Fazendo uma análise política de presente e futuro creio que Francisco Louçã e o Bloco de Esquerda foram os vencedores da noite de ontem recebendo do povo um resultado de sonho.
A implementação do Bloco de Esquerda no eleitorado acontece sustentada num discurso irresponsável e utópico que só pode sair da boca de quem recusa assumir resposabilidades governativas e sabe que sobre si não podem recair tais expectativas. Assim acontecia na anterior maioria absoluta do PS, assim continua a acontecer uma vez que o Bloco, mesmo duplicando o número de deputados, não tem número bastante para viabilizar governo ou opções de fundo para o País.
É assim fácil constatar que Francisco Louçã vai continuar a sua entifada contra o PS, captando os votos de tantos quantos, revoltados, se revêm naquele discurso, carentes de percepção do alcance das suas ideias e bandeiras.
Enquanto o Bloco mantém a sua postura o PS, para aprovar o que quer que seja, vai ter de se segurar nos votos do CDS ou do PSD, uma vez que juntar BE, PCP e Verdes será pouco menos que fazer como Macgyver a fabricar uma bomba de uma pastilha elástica e uma casca de banana.
Com isto o PS será levado a perder cada vez mais o apoio de votantes da esquerda, aos quais o Bloco piscará constantemente o olho com um discurso demagógico e populista.
Depois do resultado de ontem, evitar isto será um dos grandes desafios de futuro para o PS. Espero para ver.
(Também no Câmara de Comuns)

Tens razão: este é o melhor resultado possível para o Bloco. Cresceu em votos, duplicou o número de deputados, ultrapassou claramente o PCP e não fica sujeito à chantagem socialista da ‘viabilização’ de leis por não dispor sequer, embora à tangente, de um grupo parlamentar para o efeito. No actual contexto Louçã não poderia desejar melhor.
Sim, claro, André. Porém, o futuro poderá ser bem diferente. A saber:
1. O BE não tem um eleitorado fidelizado e a imagem (porventura falseada ou, pelo menos, duvidosa) de “esquerda moderna” poderá esfumar-se com o tempo;
2. O BE de uma incerta “esquerda moderna” não poderá crescer eternamente à custa do PS, que hoje é claramente social-democrata e cuja ala esquerda histórica e talvez tentada pelo BE é cada vez mais escassa e acabará por secar;
3. Os eleitores jovens que forem aderindo ao BE são tentados pela actual falta de expectativa de vida, que poderá inverter-se se e quando Portugal encontrar a via do desenvolvimento tão desejada.
Se for assim, esta euforia do BE não será mais do que uma nova versão em novos tempos do velho e efémero PRD. Por outras palavras: o PS tenderá a secar a esquerda do PSD e o BE terá os dias contados com o fim da esquerda do PS. E eu não ficarei admirado se isso acontecer assim mesmo.
O BE também pode agradecer à comunicação social, que o tem trazido ao colo, suportando assim as suas demagogias.
Jornalismo é igual a debitar notícias?
Quem viveu o PREC de forma atenta e crítica, não se deixa embalar por amanhãs que cantam e sabe explicar aos mais novos muitas causas e consequências. O pior é que muitos não estiveram atentos e muito menos sabem explicar.
É a vida…
A análise é lúcida e correctíssima. O grande problema de Louçã seria ficar numa situação de poder viabilizar um governo PS. Assim, o ónus da não-governação não lhe fica nas mãos. Quando saíram as primeiras previsões que apontavam para aquela possibilidade, escrevi «maioridade chegou» para o BE. Na verdade talvez tenha chegado, mas ainda naquela fase que eu chamo de “adultoscência”, quando já se é, tecicamente, adulto, mas ainda há comportamentos irresponsáveis de adolescente.
Só uma nota: com este crescimento do grupo parlamentar, Louçã terá um problema novo – manter a unidade quando passa a ter tanta gente da “ala social-democrata”. As lutas internas poderão aumentar substancialmente.