O que estou a ler (11)


Pedro Correia,

 

Vivemos num tempo fragmentado, que convida a uma dispersão crescente, e somos vítimas desse fenómeno. A nossa capacidade de concentração é cada vez mais escassa. Paramos a série televisiva a meio para ver não importa o quê, tornámo-nos incapazes de assistir a um filme de duas horas sem interrupções, passamos o tempo a indagar se há novas mensagens no telemóvel mesmo quando não esperamos nenhuma, as redes sociais solicitam-nos a todo o instante um pequeno pensamento em inócuas pastilhas de 140 caracteres.

Este estúpido frenesim em que mergulhámos graças aos avanços tecnológicos não propicia leituras muito profundas.

 

Acabo também por viver fragmentado. Mas em matéria de leituras, valha a verdade, sempre fui errante. Enquanto um livro não me prende a atenção por inteiro, sobrepondo-se aos demais, vou-me dividindo por títulos e géneros muito diversos em coexistência pacífica um pouco por toda a casa.

Dos mais recentes que li, destaco a biografia de Mário Soares por Joaquim Vieira. Um livro sobre o qual tenciono escrever aqui muito em breve.

Neste momento vou lendo alternadamente O Intruso, de William Faulkner (interrompido, à espera de fôlego suplementar, na página 100), Um Gentleman na Ásia, de Somerset Maugham (em ponto morto desde a página 48), Pensar, de Vergílio Ferreira (suspenso sine die na página 46), Os Ditadores, de Richard Overy (obra gigantesca interrompida, até ver, na página 178), La Aventura de Pensar, de Fernando Savater (de que tenho lido pedaços não consecutivos), e o segundo volume da biografia do general Charles de Gaulle, de autoria de Eric Roussel.

Este é o que me tem captado mais a atenção.

 

É uma edição de bolso da editora francesa Perrin intitulada simplesmente De Gaulle II. 1946-1970, tendo na capa o último retrato conhecido do velho general, tirado poucos dias antes da sua morte. O primeiro volume, que ainda não abri, vai de 1890 a 1945 – do nascimento até ao ponto culminante do seu primeiro período no poder, quando conseguiu fazer ascender uma França desonrada e exangue, que chorava 600 mil mortos, ao reduzido patamar das potências do mundo pós-Ialta, com assento permanente no Conselho de Segurança da ONU (juntamente com os EUA, a URSS, o Reino Unido e a China) e ocupando uma parcela da Alemanha desmilitarizada (embora sem adquirir a soberania permanente do Sarre e do Rur, como o general pretendia).

 

Não sei se convosco acontece o mesmo: eu começo muitas vezes a leitura de biografias pelo fim. Sucedeu-me novamente com esta, em que me apressei a ler as cem páginas finais antes de ir às primeiras 170 (este volume tem 605 páginas).

Esta opção deveu-se, no caso concreto, à minha curiosidade em saber como respondeu o então presidente francês à rebelião de Maio de 1968, que apanhou de surpresa todas as estruturas políticas. Incluindo, à esquerda, o influente Partido Comunista, incapaz de compreender como aqueles “filhos da burguesia”, sem “consciência revolucionária”, abalaram os alicerces da nação francesa, prenunciando o advento de uma nova era – consumista, hedonista, individualista. Sans Dieu ni maître.

 

De Gaulle era um “príncipe da ambiguidade”, como lhe chama o biógrafo, sem esconder o fascínio pela personagem, certamente um dos melhores políticos do século XX e um dos maiores franceses de todos os tempos. “Superior a Napoleão”, como reconheceu em 1990 o insuspeito François Mitterrand, seu inimigo de estimação.

Mas não há políticos imunes ao erro. E, quanto maior a dimensão da luz, mais vastas são as sombras que projecta.

De Gaulle cultivava um aura de mistério mesmo para os colaboradores mais próximos e ostentava uma aura majestática que ia muito para além da pose, integrando-se na sua verdadeira personalidade. Era um homem que exigia dos outros um grau de lealdade que se confundia com devoção e não tolerava o mais leve indício de dissidência.

Os seus anos crepusculares no Palácio do Eliseu foram marcados por uma surda hostilidade entre o general e o primeiro-ministro Georges Pompidou, o mais destacado e brilhante elemento da corte gaullista. 

Maio de 68 foi o ponto de ruptura entre ambos.

Pompidou percebeu, muito mais cedo do que o idoso presidente, a natureza fracturante da revolta estudantil – condição indispensável para conseguir neutralizá-la. De Gaulle começou por desvalorizar a rebelião, considerando-a uma “rapaziada”. Depois, ultrapassado pelos acontecimentos, quis “normalizar” a situação com mão pesada, recorrendo à repressão policial e chegando a equacionar a intervenção do exército para esvaziar as ruas de Paris. O chefe do Governo trocou-lhe as voltas com uma hábil estratégia negocial com a poderosa CGT, central sindical pró-comunista, destinada a isolar os estudantes.

O Partido Comunista, tão horrorizado como a burguesia parisiense com o “aventureirismo” da bagarre estudantil, pôde reclamar o triunfo que Pompidou sabiamente lhe concedeu nesta brilhante manobra táctica, concretizada no aumento de 33% do salário mínimo, que abrangeu dois milhões de trabalhadores, e benefícios de diversa ordem relacionados com a formação profissional, a segurança social e o reforço da presença sindical nas principais empresas.

 

 

Isolados os estudantes, sem suporte dos comunistas e dos seus parceiros sindicais, Maio de 68 chegava ao fim. E terminava também a longa carreira de Pompidou à frente do Governo: em Junho, De Gaulle substituiu-o por Maurice Couve de Murville. Como acontece tantas vezes às grandes personalidades, o presidente não tolerava que alguém pertencente ao seu reduto político brilhasse mais que ele.

Por ironia, um ano após ter cessado funções, o ex-primeiro-ministro ascenderia à Presidência da República, como sucessor do velho general, retirado da vida pública. De Gaulle e Pompidou não voltaram a encontrar-se.

O destino é tão imprevisível e caprichoso como os voláteis humores dos governantes. É disto que nos fala também a biografia escrita por Eric Roussel. E é este um dos motivos que me levam a gostar tanto deste livro.

 

(E agora pergunto à Teresa: o que tens andado a ler?) 

Foto de baixo: De Gaulle e Pompidou (ao centro) em 1964

10 comentários em “O que estou a ler (11)”

    1. Muito me sensibiliza com essas palavras, que sei bem serem sinceras e amigas. Um forte abraço para si, na expectativa de que possamos conversar novamente, um dia destes, num dos nossos restaurantes de eleição.

  1. Pedro Correia, já me desinquietou para ir ver dos 2 volumes sobre le Grand Charles…

    que, contava a historieta, teria vindo a Portugal e, depois de muito instado a visitar Fátima, teria acedido, pondo apenas uma condição: faria apenas uma aparição…

    1. Ao que parece, essa anedota prestava justa homenagem à noção que o general teria de si próprio, caro Fernando. Estes dois volumes – em ‘édition de poche’ – encontram-se na Fnac, a um preço muito acessível: 11 euros cada.

  2. Os crimes de guerra franceses, as perseguições ao independentistas, corpos de crimes políticos a boiar no Sena… enfim, tudo isto ocorreu sob o longo mandato do general promovido a locutor de propaganda da BBC, e que foi um peão preferido a Leclerc (pelo menos comandava tropas).

    A visão crítica de de Gaulle não é politicamente correcta, porque houve potências que não julgaram os seus heróis e persistem em querer manter o pedestal e as fantasias da 2ª Guerra.

    Comparando a lista de crimes associados ao regime pseudo-democrático de Gaulle, que se seguiu ao pós-guerra, e a lista atribuída à ditadura de Salazar… creio que Salazar pode ainda arriscar ser colocado ao lado de Gandhi.

    Por isso, caro Pedro, se é interessante a manipulação dos comunistas em 1969, não deveria faltar de nenhuma biografia de de Gaulle, o que se passou antes em Paris em 1961:
    http://en.wikipedia.org/wiki/Paris_massacre_of_1961
    … isto já para não falar nos múltiplos outros crimes ocorridos nos territórios ultramarinos, antes e depois de franceses subirem ao pedestal de libertários, nas suas habituais manobras publicitárias de paladinos “sabe-se lá de quê”… onde contam aqui, na terrinha, com muito boa gente vendida a medalhas da loja de pret-a-porter.

    1. A chamada “razão de estado” dá pano para muitas mangas, caro da Maia. E tem muitas vezes as origens mais insuspeitas. Basta lembrar o que sucedeu com os intitulados Grupos Antiterroristas de Libertação, que fizeram “guerra suja” à ETA entre 1983 e 1987 – na cosmopolita Espanha da ‘movida’, durante o mandato do democratíssimo Felipe González – com pelo menos 27 vítimas mortais.

  3. Meu caro Pedro Correia

    Excelente artigo , como estudioso que sou da História da França do século passado felicito-o pela concisão e independência com que tratou o assunto em tão poucas linhas .

    Eu próprio tenho muitos livros sobre os anos que antecederam 1968 (e alguns sobre os que lhe sucederam) e acho que , para quem não estava mínímamente informado como será o caso de muitos leitores , a sua síntese é utilíssima .

    1. Obrigado, caro RMG. O propósito principal desta série que já vai no 11º capítulo, iniciada aqui pelo João Campos, a 6 de Junho, é precisamente esse: fornecer boas pistas de leitura a quem aqui passa, neste permanente intercâmbio de experiências, conhecimentos e sensações que vamos fazendo com os leitores, que tanto apreço nos merecem.
      De Gaulle é uma das mais fascinantes personagens do século XX. Para o conhecermos melhor recomendo, entre outras obras, um livro de que gostei muito: ‘De Gaulle, mon père’, em que o almirante Philippe de Gaulle (actualmente com 91 anos) lembra com minúcia a vida e a obra do pai em entrevista com o escritor Michel Tauriac.

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