O joker do baralho


Luís Naves,

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Em entrevista na televisão, ontem, António Marinho e Pinto disparou em todas as direcções, com críticas ferozes aos políticos e à justiça. Este discurso parece altamente eficaz e, se tiver exposição mediática, o líder do PDR pode baralhar os dados da eleição de Setembro/Outubro. Ele é o joker* do baralho. Imaginemos o seguinte cenário: abstenção elevada baixa o número de votantes para 5,4 milhões; o voto de protesto aumenta, com 450 mil para o PCP, 250 mil para o Bloco, 150 mil para o Livre, o valor habitual de brancos, nulos e outros; se Marinho e Pinto arrancar 300 mil (que estão ao seu alcance sem exposição nas TVs), falamos de milhão e meio de votos, ou quase 28% do eleitorado; sendo assim, socialistas e coligação teriam apenas 72%, ou menos 6 pontos percentuais do que nas eleições anteriores. O cenário que descrevo é extremamente conservador. Se Marinho e Pinto tiver visibilidade e fizer uma campanha a imitar o Cidadãos espanhol, atraindo votos do centro (portanto, votos de moderados descontentes com PSD e PS), o ‘arco da governação‘ pode sofrer uma calamidade eleitoral e ficar abaixo dos 70%, rondando 3,8 milhões de votos, com o ‘vencedor‘ a ter menos de 2 milhões, ou apenas 37%, demasiado baixo para permitir coligações com os pequenos. Se o PS ganhar nestas condições, haverá um governo minoritário cujos orçamentos passam com abstenção de parte da maior bancada da oposição; se a coligação vencer nestas condições, haverá um governo minoritário com orçamentos aprovados graças à abstenção da maior bancada da oposição. Ou seja, alta instabilidade durante dois anos, um parlamento ensurdecedor, péssimo contexto externo após o Grexit, mandato incompleto. Perfeito para um pequeno partido que atrai o descontentamento político e se coloca ao centro.

 

*O sentido que pretendo não é o de ‘brincalhão’, mas de factor imprevisível…

0 comentários em “O joker do baralho”

  1. Não concordo com o cenário calamitoso traçado neste post. Porque, muito simplesmente, tanto o Livre como Marinho Pinto estão dispostos – ao contrário do que acontece com o Bloco e com o PCP – a coligarem-se com o PS e/ou com o PSD. Ou seja, não estamos condenados a um governo minoritário; estamos simplesmente condenados a um esforço de concertação no sentido de uma coligação.
    Tal e qual como em Espanha, onde os resultados eleitorais repartidos nas eleições autárquicas estão a dar, muito simplesmente, lugar a coligações.

  2. “…um parlamento ensurdecedor…” ?.
    Haverá mesmo muitos “deputados” nomeados, atentos e obrigados a atreverem-se a gestos Limianos?.
    Na ex-URSS ou na ex-China a função de deputado era bater palmas, a compasso.
    Há quem ainda não tenha notado quem são os pais da Constituição em vigor.

      1. Se os portugueses acreditam que uma pessoa concorre ao PE “ignorando em absoluto” o que lá vai ganhar.

        Se os portugueses acharem bem que quem considera esse salário “ignóbil” o meta ao bolso, não recuse parte substancial ou a doe a respeitávels instituições de cidadania/solidariedade social e a única resposta que apresenta é “quer que o deite fora?”

        Se os portugueses acharem bem que quem concorre a um cargo de deputado do PE seja dos mais faltosos e o use como mero trampolim para outras ambições…

        Se, ainda por cima, os portugueses concordarem com o gozo obsceno que emprega com um partido que até agora não tinha sido objecto de chacota mas que, de futuro, o será e (recorde-se este simples facto) já desapareceu completamente das sondagens, então, aos portugueses que se entusiasmarem por essa grande novidade, que lhes faça bom proveito.

  3. O PSD/CDS, e os que neles querem votar, estão a torcer para que o cenário que aponta se concretize.
    Este é o cenário adequado aos que querem qualquer coisita e que têm uma vaguíssima ideia sobre o país que desejam. Aliás, não é caso único. Passos e Portas são esse exemplo, com Portas a liderar o exemplo.

      1. Podes dar-te ao trabalho de avençado de colocares aí os links que quiseres, que eu mando um enorme flato para cada um deles, além de outro para todos em conjunto, incluindo o avençado…

  4. «Uma cisão violenta na véspera da reunião que elegerá o Conselho Nacional do Partido Democrático Republicano (PDR). Eurico Figueiredo, ex-deputado do PS e apoiante desde a primeira hora de António Marinho e Pinto, o líder do novo partido, ameaça abandonar o projeto enviando uma carta dura, em que acusa Marinho de “falso profeta” e de estar a transformar o PDR de “partido caudilhista em partido fascista”, e pede que convoque as eleições noutros termos.»

    Este coitado não tinha percebido nada do que se passou no MPT. Enfim…

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