O nefelibata.


Luís Menezes Leitão,

 

Cavaco Silva quer demonstrar ao país que anda completamente nas nuvens. Sabe-se que, apesar da rendição de Portas, a coligação se encontra presa por arames, podendo romper-se a qualquer momento. Vítor Gaspar pode ser muito apreciado pelo Ministro das Finanças alemão, mas não tem qualquer credibilidade a nível interno. A economia via de mal a pior, multiplicando-se as falências e o desemprego. Perante isto o que decide fazer Cavaco Silva? Convoca o Conselho de Estado ao abrigo do art. 146º, nº1, e) da Constituição, pressupõe-se, portanto, que para “aconselhar o Presidente da República no exercício das suas funções, quando este lho solicitar“. O Presidente dá-se ao trabalho de explicar qual a questão em que precisa de ser aconselhado. Essa questão é, imagine-se, “Perspetivas da Economia Portuguesa no Pós-Troika, no Quadro de uma União Económica e Monetária Efetiva e Aprofundada”. Descontando o acordês horrível em que os órgãos de soberania decidiram passar a viver, parece, portanto, que o Presidente da República não está nada preocupado com o que se vai passar no país até Junho de 2014, preparando-se assim para entrar em estado de hibernação política até esse momento. Quanto ao Conselho de Estado é convocado com mais de um ano de antecedência para informar as “perspetivas” do país na tal “União Económica e Monetária  efetiva e aprofundada“. Mas pode ser que alguém no Conselho de Estado consiga explicar ao Senhor Presidente que, pelo caminho que as coisas tomam, as “perspetivas” são de que a curto prazo nem sequer exista “União Económica e Monetária” quanto mais “efetiva e aprofundada“.


Vai ser interessante ver o Conselho de Estado a discutir este tema na actual situação do país. Lembrará os governantes bizantinos que discutiam o sexo dos anjos enquanto os turcos atacavam Constantinopla.

7 comentários em “O nefelibata.”

  1. O que se diria se fosse anunciado que a agenda do CdE era a crise governativa e as suas consequências, designadamente a convocação de eleições antecipadas?

  2. No livro “The Fall of Constantinople” o Steven Runciman ataca esse mito dos bizantinos a discutir o sexo dos anjos quando a cidade estava prestes a cair na mãos dos turcos. Diz que lutaram com energia até ao fim e que quando a derrota apareceu como inevitável alguns foram rezar para as igrejas, assim como assim, como o fim estava para breve, sempre encomendavam as almas ao Criador.

  3. Já que se fala em nuvens, aquilo que me vem à mente é um lançamento em queda livre. Só que desta vez o pára-quedas (paraquedas) não abre.
    Agora uma visão mais prática: creio que o PR convocou o CdE para mostrar que anda a fazer muito pelo país. Para quem se cala durante tanto tempo, nada melhor que a convocação do CdE para parecer que ainda ouve.
    Entretanto o governo, e em particular Vítor Gaspar e Passos, continuam a cantar: indo eu eu eu a caminho do abismo…

  4. Também acho que o Presidente da Républica se precipitou: devia ter como agenda para o CE a apreciação do recente relatório da OCDE. A chatice é que este relatório desmente por completo o que a grande maioria dos srs conselheiros andam por aí nos media a propalar. Para discutirem o relatório tinham de engolir o que andam há meses a dizer, o que acredito, deve ser bestialmente indigesto.

  5. No seu bunker de Belém o PR movimenta forças imaginárias , anuncia ofensivas de Verão suportadas por falsos relatórios da inteligentia e no meio da derrocada final alguns já abandonam o barco , outros dizem que abandonam mas não abandonam porque ainda dá jeito estar dentro !
    No meio desta comédia de Dante o POVO que com o seu suor já pagou 2 bancas rotas e está a pagar a 3ª continua sereno resta saber até quando e a que preço.
    Será que ainda iremos a tempo de nos salvar ou quando a hora chegar (ela está eminente) só os auto-escolhidos se salvam?
    Não haja duvida , os turcos já tomaram o Castelo há muito , só não vê quem não quer.

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