O popular Piñera, um anti-Chávez


Pedro Correia,

 

As crises revelam os homens: nada melhor do que um drama inesperado para conhecer a face autêntica de um político. A inédita epopeia dos mineiros soterrados a 700 metros de profundidade, acompanhada com emoção em todo o mundo, constituiu uma oportunidade ímpar para testar a capacidade de liderança de Sebastián Piñera, um homem assumidamente de direita que teve o pesado encargo de substituir a social-democrata Michelle Bachelet, dirigente muito querida dos chilenos, no Palácio de La Moneda.

Acusado por sectores da esquerda radical de nostalgia pela ditadura de Pinochet, Piñera triunfou nas urnas – à segunda volta – em Janeiro de 2010. Mas só agora se impôs verdadeiramente como dirigente popular e quase incontestado graças ao modo firme, convicto e determinado como conduziu o resgate dos 33 mineiros, dando ordem para que não fossem poupados esforços nem cifrões na concretização desse objectivo, cortando drasticamente o programa oficial das celebrações do bicentenário da independência do Chile e fazendo ver aos proprietários da mina que terão de respeitar integralmente os direitos dos trabalhadores.

Piñera é uma espécie de Hugo Chávez às avessas: defende a iniciativa privada e o pluralismo politico, sem transformar os adversários em “inimigos” ou “traidores”, como faz a toda a hora o Presidente venezuelano. Com menos retórica e muito menos bravatas, já consegue ser mais popular que ele.

 

Publicado no DN

 

ADENDA: Muitos mineiros enfrentam um destino trágico. Uma derrocada numa mina de carvão chinesa provocou 20 mortos, havendo 17 trabalhadores soterrados. Também na Colômbia há hoje dois mineiros encurralados, igualmente numa mina de carvão. E no Equador registaram-se quatro mortes numa mina de ouro. Piñera, e bem, ofereceu ajuda.

8 comentários em “O popular Piñera, um anti-Chávez”

  1. Todavia é preciso não esquecer que o sucesso deste resgate resulta de um acidente que se fossem cumpridas as condições de segurança nas minas não teria acontecido. Prefiro a segurança no trabalho, de que ninguém fala agora, ao sucesso das reparações dos acidentes.

    1. Não tenho qualquer dúvida quanto a isso. De resto, Piñera já anunciou a revisão das leis de segurança laboral para impedir a repetição de um caso destes. Isto num dia em que conhecemos novos acidentes em minas noutros países: na Colômbia, no Equador e na China. Neste último país, morreram 20 mineiros numa mina de carvão e 17 outros estão soterrados. Oxalá estes possam ter um destino tão feliz como os 33 do Chile.

  2. Caríssimo Pedro, nós precisámos em Portugal de um tipo de HUMANISMO e autenticidade que flagrámos em Piñera.

    Mas isso é coisa que nem o ressequido Cavaco interpreta e muitíssimo menos existe em leve vestígio na carcaça político-humana de Sócrates. Pelo contrário. Só por isso é resulta absolutamente chocante ouvirmos-lhe, a propósito da devastação das últimas medidas que foi “levado a tomar”, coisas inverosímeis como: «Dor no coração» ou «Dor d’alma.»

    Eu dizia-lhe onde é lhe dói.

    1. A imagem do Presidente com o último mineiro resgatado, cantando abraçados o hino nacional chileno, é uma das mais fortes que tenho visto de há muitos anos para cá. Tocante, comovente, invulgar.
      (e gostei da letra do hino chileno)

      1. Precisamos do efeito Paulo Bento para extensões políticas: empatia, proximidade, fiabilidade, compaixão, identificação.

        Não. Só nos aparecem Almeida Santos e outros extraterrestres.

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