Ou nem isso, pois esses já as usavam, às máscaras, bem antes disto tudo.

    Costa

    1. Podemos também imaginar que esta coisa da vida não será mais que um teatro em que, com maior ou menor convicção, todos acabamos por representar. O dramaturgo não se descose com o próximo acto e o contra-regra parece que anda a gozar connosco.
      E sabe que mais? Eu que concordo com a limitação do nikab, por motivos de segurança, tenho de me rir disto tudo.
      Felizmente não investi em software de reconhecimento facial.

  3. “O que mudou?”

    Essencialmente nada. Na generalidade, continuamos a nível europeu a ser governados por uma sociedade em comandita de incompetentes que, no caso português e como habitualmente, desde a instituição da monarquia constitucional, passam sucessivos e bem sucedidos atestados de incompetência a si próprios. As listas fechadas em que se baseia o sistema eleitoral desde então garantem-lhes o sucesso, nem que seja o da própria incompetência.

    Agem como o controlador proporcional, sempre atrasado em relação à realidade e que passa sucessivamente do 8 ao 80 e do 80 ao 8, quando a realidade que deviam controlar e manter se situa nos 50.

    O último exemplo bem demonstrativo daquilo que refiro acima é a obrigatoriedade do uso de máscaras nalgumas circunstâncias, já a partir de 4/5/2020, estando prevista a aplicação de coimas para os incumpridores.

    O que mudou, desde há 2 meses? Absolutamente nada. Já então se devia usar máscara em todos os recintos fechados, públicos e acessíveis ao público, porque o vírus é o mesmo, porque os mecanismos de transmissão continuam a ser os mesmos, porque as distâncias atingidas pelos jactos bi-fásicos provenientes da expiração, da tosse, ou do espirro continuam a ser as mesmas.

    Com as novidades legislativas agora introduzidas, no que se refere ao uso de máscara, o legislador apenas demonstra a sua ignorância e a sua incompetência e que terá contribuído para a propagação de doença contagiosa, o que constitui crime.

    Mais uma vez, convenientemente sentado, fico à espera da actuação do MP e da PGR. Tal como continuo à espera da abertura de inquérito ao copianço generalizado ocorrido há alguns anos atrás na casa da justiça, o CEJ e que configura, pela leitura que faço do CP, crime de fraude na forma tentada.

    Como nota, acrescento como razão da minha longa espera o facto do poder judicial, no nosso ordenamento jurídico, ser o único poder que não se encontra sujeito ao escrutínio popular, o escrutínio daqueles que lhes pagam o ordenado e a quem devia servir, havendo evidentemente questões de legitimidade que importa derrimir (noutro lugar).

    1. Coitados de nós nas mãos dos nossos governantes e coitados deles e da figura que fazem à conta do vírus.Se perante os incêndios florestais, que ocorrem todos os anos, parece que agem como se fosse a primeira vez, perante uma pandemia que é muito menos frequente estava à espera de quê? Improviso tuga no seu melhor.

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