É claro que fazer jantares no Panteão é patético e de gosto duvidoso. É evidente que fait divers destes dão cada vez mais azo a oportunismos políticos, sejam do Governo ou da oposição (a última pérola neste sentido é de Gabriela Canavilhas, uma das mais notórias yes women do PS). E é cristalino que é deste tipo de coisas que se alimentam as sempre insaciáveis redes sociais, sendo que esta polémica partiu precisamente de um blogue – o de Seixas da Costa.
Mas duas coisas me ficaram: uma delas é, como escreveu o Rodrigo Adão da Fonseca, que os nossos governantes e os nossos organismos públicos reagem crescentemente sob a pressão das tais “redes sociais” e respectivos estados de humor, sobretudo quando estão “indignadas”, o que nos leva a uma caótica e degenerada noção de “democracia directa”; a outra é que se os tais web summiters, ou lá como lhes chamam, não perceberam minimamente onde estavam, é porque a sua visão somente apontada à tecnologia, a um certo tipo de empreendedorismo, e ao culto da “informalidade” faz tábua rasa de qualquer conceito de sacralidade e de respeito pelo passado e pela memória. Ou seja, um caldo de economicismo e de modernidade a todo o custo baseados na tecnologia, que recorda os “progressistas” do século XIX, que não hesitavam em derrubar os traços medievais existentes, como castelos, palácios ou igrejas (e o nosso país bem sofreu com isso), para construir as suas particulares visões de futuro e de “civilização”. Bem vistas as coisas, não admira que as suas reuniões se tenham vindo a fazer em Portugal.

Achou mesmo que o meu comentário é dos que ajudam a qualificar “insaciáveis redes sociais”?
De forma alguma. Mas tratando-se de uma notícia sugerida por um blogue, espalhou-se como um rastilho, provavelmente mais célere do que se tivesse aparecido num jornal de grande circulação. E já se sabe, o potencial de partilha na net é tremendo, e “quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto”.
Sobre jantares tecnológicos noutras paragens:
To give you an idea of the kind of dining on offer, on the opening night alone we were treated to the first ever banquet in the almost 1,000-year history of Dublin’s Christchurch Cathedral, complete with an after-dinner choir performance.
https://thenextweb.com/wp-content/blogs.d ir/1/files/2012/10/Founders2012-108.jpg?a mp=1
A Catedral da Santíssima Trindade (em inglês: Cathedral of the Most Holy Trinity, popularmente conhecida como Christ Church, literalmente Igreja de Cristo) é a mais antiga das duas catedrais medievais de Dublin, sendo a outro a Catedral de São Patrício. Foi a sede do arcebispo de Dublin (agora parte da Igreja da Irlanda, de confissão anglicana) desde os tempos medievais e é dedicada à Santíssima Trindade.
O preto sempre foi a nossa cor. E o luto a nossa arte.
Soube que o caldo verde estava divinal!
“sob a pressão das tais “redes sociais”
Talvez seja a única forma de o Estado ganhar um pingo de vergonha.
A comunicação social ( televisão ) também recorre frequentemente a imagens “vídeo amadoras “. No caso da agressão de Coimbra penso terem sido fundamentais para o tipo de acusação do MP. ….o temporo o mores
Eu não conheço o Panteão. Mas, segundo diz a sua diretora, o jantar não foi na sala onde estão os túmulos, a qual terá permanecido fechada. Pelo que, nem o jantar terá sido “de gosto duvidoso”, como este post afirma, nem os convivas teriam que “perceber minimamente onde estavam”, como o post também afirma.
Acresce que o jantar terá sido encomendado a uma empresa de catering, que naturalmente não diz (nem tem que dizer) às pessoas que ali ao lado estão túmulos. A empresa de catering comercializa jantares naquele espaço como comercializa noutros alternativos (dá a escolher aos clientes diversos espaços) e os clientes não têm nada que se informar sobre as origens históricas do espaço onde estão.
Pelo que, a meu ver, os web summiters não têm nada que se lhes possa criticar. Aliás, em minha opinião ninguém tem nada que se lhe possa criticar: nem eles, nem a empresa de catering, nem a direção do Panteão. Quem deve ser criticado são as donzelas que não entendem que aquele espaço pode e deve ser comercializado, como qualquer outro.
Aliás, o significado de “panteão” é pelo menos obscuro, ao alcance apenas de alguns eleitos. Na verdade o entendimento massivamente consagrado é seguramente o de um local de entusiásticos folguedos. Como perceber então onde se estava?
E é bem verdade que se alguém se interessar pelo local onde se encontre ou preveja vir a estar, tal é sinal de ociosa e absolutamente estéril ocupação de tempo. Na melhor hipótese, pois facilmente tocará o limite do inaceitável. Aliás, bem sabemos, a cultura é pelo menos perigosa. Subversiva, mesmo.
Mas é muito fácil esquecer isto. Felizmente é atento, incansável e pacientíssimo o nosso abnegado director espiritual (mas laico, evidentemente!) Lavoura.
Costa
Costa , o que lá está a fazer o Sidónio? Foi por causa da Sopa?
Penso que o Eusébio ainda tentou sair. Cheiravam-lhe aos cosinhados de Flora.
Aquilo das Doces como é que ficou?
Lavoura eu daqui vejo as mesas postas junto aos túmulos
O que significa que na sua opinião, o Panteão é um espaço “como qualquer outro”. Eu até sou a favor do aproveitamento de monumentos para funções que não apenas as museológicas, mas há limites ás funções a que se prestam.
O que a sua directora diz pouco interessa, tendo em conta o historial conhecido de enganos que tem cometido. E se os túmulos não estavam exactamente à vista, estavam os cenotáfios. Só isso indicava que não se tratava de “um espaço como os outros”. O resto do seu comentário só dá razão ao que escrevi no post: se os participantes nem ao menos queriam saber onde estavam, então para eles tanto se lhes dá que estejam numa pizzaria ou num monumento à memória das grandes figuras da pátria. Ao que parece, para si também. E que tal acrescentar um espectáculo de variedades?
Ah, e o pormenor de ser uma empresa de catering é fabuloso: só faltava mesmo fazerem daquilo um restaurante.
Já agora, o comentário das 2:09 era meu. Não sei como raio aparece como anónimo.
Concordo totalmente com o comentador Lavoura (o que é raro), e acrescento que o espaço em apreço foi “dessacralizado” há muito, quando o converteram de igreja em templo maçónico (pago pelo erário público, como é evidente) e, inevitavelmente, e dada a evolução dos costumes, em memorial de pessoas que gozavam de popularidade. Por isso, no templo ao mau gosto que é o “Panteão Nacional”, este jantar é, francamente, um pormenor. Incomoda-me, sim, que um visitante estrangeiro que tratou tudo de acordo com as regras que o nosso Estado lhe comunicou acabe a pedir desculpas aos portugueses, e que o líder eleito (salvo seja) destes se pronuncie indignado por algo que aprovou (e muito bem, digo eu) três anos antes. Incomoda-me, mas, infelizmente, não me surpreende.
Eu não posso concordar com o Lavoura, mas mesmo não sendo grande fã do Panteão, sobretudo depois das razões invocadas para levar para lá Aquilino Ribeiro, acho que, tendo aquelas particulares funções, se presta a alguma solenidade. I irrita-me solenemente que haja gente que vá lá para tainadas sem se informar sequer do sítio onde se encontra.
não tenho qualquer tipo de relação com gente fina
nem locais de má nota
Percebo e subscrevo a tua primeira conclusão, mas tenho alguma discordância em relação à segunda. Talvez os “web summiters” (bom neologismo) não tenham percebido onde estavam. Mas tinham de perceber?
A relação com a morte, a forma como diferentes culturas a encaram, varia substancialmente com as latitudes. Numa nota pessoal, durante os tempos de estudante em que tive a sorte de vaguear por Edimburgo estudei muitas vezes em cemitérios daquela cidade, que são aliás locais de eleição para piqueniques familiares ao fim-de-semana. Recorro ao lugar comum do primeiro-estranhas-e-depois-entranhas porque foi mesmo esse o meu caso. Nesta cidade escocesa, como noutras, os cemitérios são locais de uma beleza arquitectónica e paisagística impressionantes e, de facto, convidativos. A morte é entendida com a naturalidade fatal que tem.
Voltando aos “web summiters”, é verdade que manda a boa educação que em Roma sejas romano. Porém, quantos de nós não cometemos atropelos culturais quando andamos por outras paragens? Nesta matéria, concordo com Marques Mendes (Deus me perdoe…): os modernaços pediram autorização e a autorização foi-lhes dada. O Estado, que defende os interesses nacionais nas suas mais diversas vertentes, não se opôs; portanto não faz sentido que fossem estrangeiros a interpretar e defender a cultura e os interesses do país numa situação onde o Estado nada teve a objectar.
Diogo. Fiz Erasmus. Possuí numa campa (Mary Daniels: 1898-1950).
Viagem astral….nascimento, amor gemido, morte e lamento.
Edimburgo tem cemitérios encantadores, como o de Greyfriars, com as suas histórias de fantasmas. Mas creio que até pelo aspecto arquitectónico do local seria bom tentarem informar-se de onde estavam. Viu-se pela reacção posterior de Paddy Cosgrave que não tinha a menor ideia do que era aquilo. O que, juntando ao ambiente próprio da Web Summitt, revela que era mais um local para um “evento”, pouco importando o seu significado. Andamos a apregoar tanto o nosso país aos turistas que nos esquecemos de explicar ao que é que eles vêm para além dos lugares-comuns habituais. Daí também a nossa culpa (e da senhora directora que autorizou o jantar mas cujos critérios de autorização, sabemos agora, variam muito com os seus humores).
Tal como a resposta ao Lavoura e ao JPT, também a de cima aparece como sendo “anónima”, não sei porquê.
Não há coincidências. E Deus não joga às cartas
Excelente post, excelentes comentários, como é usual.
Mas entretanto o que se estará a passar de tão grave que leva PS e PSD (juntos), governo, sempre apoiados por dependentes TVs e algumas redes sociais … estejam todos a reavivar, insistentemente, este inóquo tema?.
O que realmente de importante se estará a passar, escamoteado por estes gestos de ilusionista?.
A propósito, coloquei no 31 da Armada um post dedicado à Curva da Indignação nas redes sociais: ociais-as-curvas-ii-6934405
http://31daarmada.blogs.sapo.pt/redes-s