O medo


fiodeprumo,

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Sei alguma coisa do que seja viver com medo. Sobretudo, com o medo que advém de se ter opinião. Durante anos, estive sob o fogo cruzado da PIDE, por causa do marido e do filho mais velho. Depois, nos tempos áureos do PREC, por causa do mais novo e do sogro. Não eram medos mortais, mas era um sentimento de impunidade e de insegurança que advinham do simples acto de pensar pela própria cabeça. Vem daí a minha incapacidade de filiação numa qualquer organização que me obrigue a prescindir de ter pensamento próprio.

Os acontecimentos ocorridos ontem em Paris e os assassinatos de que antes já havíamos tido conhecimento, voltaram a relembrar-me esses estados de ansiedade pelos quais passei há já muitos anos e a perguntar a mim própria como se tornou possível, no século XXI, uma tal ocorrência.

Nunca fui uma apreciadora do estilo corrosivo do Charlie Hebdo, talvez porque ele atacava, sobretudo, o “modo de olhar o mundo”. Prefiro o humor de tipo britânico, que obriga a pensar antes de rir. Mas reconhecia-lhes uma criatividade e uma ousadia sem limites. E respeitava-as.

O que ontem se passou visa amedrontar, nomeadamente os mais frágeis, aqueles que não têm a coragem ou a capacidade de serem livres. E ser livre não depende só de nós. Depende também daqueles que nos estão próximos e que podem, directa ou indirectamente, limitar essa liberdade. Quem não tem dinheiro para dar de comer à família não pode sentir-se livre. Daí que o medo se revista de múltiplas roupagens. O atentado de Paris obriga-nos, de novo, a conviver não só com ele, mas também com a angústia que dele resulta. O que, para além das perdas humanas – essas, irreparáveis – constitui uma das mais trágicas condicionantes a que podemos ficar sujeitos.

 

 

0 comentários em “O medo”

  1. não temos que gostar todos das mesmas coisas para haver respeito entre nós.
    A liberdade é a base do respeito.
    O medo corrói e destrói .
    É fundamental saber enfrentar o medo. Umas vezes ganha-se, nas outras nem por isso. Mas tentar, ir lá, dar a cara, mostrar firmeza mesmo que destroçados por dentro, é de muito valor.
    Tenho-a em grande consideração por isso mesmo, D. Helena.

  2. “Prefiro o humor de tipo britânico, que obriga a pensar antes de rir. Mas reconhecia-lhes uma criatividade e uma ousadia sem limites. E respeitava-as.” Tal qual, Helena.
    Tenho alguma pena que se tenha perdido nalgumas pessoas o essencial deste ataque e troquem a atenção à ameaça a todos nós por uns moralismos de pacotilha.

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