O Presidente de Sócrates (4)


Adolfo Mesquita Nunes,

Nos anteriores posts tenho tentado demonstrar por que razões José Sócrates receia a eleição de Manuel Alegre como Presidente da República, assim procurando demonstrar que as reticências que tem nesta candidatura são bem mais do que um capricho ou uma incompatibilidade pessoal. As recentes notícias confirmam aquilo que venho expondo. Gostava agora de evidenciar a pouca margem de manobra de que dispõe José Sócrates neste momento para a escolha de um outro candidato presidencial.

 

Em primeiro lugar, a imagem de Manuel Alegre como o candidato mais bem colocado. Nem José Sócrates nem a direcção do PS têm conseguido apresentar dados ou argumentos tendentes a demonstrar que o resultado de Alegre nas anteriores eleições foi meramente circunstancial e que o mesmo pode bem não repetir-se nestas eleições. Ou seja, José Sócrates está condicionado pela convicção generalizada de que não só Manuel Alegre é o candidato mais bem colocado, como também, em alguns círculos, da ideia de que Alegre podia mesmo ter ganho as eleições se, com o apoio do PS, tivesse passado à segunda volta.

 

Em segundo lugar, o despique entre Sócrates e Cavaco. Ao ter entrado num conflito com o Presidente da República, para o qual mobilizou todo o PS, José Sócrates não pode agora, sem criar desconforto nos socialistas, desvalorizar as eleições presidenciais ou relativizar a força do seu candidato, deixando de lado o candidato aparentemente melhor colocado.

 

Em terceiro lugar, o calendário de Alegre. Ciente de que não é o candidato preferido de Sócrates, Manuel Alegre tem o seu calendário próprio, destinado, em primeiro lugar, não a fazer de si o melhor candidato mas, e de momento, a fazer de si o candidato que Sócrates não pode senão apoiar. Ou seja, José Sócrates não controla o tabuleiro em que joga e tem à sua frente um adversário imprevisível e demasiado cheio de si.

 

Perante este quadro, José Sócrates está de facto amarrado a Manuel Alegre. Mas aceitar isto será não conhecer o nosso Primeiro-Ministro. Há ainda algo a fazer para impedir, com naturalidade, o apoio a Alegre ou, caso isso não resulte, para o apoiar com um beijo de morte suficientemente discreto.

 

(continua)

4 comentários em “O Presidente de Sócrates (4)”

  1. Portugal é hoje um país cujo eleitorado se situa maioritariamente à esquerda (guardemos a convenção, se bem que a dicotomia cada vez faz menos sentido). Sectores importantes do PS (quadros) apoiam Alegre e parte esmagadora do seu eleitorado apoia-lo-à, Sócrates não dispõe de alternativa a não ser que queira candidatar um ‘Jerónimo de Sousa do PS’. O BE apoia-o também e o PCP ou irá apoiar oficialmente na 2ª volta ou a maioria dos seus votantes encarregar-se-ão de escolher ente Alegre e Cavaco. Quanto aos independentes e aos flutuantes, os que tradicionalmente se situam à direita votarão Cavaco, os outros terão em Alegre a outra cara da 2ª volta.

    Cavaco arrisca-se efectivamente a ser o 1º Presidente da 2ª Republica a não ser reeleito.

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