O ministro apareceu quatro vezes


Pedro Correia,

    ASS 1.jpg  ASS 2.jpg

        ASS 3.jpg ASS 4.jpg

 

Com o fim dos sucessivos estados de emergência e o adeus ao desconfinamento em quase todo o território nacional, temos assistido ao regresso dos engarrafamentos nos acessos às cidades e nas ruas dos grandes centros urbanos.

Já se esperava isto. Menos previsível é que alguns membros do Governo também provocassem engarrafamentos nos telejornais. Ora isso tem acontecido, a um ritmo que acompanha o do novo fluxo rodoviário.

Neste capítulo, o primeiro lugar do pódio cabe sem margem para dúvida ao titular da pasta dos Negócios Estrangeiros. O portuense Augusto Santos Silva, talvez por jogar em casa, foi o astro de serviço no último Jornal da Tarde de sábado [8 de Maio] da RTP. A pretexto da cimeira social que no passado fim de semana congregou na Cidade Invicta os principais líderes da União Europeia.

 

Mal abrira o serviço noticioso, eram 13.01, quando o chefe da nossa diplomacia surgiu pela primeira vez no ecrã. Em pose institucional, como convém ao exercício do cargo. «O processo de decisão institucional na UE implica concertação entre os 27 Estados. (…) Nós devemos ter sempre em conta que os direitos de propriedade intelectual existem para proteger a inovação. É uma discussão que se faz há muito tempo», declarou, a propósito da mais recente controvérsia em torno das vacinas.

Não tardou a voltar ao ecrã. Eram 13.03 quando o vimos num cenário diferente, desta vez para emitir opinião sobre a importância dos consensos em Bruxelas. Excerto do que disse nos três minutos em que ocupou a antena: «As políticas sociais são típicas dos Estados nacionais, mas esta convergência para metas comuns, cada uma pelo seu caminho, é muito importante para reforçarmos o modelo social europeu.»

Não havia decorrido uma hora e lá irrompia de novo na pantalha, eram duas da tarde em ponto. Congratulando-se pelo anunciado regresso dos visitantes britânicos às praias lusitanas: «É muito bom chegar a esta altura e saber que o Reino Unido, que é o primeiro mercado de origem dos turistas em Portugal, reconheceu que a situação pandémica em Portugal é muito razoável.»

 

Três vezes no mesmo telediário: nem o próprio Marcelo Rebelo de Sousa consegue tamanha proeza com tanta facilidade. Mas ainda teríamos direito a outra intervenção do mesmo ministro, noutro enquadramento, um pouco mais descontraído. Eram 14.15: o inquilino do Palácio das Necessidades visitava as instalações onde trabalhavam os jornalistas que cobriam a cimeira e lá voltou o microfone da RTP a ser apontado na sua direcção. Para registar estas palavras: «Eu vim aqui ver se o espaço era suficiente, se havia boas condições de trabalho, se estava bom ambiente, e verifico que sim. E sei que esta galeria tem todas as condições para o vosso trabalho.»

O Jornal da Tarde é produzido no Porto: haverá compreensíveis afinidades bairristas com o ministro natural da cidade. Mas talvez isto não baste para explicar tanta insistência. Será que Augusto Santos Silva começa a ser lançado como eventual sucessor de António Costa num futuro próximo? As grandes caminhadas começam com pequenos passos.

 

Texto publicado no semanário Novo

16 comentários em “O ministro apareceu quatro vezes”

  1. Agora imagine o que vai ser quando a TVI24 se transformar na Costa News Network.
    Vai ter mais directos que a casa do Big Brother. (o outro)

  2. É mais preocupante uma aparição do Ventura ao lado do Rui Rio do que estas quatro do Silva nas televisões.

  3. Eu quero lá saber.
    Então, esta Conferência não se fazia com outro governo por cá? Provavelmente, e também seria o ministro dos negócios estrangeiros a botar discurso.
    Este ainda teve tempo de mudar de camisa e gravata.
    Repararam no esforço que ele faz para não ter tiques de betacismo?

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *