O Palácio da Saudade


Maria Dulce Fernandes,

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A Tia Adelaide, que Deus tem em descanso há quase duas décadas, morava com o segundo marido numa casa antiga. O Tio Marcelino depois de praticar religiosamente o seu desporto favorito, dormir duas ou três horas diárias de modo a recuperar energias gastas a fazer laboriosamente o menos possível, acedia de bom grado aos pedidos que a esposa gentilmente lhe ordenava e bricolava pela casa de modo a que a mesma se assemelhasse cada vez mais àquele antiquário que a Tia Adelaide adorava visitar na Rua de S. Bento.

 

Um quadrozinho por outro com qualidade, pinturas do Sr. Monteiro do atelier copiando os Mestres, ladeava com molduras com recortes de revistas e pósteres tauromáquicos onde pontuava o nome da estrela da família, o trisavô Manuel dos Touros.

 

Caixinhas de música, loiça chinesa, jarras, vasos, potes, um sem número de preciosidades com que o Senhor Doutor, alto dignitário de Portugal em Macau presenteava a Tia Adelaide pelos seus dotes de passajar roupa de tal modo que os infelizes buracos de cigarro se perdiam na magia da agulha e do dedal. A Tia Adelaide não teve filhos, por isso coleccionava pequenas peças do Bordalo num aparador envidraçado que mostrava a quem a visitasse, sem nunca permitir que um “seu menino” deixasse a sua mão. Podiam muito bem ser admirados de longe.

A casa da Tia Adelaide era alta e castiça, e não fora a falta dos fados e guitarradas bem poderia ter sido a inspiração de Alberto Janes para as célebres tabuinhas. Tinha uma escada estreitinha que levava a um sótão com uma banca de carpinteiro e novelos de aparas de madeira pelo chão, lugar mágico onde eu buscava e rebuscava, tentando encontrar os macaquinhos que o meu Avô afiançava que a sua irmã mais nova possuía no sótão, sem qualquer sombra de dúvida.

Escusado será dizer que os nunca encontrei.

As janelas, altas como portas, davam para o Jardim do Ultramar, separadas apenas por uma nesga de rua e um muro. Passava horas a atirar pão duro aos patos, a assistir a corridas e lutas pelos pedaços e a imaginar histórias mirabolantes, enquanto me deliciava com bolachas de agua e sal com colheradas generosas de doce de tomate.

O Tio Marcelino, dez anos mais velho, de 1900, como orgulhosamente apontava, partiu também dez anos mais cedo. A Tia Adelaide manteve-se ali, rija, enquanto as pernas lhe permitiram. Depois, com grande pesar de deixar o seu cantinho e os seus quadros de natureza viva, que se animavam mal abria as portadas, foi viver com familiares até chegar a sua hora.

 

Lembraram-me hoje de ir espreitar a casa da Tia Adelaide.

De cara lavada e com plástica bem conseguida, brilha naquele filamento antes parelepípedos escuros, agora clara e alegre calçada, como uma relíquia que finalmente viu luz.

 

Não passou sem emoção é verdade, mas acredito que, gaiteira e divertida como ela só, a Tia Adelaide iria achar a casa um palácio.

Para mim foi revisitar o palácio da saudade.

24 comentários em “O Palácio da Saudade”

  1. há palavras que não entram no meu vocabulário, tais como:
    saudade, bom senso …

    gostava muitíssimo de minha MÃE. há 50 anos fechei o álbum e nunca mais entrei na casa onde fui feliz

  2. Texto delicioso, Maria Dulce. Para além da nostálgica mas bem humorada evocação, adorei achados os estilísticos como “fazer laboriosamente o menos possível”, “pedidos que a esposa gentilmente lhe ordenava”, e ainda a procura dos macaquinhos que se falava que a tia tinha no sotão. Muito bom!

      1. OK. Era, portanto, uma casa arrendada.
        Temos portanto que esses seus tios – tal como muitas outras pessoas – eram pessoas razoavelmente bem na vida que habitavam uma casa arrendada por uma renda congelada e muito baixa, dessa forma implicitamente explorando o senhorio.
        É importante que se saiba que o sistema das rendas congeladas e muito baixas beneficiou muita gente de classe social alta ou média-alta. Houve, aliás, muita gente que enriqueceu precisamente graças a esse sistema.

          1. Por acaso é verdade, o balio tem razão, e o seu tio de certeza que era sócio da Associação dos Inquilinos Lisbonenses.

          2. E o senhorio?
            Coitadinho, o que ele sofreu. O balio que o diga, que ele nestas coisas de gente de classe social alta ou média alta sabe-a toda.

        1. Caro balio,
          “habitavam uma casa arrendada por uma renda congelada e muito baixa (…) explorando o senhorio”
          O senhorio, pelos vistos, era o Estado, o mesmo Estado que congelou as rendas, onde estava a exploração?
          Por outro lado as pessoas em causa, segundo o que percebi, viviam numas antigas cavalariças, não seria, propriamente, um luxo.

          1. A mim não me interessa focar em quem era o explorado, se um particular, uma instituição, ou o Estado. Aquilo que me interessa realçar é que, entre os beneficiários do congelamento das rendas, se encontrava (e ocasionalmente ainda se encontra) muita gente muito bem na vida, de classe alta e de tendência política nada esquerdista.

            É que algumas pessoas podem pensar que os senhorios explorados eram pessoas ricas e de direita, enquanto que os inquilinos exploradores eram pessoas pobres e de esquerda. Mas isso é falso. E não é por acaso que Assunção Cristas deixou tantos buracos na lei que fez, que continua a haver muitas pessoas a usufruir de rendas baixas

  3. Saudade à parte, foi bom encontrá-la de face lavada e toda tirada das poeiras. Não murchou nem se fechou em abulia mortal. Decerto guarda vidas e risos e lágrimas, e isso a vai remoçando.

    1. Que seria de mim sem as minhas experiências de vida, Bea? É importante transmiti-las à posteridade. Daqui a 20 anos os meus netos podem gostar de ler as coisas que a avó escrevia, aventuras e desventuras.

      1. Nenhum homem seria o que é, se lhe retirarmos as experiências de vida, não é mesmo, Dulce? Basta reparar nos sem memória; não são quem foram e nem se sabem ou conhecem minimamente; e são incapazes de viver por eles, serem autónomos. A vida forma-nos e deforma-nos, mas não há outro caminho e talvez seja o que nos faz únicos, ainda que uns mais únicos que outros, já que as experiências de vida não têm pinga de democracia.
        Bom Dia

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