O Lisboeta à Chuva


Bandeira,

O lisboeta acorda, espreita pela janela, tira uma fotografia à coisa branca no asfalto (neva na rua dele!); não é neve, é granizo, faço ideia o quanto se ririam disso a norte mas no fundo é tudo igual, tudo coisa branca, conheço quem a odeie porque tem que lhe aturar as inconveniências metade do ano. O lisboeta lava-se, agasalha-se um pouco mais do que o costume e sai para a rua. A medo pisa a coisa branca, confirma que escorrega muito, troca duas palavras de espanto com a empregada da boutique do rés-do-chão e lá vai, adaptado, para o seu emprego, ou para o seu desemprego, ou para o que calhe, como se este clima parisiense lhe fosse a coisa mais natural do mundo. Estou a vê-lo ao fundo da rua, já corre, é para não perder o autocarro.

11 comentários em “O Lisboeta à Chuva”

  1. Repito o que já disse noutro forum: não deve haver nenhum povo com maior capacidade de adaptação do que o português. E isso é bom e mau, permite-nos sobreviver sempre mas não nos faz reagir e mudar as coisas quando elas devem ser mudadas. Com o tempo não há nada a fazer, mas há outras adaptações que não deviam ser tão fáceis para nós…

  2. Foi tremendo, tivemos de calçar galochas em vez dos chanatos com que habitualmente vamos para o trabalho, trocar o saiote de folhas de palma por umas pantalonas e, por umas horas, nem conseguíamos subir aos coqueiros. Os de Cascais, chegaram atrasados ao banco, porque a criadagem não se despachou a tirar o gelo do pára-brisas do Porsche.

  3. Uma pessoa, de capacete, em cima de uma mota, acompanhada de um guarda-costas, em clima parisiense, perece que dá a sua pica.

  4. Com esta crise, Lisboa teve a sua neve low cost ou marca branca.
    Não há dinheiro para ir à Serra da Estrela!
    Fica-se por Lisboa.

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