O lado B do 31


imagenscomhistoria,

Resisti a  pronunciar-me sobre o “não caso” 31 da Armada. Os desenvolvimentos  recentes, porém, obrigam-me a dedicar-lhe um post.
Começo por fazer um “rewind” para dizer que  me fartei de rir com a situação e congratulei-me pelo facto de ainda haver jovens irreverentes capazes de praticar actos que, embora nada tenham de revolucionário, nem pretendam  ser mais do que um “sketch” para captar audiências, revelam ousadia e inconformismo perante o panorama cinzentão que, diariamente, nos é oferecido neste país de acomodados. Os “Gato Fedorento”, ou os “Contemporâneos”,  talvez estejam a esta hora a lamentar não se terem lembrado de algo semelhante. Já agora a JSD poderia pedir a colaboração desta malta para fazer uns vídeos, porque o que por aí anda a circular na Net, para além de ser de um enorme mau gosto, cheira a bafio de Estado Novo que tresanda. Como é que há jovens tão velhos?
Posto isto, vamos ao que interessa…  Os rapazes  decidiram, posteriormente, devolver a bandeira à CML. Pareceu-me uma atitude mais provocatória do que de boas maneiras, mas talvez me engane, pois pode ter sido aconselhada por alguém que previu as consequências de uma apropriação ilegítima da bandeira da cidade. Entre brincadeira e furto, vai uma grande distância.
A razão que me levou a escrever sobre o assunto está relacionada com os pedidos de benevolência que começaram a surgir em alguns sectores. Obviamente que ninguém espera (ou deseja, suponho…) que os rapazes sejam presos, mas tenho a impressão que algumas das vozes que reclamam “solidariedade” com os 31 seriam as primeiras a pedir  que a justiça fosse aplicada, no caso de um grupo de jovens do Partido Comunista revelar a mesma audácia (coisa que considero manifestamente improvável) e hastear, nos Paços do Concelho, uma bandeira da Internacional. Num ápice  passariam da complacência às reacções inflamadas perante o ultraje.
E já agora também seria engraçado  ver  as reacções, se por acaso a PSP decidisse  passar uma esponja sobre o assunto. A PSP deve cumprir as suas obrigações e agir em conformidade com a Lei, mesmo em situações em que o furto nos faz apenas sorrir.
Desculpem se me enganei…

23 comentários em “O lado B do 31”

  1. Esquece-se que, enquanto a bandeira hasteada pelo 31 da Armada era uma bandeira nacional, a bandeira da Internacional não.

    1. Não é isso, minimamente, que está em causa; tratou-se da subtituição ilegal dum símbolo por outro. Até podia ser uma bandeira de piratas, a “gracinha” não deixava por isso de recair sobre a alçada da lei e a verdade é que, como foram os meninos que foram e não outros meninos, como a “causa” destes meninos até se apresenta bem mais “inofensiva” do que outras, há uma tendência para desculpabilizar a graçola, isso é evidente.

  2. Carlos, o grupo do 31 fez serviço público sério, divertindo simultaneamente o País tristonho e sonolento que vai por aí.

    Fala-se muito francês por esses centros comerciais e é notório que as famílias com muitos filhos de esses portugueses emigrados para França não compreendem o que se passa de tão deprimente na pátria natal com décadas de baixos salários e outro tanto de dependência alimentar de Espanha.

  3. De facto, há o detalhe de a bandeira monárquica ainda ser uma bandeira – e um símbolo – nacional.

    A sua “comparação” não é nova, caro Carlos: houve por aí quem falasse da bandeira da URSS, da bandeira nazi, houve até quem comparasse este acto ao famoso caso “verde-eufémio”. A diferença é que a bandeira monárquica não simboliza nenhum totalitarismo (ao contrário do que muitos parecem pensar), nem o acto em si causou qualquer dano, para além do orgulho camarário, claro.

    Sinceramente, acho difícil um acto de “desobediência civil” decorrer desta forma, mas este meu pensamento está claramente estereotipado.

    De resto, o Gato Fedorento já fez algumas brincadeiras interessantes, arriscando até muito mais. Ou não se lembra do famoso cartaz colocado no Marquês de Pombal que praticamente desmontou toda a propaganda do PNR?

    1. Quer dizer o senhor que desde que se substitua um símbolo por outro símbolo que se lhe opõe abertamente, que se faça chacota duma instituição e que se achincalhe um símbolo realmente nacional (ao contrário do outro que deixou de o ser há muito), e desde que o achincalhamento não tenha conotações negativo-totalitárias (no seu iluminado entender claro), está tudo bem? Não brinque comigo, vou lá pôr eu uma bandeira com o rosto de mim próprio (é que eu sim, sou um símbolo nacional e ademais não tenho quaisquer tiques totalitários, garanto-lhe) e quero ver se fica tudo bem, alegres e contentes como dantes. Não, o seu argumento, qualquer argumento que pretenda branquear uma acção deste género, tem um problema fundamental: carece de honestidade.

      1. Carlos Pumentel:
        Quando li o seu primeiro comentário, até ia concordar consigo, mas depois de ler este fiquei c onfuso. Das duas uma: ou fez mal a segunda leitura, ou este comentário não era para este post.
        Não pretendi branquear, bem pelo contrário… chamei a atenção para o facto de se tentar branquear este acto e se reclamar justiça no caso de o acto ser de sinal contrário.

        1. Caro Carlos, o meu pedido de desculpa se me fiz entender mal, a verdade é que estava a responder a comentador john e não ao seu post, o qual, aliás, subscrevo.

      2. Tenha calma, homem. Não se assanhe, que não vale a pena.

        Está tudo bem desde que não haja dano causado a ninguém. O que foi o caso: ninguém arrombou portas, ninguém partiu janelas. A bandeira de Lisboa – que, note-se, não é um símbolo nacional – foi retirada, e, ao que parece, hoje devolvida. Não foi queimada no Terreiro do Paço, pois não?

        Houve ilegalidades neste acto? Sem dúvida. Mas o acto prejudicou quem mesmo?

        E sim, há diferenças nos símbolos. Há tempos, não houve um deputado madeirense que exibiu a bandeira nazi no parlamento regional? Deu confusão, que me lembre…

  4. Carlos,

    Há muitas maneiras de brincar e de ser “irreverente”. A brincar a brincar, eles quiseram dar um ar sério à coisa e pretendiam atingir um determinado fim.
    Furto obviamente que não há, pois parece-me evidente a ausência de intenção de apropriação, a falta de um elemento subjectivo (e aqui já estou a dar uma pista) fundamental para o preenchimento do tipo criminal. Eles foram os primeiros a dizer que queriam devolver a bandeira e fizeram-no.
    Quanto ao mais, não considero a acção tão irrelevante quanto isso. E também não acho que tenha que haver condescendência ou benevolência com a situação, sob pena de amanhã termos mais uns quantos engraçados a atirarem ovos para o Presidente da República sob o pretexto de que se tratava de uma brincadeira. Até para a inimputabilidade há limites e se ali há coisa que não estava em falta era a consciência da ilicitude.
    Aliás, o laxismo do Estado de Direito no tratamento destas e de outras situações, a contemporização com a aberração (o Isaltino dizia que fugia ao fisco porque era normal naquele tempo…, as grandes sociedades de advogados tornaram-se máquinas publicitárias e até alteraram o Estatuto dos Advogados para poderem dar cobertura a certos mailings que já mandavam para empresas e autarquias a anunciar serviços…), é que nos conduziu ao estado actual, de que muitos, incluindo os 31 da Armada, se queixam. Não estamos a falar de ignorantes e analfabetos dos subúrbios, mas de “engraçados” que quiseram brincar com coisas sérias (humor é outra coisa).
    Só um pequena nota final: o assunto é da competência da PSP, não da PJ.
    Bom fim-de-semana.

    1. Sérgio:
      Se eles não tivessem devolvido a bandeira, não haveria furto?
      Estou de acordo com o teu raciocínio, mas sabes porque penso que o assunto não deve ser empolado? Porque a minha convicção é que eles procuram protagonismo e se pudeem armar-se em vítimas, vai-lhes dar imensojeito.
      Obrigado pela correcção. Obviamente que é PSP, foi mesmo lapso.

  5. Pois a minha maneira de tentar ser irreverente é não seguir o link. Não vou lá e pronto. Não lhes faço falta nem eles a mim. Empate técnico.
    :))))))))))

  6. Acho que te enganaste… E acho que o Luís Januário (A Natureza do Mal) já disse tudo:

    Benditos os rapazes que hastearam a bandeira azul e branca nos Paços do Conselho de Lisboa. Não sei se é ilegal. Os paranóicos do Estado de direito podem mandar a PJ perseguir os autores, com os aplausos dos hipócritas e dos ex-iconoclastas, que eram afinal virgens republicanas ofendidas. Glória aos rapazes do 31 da Armada que fizeram qualquer coisa de rebelde, içando um trapo que tocou no coração do regime e irritou esta gente instalada na mediocridade, este país só gripe só incêndios, a mala do Preto contra a mala do Mesquita, as listas da Manela contra as listas do Sócrates, e uma orla que não vai além do já visto, sem lugar para a esperança. Viva o 31 da Armada. Que as noites de Lisboa sejam pródigas em escadas Magirus para subir a mais varandas e haja coragem para um gesto de liberdade que nos redima destes Simplexes tão previsíveis, ideólogos da Bola e do Record, que abrem o fogo dos jogos florais para proteger os passarões da retaguarda, sempre em trânsito para a Mota-Engil, para a Iberdrola, a Diraniproject III, o Santander-Totta,o BCP.
    Simplex, o carro de combate do PS inteligente é um chaimite enferrujado. Vou para férias com o desgosto de desconhecer as razões da Irene, mais difíceis que o programa do PSD.

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