O meu imposto


Rui Rocha,

 

Junto-me à onda. Também eu senti ser meu dever patriótico sugerir a criação de um novo imposto. É uma tarefa difícil, confesso. Portugal não é só o país onde foram registadas mais de cem maneiras de cozinhar bacalhau. É também o local onde existe, nos tempos que correm, um número perfeitamente anormal de entusiasmadinhos tributários por metro quadrado. Temos por cá de tudo. Desde o kamikaze fiscal (ambiciona imolar-se pelos impostos em nome da pátria), ao masoquista (tributa-me que eu gosto, sim, agora aperta no IVA), ao sádico (caso típico dos defensores empedernidos da tributação preventiva) ou ao publicano de nicho (para quando um imposto sobre os estetoscópios…). Neste contexto, não é fácil ser original. Depois de muito pensar, parece-me todavia que estou em condições de propor algo com interesse. Baseio-me, confesso humildemente, na mesma lógica do imposto sobre o tabaco ou sobre o fast-food. O Estado demonstra uma infinita compreensão pelos nossos vícios e fraquezas desde que estejamos dispostos a pagar por isso. Pois muito bem. Tribute-se então, na mesma lógica, o nepotismo, a corrupção e o compadrio. E todas as formas conexas de videirismo que sejam moralmente condenáveis, mas cuja prática se revele socialmente enraizada. Estabeleça-se uma taxa liberatória (paga-se o imposto e não se investiga mais isso). Retenha-se na fonte para antecipar receita e devolva-se o imposto cativado apenas após o preenchimento de declaração anual em que o suspeito, digo o contribuinte, demonstre sem margem para dúvidas reunir as condições de isenção (hão-de ser poucos, como adiante se vai ver). Crie-se um grupo de  grandes contribuintes (sim, vocês fazem uma ideia de quem são, mas podemos começar pela parte privada das parcerias impúdicas que por aí andam) e imponha-se a estes um pagamento especial por conta de âmbito quinquenal (se não compadriarem num ano, é certinho que se desforram no seguinte). Para a coisa ser perfeita, estabeleçam-se regimes sancionatórios pesadíssimos para a evasão fiscal. Assim, os que pagarem voluntariamente, contribuirão para o país e ficarão automaticamente identificados e perdoados. Terão um estatuto especial de corruptos comprometidos com o bem comum (os videirinhos com rating triplo A). Os que solicitarem isenção devem ser imediatamente investigados. Provando-se a evasão, não há que ter contemplações. Serão classificados como junk videirinhos e todos os bens serão confiscados. Com um regime destes, estou certo de que poucos irão arriscar.

37 comentários em “O meu imposto”

  1. Mil por cento de acordo….pelo que tenho lido ultimamente, tenho a certeza de que se Sócratres estivesse no governo… aplicaria esses magninimos impostos! Ninguem se atreveria pôr a “guita” nos offshoers ( ou lá como se chama essa m…)
    Parabens.

    1. Pelo contrário, Bruxo. Admito que, com este regime, teríamos um fluxo anormal de divisas a entrar no país com origem nos off shoes, ou lá o que é isso.

    1. Licas, deixemo-nos de rodeios. O que se pretende aqui não é assegurar justiça fiscal. Queremos é sacar dinheiro. Assim sendo, um imposto sobre a corrupção com taxa liberatória parece-me adequado.

  2. Eu tenho também uma nova proposta de imposto:

    Todos aqueles que proponham impostos serão impostados(isto existe?) no valor máximo do contribuinte do imposto que propuseram.

  3. – IMPOSTOS, é uma boa ferramenta! É um bom atributo, daqueles do caraças, eficazes. É bestial de besta quando paga..!
    – Mas, os Portuguesitos , que só têm paleio, inveja e complexos, são cobardinhos e cordeirinhos, mansinhos, habituaram-se a pagar e não bufar … embora sempre que possam … tentam imitar alguem dos que fogem e não pagam…! (Às vezes mal copiado!)
    – E se houvesse mais coragem, para pedir e exigir contar, recibos, fazer denuncias, mais fiscalização, mais colaboração e igualdade… não seríamos menos troxas ” ???
    – Efeitos dos esquerdismo, do denunciosismo , do pidismo , do bufismo , não teriam … amaricado … os tansos portuguesitos , que às vezes tentam fazer-se heróis, só porque fazem umas candongas e fogem a um imposto … para engordar outros vigaros … e ainda lhes batem palmas e elogiam, porque roubam ou fogem mais sem pagar ???
    Não será o nosso FADO, a nossa parvoice e o Nosso ATRASO?
    – Só se exigem direitos ao Estado, e rouba-se sempre o maximo que se pode ??? – Culpa sempre dos outros ??? – Ou do nosso CARACTER e Espertismo ???

  4. E que tal verificar todas as transacções efectuadas nos ultimos 5 anos pelos sócios que declaram falência das empresas ?

    Dêem-me 5% e digo onde pára a massa toda.

  5. O post está de fino recorte literário e a ironia subtil que perpassa é ao meu gosto; à guisa de complemento diria que um impostosito sobre relações sexuais também não era dispiciendo mesmo que fosse calculado pelo prazer extrapulado do semblante do sujeito cativo. A brincar, a brincar, ele já existe a avaliar pelo preço a que estão os preservativos. Ao jeito de bula Papal admitir-se-ia isenção de impostos a quem trabalhasse de graça para o Estado. Poder-se-ia igualmente pagar os impostos em géneros, como o sal na Idade Média, ou mais modernamente, declarando em modelo 24 a disponibilidade de uma irmã boa ou uma prima da província que qual prédio rústico, está ainda em bom estado de conservação. São apenas ideias sobre o putativo tema.
    Saudações de besta pagante.

  6. 1) visto com apreensão; 2) mas cumpra-se; 3)embora eu nada tenha a ver com isto; 3)o senhor dg que se desenrasque desta.

  7. Criem um imposto sobre as quecas!!!!! Criem um imposto sobre as quecas!!!!
    Fácil de resolver, coloca-se um chip dermo-compatível (com venda em todas as farmácias e postos dos correios, sem isenção) e com o mesmo ph do usuário no “sim senhor” e na “por favor” e tributa-se por cm2 (tem que existir equidade) e pelo tempo. Durante a pausa a tributação seria mais lenta (tipo sistema dos taxímetros). As comunicações com o mainframe das finanças seriam feitas via satélite. Quem se encontrar impedido(a) de tal exercício paga uma taxa por espaço devoluto, mas fica obrigado ao chip. Nota: Isentos deste imposto ficam todos e todas com mais de 99,5 anos.

    Post Scriptum (ando com alergia a tudo o que começa por PS – ai, já disse o que não queria – e termine em S, por isto optei pelo extenso): Como a ideia é minha fico com isenção de tal tributação, mas a patente também é minha.

  8. Apraz-me contribuir para a sanha persecutória fiscal:e que tal um imposto intelectual para os livre-pensadores e possidónios de ideias disparatadas?O disparate é livre mas, pode ser taxado também!A começar por este meu contributo.
    Mas aqui chegado, e com pretensões de seriedade, chamo à colação um velho brocardo popular:”Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”.
    Ser escriba é tarefa fácil, eu que o diga.
    Parabéns, todavia, pelo exercício académico.
    Desçamos, contudo, das torres ociosas e prazeirosas dos comentários de marfim.Tenho dito.Bem-Hajam

      1. A “casa” a que me refiro é, ostensivamente, Portugal.
        “Neurónios precisam-se”, era o anúncio público que eu aporia se fôsse vc “anónimo”.
        Passe bem.

        1. Rendinhas, tem mesmo a certeza que é Portugal todo? Essa de neurónios precisam-se nem parece de um intelegente. Rendinhas, a mioleira (aquela que se dava às crianças) faz o mesmo efeito.

  9. Na linha do publicano de nicho, proponho um imposto especial para o meu vizinho do lado. É que me chateia todos os dias por causa do estacionamento, porque acha que tem um lugar cativo na rua, à sombra, que é só dele. Aliás, pensando bem este imposto pode ter afinal muitos contribuintes e ser um êxito para os cofres do Estado: proponho uma tributação pesada para os machos latinos que tratam melhor os carros do que as mulheres. Tenho dito.

    1. Ana, desculpe mas não concordo com a tributação sobre o macho latino. A razão é simples: os carros têm concerto e este concerto vai proporcionando mão de obra; as mulheres já não têm concerto, mas dão uma trabalheira danada (ai dão, dão). Só por isto não concordo com a tributação.

        1. Ana, talvez sim, mas insisto em que o carro é mais confortável e não reclama tanto. Mas o problema reside também na falta de cobres para a manutenção do automóvel, que ajuda também na manutenção de postos de trabalho, e não na tributação em si mesma (as mulheres dão trabalho mas não são o maior problema. Há sempre maneira de fingir que estamos concentrados nas velas dos automóveis para não vos ouvir. Note que este já é um tributo muito alto que o homem paga, ou seja, ficar com as filhas daqueles que já não as querem aturar). Vocês reclamam muito. Eu só queria dizer que é mais útil lutar por um lugar à sombra para a viatura que fazer a vontade a uma mulher para estacionar a sua. Finalmente, veja bem, quem anda a pedir para ser tributado é o Joe Berardo e não eu.

          Por favor, ria com esta provocação.

          1. Anónimo, acho que ainda não percebeu: a simples comparação, seja em que termos for, já é ofensiva. Não se canse a argumentar mais. Além disso, não sei com que filhas de outros ficou nem porque as atura, mas esse problema não é extensivo ao resto da população masculina.
            E lamento, mas para me rir da sua graçola final (fraquinha, mas enfim) seria preciso não ter lido o princípio do comentário.

  10. Sobre o post 100% de acordo.
    Agora quem me explica como é que O Sr. Sócrates e família, tirou o dinheiro do País, eu penso que é invasão fiscal, e quem o ajudou a fazer em trabalho.
    Devem haver mais “MENINOS DESTES”, que fizeram o mesmo, será que a fazenda pública anda a dormir e não faz o trabalho de casa???

    1. Não sei se a fazenda dorme, mas garanto-vos que já estamos sem fazenda e sem retalhos de fazenda. O que comenta sobre os “meninos”, penso que o que exist(e)iu não foi uma “invasão” mas uma epidemia.

  11. Com o sugerido imposto concordo eu!
    Mas, onde andará “A Geração à Rasca”?
    Por não ter o que fazer, estará a gozar umas boas e prolongadas férias?
    Nada espero.

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