O futuro já não é o que era


Pedro Correia,

 

O futuro já não é o que era. Houve tempos em que vender ilusões sobre o dia de amanhã era receita garantida de sucesso e a futurologia quase chegou a atingir o patamar reservado às mais respeitáveis ciências. Houve tempos em que se acreditava que o futuro só podia ser melhor. E não é preciso recuar muito no calendário. Em 1970, Alvin Toffler – ex-editor da revista Fortune – alcançou fama planetária com um best seller intitulado O Choque do Futuro em que antevia dias radiosos, marcados por uma intensa mobilidade social e laboral, produção de bens em larga escala e muitas horas de lazer, centradas nas delícias da sociedade de consumo.

Estes dias parecem-nos hoje estranhamente remotos e estas profecias optimistas parecem-nos hoje totalmente deslocadas. A fé inabalável no progresso humano que caracterizou as décadas imediatas do pós-guerra justificaram milhares de textos recheados de optimismo que agora só nos parecem péssima literatura. Em 1950, havia a crença generalizada de que por volta do ano 2000 os robots substituiriam o homem na maior parte das tarefas mecanizadas. Em 1960, o físico norte-americano Gerald Feinberg, da Universidade de Columbia, previu que na passagem do milénio nasceria o primeiro bebé num planeta artificial. A crença cega em ilimitados recursos financeiros ao serviço da inovação tecnológica levou várias mentes brilhantes a acertar totalmente ao lado. Na década de 60, Wernher von Braun, um dos pioneiros do espaço, admitiu que por volta de 1984 se fundaria a primeira colónia na Lua, provavelmente por iniciativa da União Soviética, e o biólogo marinho Alister Hardy, professor em Oxford, antevia na mesma época que antes do final do século haveria tractores a lavrar o fundo dos oceanos.
“Ninguém conhece a história da próxima aurora”, ensina um milenar provérbio africano. Mas o optimismo histórico da civilização ocidental levou-nos a acreditar durante demasiado tempo que era possível antever os alicerces do futuro, com a certeza antecipada de que ele seria risonho. A World Future Society [Sociedade Mundial do Futuro] chegou a congregar 60 mil membros. Em 1973 teve como orador convidado o vice-presidente Gerald Ford. Treze anos depois, uma delegação era recebida na Casa Branca pelo presidente Ronald Reagan, que lhe emprestou dignidade institucional.
Era o tempo em que o futuro estava na moda. Figuras respeitáveis anteviam um novo século com veículos “inteligentes” de transporte sem necessidade de condução, a proliferação de hotéis nas profundezas submarinas e migrações em massa de terráquos para satélites artificiais da Terra. Esse tempo terminou. Há muitos anos que Toffler não publica um best seller e a World Future Society está hoje reduzida a 25 mil membros. Quase ninguém quer saber o que nos reservará o futuro. Pelo simples motivo de que só pode ser mau. A crença mudou de campo.

16 comentários em “O futuro já não é o que era”

  1. A futurologia não será assim tão má como quase sobressai do post, pelo menos no que diz respeita a sonhos tecnológicos ou sociais. Note-se o caso da ficção científica, que conseguiu antecipar um sem número de tecnologias hoje utilizadas. Um homem como Júlio Verne conseguiu prever muitos desenvolvimentos, mas também previu outros que nunca se concretizaram. A futurologia falha abundantemente, mais vezes do que aquelas que acerta, mas nesse sistema de disparo em todas as direcções acaba por acertar em algumas ideias que são depois concretizadas.

    1. Caro João: a ‘futurologia’, que chegou a dar ares de ciência, em certa época, falhou em quase toda a linha nas suas previsões. Se revisitarmos vários autores da primeira metade do século XX, e até alguns académicos já da segunda metade desse século, a esmagadora maioria dos textos ‘proféticos’ que nos legaram sobre este início do século XXI, relidos hoje, só nos consegue suscitar o riso.
      Garanto-lhe que a amostra que aqui deixo é muito escassa e aleatória. Poderia trazer muitos mais exemplos, garanto. Mas julgo que estes bastam.

      1. Pedro, longe de mim contestar que a futurologia dá geralmente em asneira. Só quis fazer notar que, não sendo particularmente perniciosa também pode dar ideias para o futuro, mesmo que noutras direcções. Ninguém se chateia se eu prever que dentro de dois anos toda a gente se vai deslocar com cintos anti-gravidade, mas uma previsão espatafúrdia desse tipo pode levar alguém a querer estudar a possibilidade teórica de os criar e, quem sabe, desenvolver novos conceitos ou produtos. Se mais não forem, os conceitos de futurologia poderão ser como sessões de brain-storming. No mínimo poderão ser bom entretenimento.

        1. Desse ponto de vista, de acordo. O futuro começa a ser construído com hipóteses, por mais mirabolantes que nos pareçam. Verne é, aliás, um excelente exemplo disso.
          O erro foi, a certa altura, tentar transformar a ‘futurologia’ numa espécie de disciplina científica, com relevo político, social e até académico, e os seus mentores a serem recebidos com dignidade institucional, na Casa Branca e outras moradas ilustres.

  2. O problema do futuro, é que se começa a construir no presente. E este presente não augura nada de bom.
    Quando eu era miudo, já lá vão mais de 50 anos, o futuro era o ano 2000. E sem ter lido Alvin Toffler, as conversas com os amigos sobre o futuro já previam a conquista do espaço e grandes cidades na lua. Para a terra previamos automoveis que voavam, e aviões que davam a volta ao mundo em poucas horas. A comida seria servida como capsulas.
    Claro que o lançamento do Sputnik deve ter tido alguma coisa a ver com tão ferteis imaginações juvenis.

  3. …talvez devessemos ler mais livros de história…é k esta repete-se (é ciclica).
    Há umas semanas à falta de melhor li o livro “Fontes Pereira de Melo” de M.ª Filomena Mónica e…que sensaçao de “dejá vu”. Até quanto ao TGV, digo, o comboio.
    Não se apoquente Pedro Correia: nada é para sempre e o Eng. Socrates também há-de ir…!
    E leia a nossa história…é fascinante e trouxe-nos aqui, com quase 900 anos.E podia ter sido bem pior… 🙂

    1. Leio História, claro. É um dos meus géneros literários favoritos, de há muito tempo. Sócrates, se me permite, não tem nada a ver com este texto. Há mais vida para além da política.

          1. bem…desculpe insistir,mas eu pensava k era 1 ciência, do grupo ciências humanas!Sou eu k ’tou equivocada, ou o senhor está na brincadeira…?

          2. Do ponto de vista académico, é como diz. Do ponto de vista literário, obras como as ‘Crónicas’ de Fernão Lopes são do género histórico.

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