O país que fica no país que passa


Pedro Correia,

 

O país visto da janela de um comboio é feito de contrastes chocantes. A natureza, com frequência belíssima. E a paisagem com marca humana, tantas vezes desfigurada. Com os seus quintais esventrados, as suas marquises, os seus detritos. Continuamos a conviver sem peias com a sujidade. Continuamos a mandar abater árvores porque as raízes crescem, as folhas incomodam, as flores causam alergias.

Continua a faltar-nos o sentido estético da existência: basta-nos um muro sem cal, uma arrecadação decrépita, um vidro fosco, o capim por cortar. Acatamos de bom grado toda a poluição visual.

O curto trajecto ferroviário entre Santa Apolónia e a Gare do Oriente é um pesadelo. Marvila, Xabregas, Braço de Prata. Parece um cenário do terceiro mundo. Parece o Líbano mergulhado em guerra civil na década de 80. Como se o “progresso” nunca tivesse chegado a esta via de entrada em Lisboa. Algo que deveria envergonhar todos os lisboetas.

Felizmente há mais país. A súbita aparição do castelo de Almourol plantado no Tejo é de cortar a respiração. Mais adiante, Constância: puro deslumbramento. E todo o trajecto entre Abrantes e as Portas do Ródão, na Linha da Beira Baixa, nos convida à comunhão com a natureza. Largos quilómetros sem vestígio humano, apenas as fragas emoldurando o grande rio, espantosamente seco no final de um Inverno em que mal choveu.

Todos devíamos ao menos uma vez na vida fazer este trajecto de comboio à beira-Tejo, abandonando o circuito do alcatrão. Para nos lembrarmos que existe um país dentro do país. Um país sem lixo nem poluição visual.

Um país que nos serve de memória e de raiz. Um país que é nossa referência íntima, imutável. O país que permanece. O país que fica no país que passa.

24 comentários em “O país que fica no país que passa”

  1. Todos os anos, invariavelmente, umas duas vezes, pelo menos, desfruto desse deslumbramento: como eu sinto a alma afagada assim que o ‘meu’ comboio da Beira Baixa deixa para trás a esterqueira de que acima fala Pedro Correia e rompe por entre essas paradisíacas paisagens beirãs. Um verdadeiro encantamento para a alma.

  2. Bela crónica, Pedro – e tão verdadeira. O percurso de comboio à beira Tejo é de facto lindíssimo. Conto (re)fazê-lo em breve, com destino à Barquinha ou a Tancos. Ando há demasiado tempo a adiar um regresso para me deliciar com a bela açorda de sável. A ver se conto a experiência!

    1. Açorda de sável? Rico petisco. Comi há uns anos, na Pensão Flora, em Vila Franca. E fiquei fã para sempre.
      (Obrigado pelas tuas palavras, João. Tal como tu, gosto muito de viajar de comboio)

  3. Um texto delicioso caro Pedro, a avivar as monstruosas saudades que em dias quase me matam…
    Fez-me recordar uma viagem de comboio que realizei há uns bons anos entre Elvas e Vila Nova de Cerveira; jamais esquecerei o Portugal que vi e que o Pedro aqui magistralmente descreve.

    1. De Elvas a Cerveira? Isso é que foi passear, caro André. Percebo que essa excursão do Alentejo ao Alto Minho lhe tenha deixado saudades.
      Agradeço as suas palavras, tão simpáticas.

  4. O país que se vê da janela dos comboios não é, de facto, o mesmo que se vê das auto-estradas. E no entanto são cada vez mais as linhas que acabam.
    Apeteceu-me ir já apanhar esse comboio.

    1. Se ainda não fez a viagem, não deixe de o fazer.
      No Fundão, temos hoteis acessiveis.
      De aproveitar:
      a) Cerejeiras em flor, em breve;
      b) Festival da Cereja, FimDeSemana 10Junho.
      BoaV

      1. Fiz a viagem, sim. Aliás a foto do Tejo no concelho do Gavião que ilustra o meu texto foi tirada por mim, no comboio. Conheço muito bem o Fundão e o magnífico panorama das cerejeiras em flor. Dentro de três semanas terei oportunidade de observar novamente esse cenário incomparável, encosta acima da Gardunha – de Vale Prazeres a Alcongosta. Foi assim no ano passado, voltará a ser assim este ano.

    2. Lamento que a linha férrea vá desaparecendo e que os portugueses incentivem esse desaparecimento preferindo sempre a alternativa do alcatrão, Teresa.
      Eu sou utente regular dos comboios, em Portugal e não só, e já cheguei à conclusão de que é mesmo o meu meio de transporte preferido.

  5. Bravo. E lamentável.
    Fiz circular há dias, lista Net, o regresso do comboio a Malange, Luanda-Malange, modernizado.
    Semelhante ao InterCidades, para melhor.
    InterCidades que a CP retirou recentemente da linha da Beira Baixa, substituído por carruagens a condizer com a nova forma de encarar a plebe: que se amanhem.

  6. Pedro,

    também já fiz essa viagem. E que saudades tenho! Todavia quando saiu de Lisboa para me deslocar para a beira estou tão deserto de lá chegar que o carro quase que voa (um destes dias sou multado!!!). É que de Lisboa ao Louriçal do Campo demoro pouco mais de duas horas. E como me sinto lá bem…
    Já agora: que tal a lampreia em Belver?

    1. Sentes-te lá bem precisamente pelo mesmo motivo que me leva a sentir revigorado em cada visita que faço à Beira Baixa: este é o país que fica no país que passa.
      A lampreia em Belver é que não provei ainda. Talvez um dia destes, contigo. Um abraço.

  7. Que bela viagem fiz agora contigo, Pedro 😉 E vires-me logo falar das cerejas, aquelas suculentas cerejas, o espectáculo da Cova da Beira em flor… que saudades 🙂 Alcaria, Alpedrinha, Sortelha, Gonçalo, Tortosendo… Lembro-me de um restaurante chamado Alambique e de uma discoteca improvável que comandava a movida nocturna, o Number One! Há anos e anos que não vou a esses baixios.

    1. Pois o Alambique mantém-se em boa forma e continua a servir divinalmente, Laura. As cerejeiras começam a florir. Daqui a duas semanas, três no máximo, a serra volta a pintar-se de branco – deslumbrante panorama que não tenciono perder.

  8. “um país que nos serve de memória e de raiz. Um país que é nossa referência íntima, imutável. O país que permanece. O país que fica no país que passa”.
    A recordação que tenho do comboio da Beira Baixa é das viagens ao domingo à tarde, há cerca de trinta anos e da dificuldade que era entrar no comboio em Alferrarede ou Abrantes no sentido descendente, tal a quantidade de bagagem nos corredores, cabazes de fruta e hortaliças,sacos de batata, “palhetes” de vinho e água-pé, e até gaiolas com galinhas ou coelhos.
    Com a abertura da A23 tudo mudou e aos poucos (civilização?) tomou conta do comboio e agora os filhos daqueles que iam à “terrinha” abastecer-se para a semana e ajudar os velhotes fazem (faziam, com a cobrança de portagens a coisa está a mudar) desvios em Torres Novas ou Abrantes para se abastecerem para o fim de semana nos Continentes e Pingos da beira da estrada e ficam com todo o tempo livre para fazer para-pente em Linhares, sky na Torre, BTT em Monsanto ou maravilharem com a paisagem das cerejeiras em flor.
    A desertificação, o abandono de idosos e fogos de verão são contas para sociólogos e economistas que quando forem feitas concluirão que ambos, cidade e campo, ficaram a perder.

  9. dps d santa apolonia é: braço de prata/ oriente! n há ligaçao entre santa apolonia chelas marvila era gir k andasse k comboio antes d escrever estas coisas!

  10. e vai desculpar-me mas onde posso apanhar o trem nessa invisível estação de Xabregas? tem um lindo parlar mas parece um post de blablabla, o amigo parece não pôr os pés há mts anos num suburbano de lisboa..

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *