Os desígnios da fama são insondáveis. Boa reputação, má reputação – estes juízos de valor funcionam como conceitos operacionais, mas têm prazo de validade. Alguns dos ditadores mais sanguinários de todos os tempos são conhecidos universalmente. As novíssimas gerações ouvem os seus nomes repetidos até à exaustão, muitas vezes destituídos de qualquer valoração crítica. As últimas estátuas de Franco – quase sempre em pose heróica, sobre um cavalo, como se fosse herdeiro de El Cid – só muito recentemente desapareceram das praças das cidades de Espanha, por decisão do Executivo socialista de Rodríguez Zapatero. E até há dias uma estátua de Estaline ornamentava a praça central de Gori, sua cidade natal, na Geórgia. Tarde e a más horas, o Governo de Tbilissi decidiu removê-la. E não faltou quem protestasse.
Mas não é só na política que as coisas se passam assim. Pensemos no mundo do crime, por exemplo. Elmore Leonard lembra justamente no seu mais recente policial (Road Dogs, Unha com Carne na versão portuguesa, lançada há poucas semanas), o caso de John Dillinger, o mais célebre assaltante de bancos de todos os tempos, comparando-o com o polícia que chefiava a brigada que o prendeu. Chamava-se Melvin Purvis – ninguém recorda o seu nome, enquanto Dillinger se foi mitificando na cultura popular, designadamente no cinema.
“É só o tipo que disse ao John Dillinger quando ele ia a sair do cinema ‘Mãos ao ar, Johnny, estás cercado’. Aí o Dilinger sacou. O Melvin Purvis não disparou. Três agentes que estavam lá dispararam sobre o Dillinger e ele foi-se de vez. Nunca revelaram quem foi ao certo o agente que o matou”, lembra Leonard pela boca de uma personagem.
Nesse mesmo ano de 1934 Melvin Purvis tornou-se o homem mais popular dos EUA. A tal ponto que o director do FBI, J. Edgar Hoover, começou a sentir ciúmes dessa fama. Sem vontade de dividir os louros por um dos seus agentes, acabou por forçar Melvin a demitir-se. “Os parceiros do Melvin Purvis deram-lhe uma .45 cromada como presente de despedida, a mesma pistola que em 1960 o Melvin Purvis usou para rebentar os miolos”, escreve Leonard.
Hojo o nome de Melvin Purvis nada diz a ninguém. A fama evapora-se com facilidade. Quem é capaz de vaticinar, entre as celebridades do presente, quais resistirão à erosão do tempo, para além dos conceitos de bem e de mal?
Quanto pior melhor
Pode existir um código de conduta equiparado ao cavalheirismo entre os mais duros presidiários, aqueles que entendem que “quando se cai do cavalo há que voltar logo a montar”? Eis uma das interrogações que servem de base à trama desta obra de Elmore Leonard, por muitos considerado o maior autor vivo do género. É um policial tenso, sem contemplações de qualquer espécie, à margem de toda a correcção política. Aqui os maus são péssimos, não beneficiam de atenuantes de ordem psicológica ou sociológica. Roubam porque querem, matam porque têm instintos assassinos. São machistas, racistas, destituídos de qualquer principio moral.
Road Dogs foi considerado um dos melhores policiais da década ao ser lançado em 2009. O Washington Post considera Elmore Leonard – autor de obras que originaram filmes tão diversos como 3:10 to Yuma e Jackie Brown – um “tesouro nacional” dos Estados Unidos. E o Philadelphia Inquirer foi ao ponto de sugerir que lhe seja atribuído o Prémio Nobel. É um escritor de 84 anos que se pode gabar de ter renovado o género que teve Raymond Chandler e James M. Cain entre outros autores de culto. Talvez por gostar tanto das suas personagens: quanto piores são, melhor ele as trata. Talvez porque “os tipos bons caem no esquecimento e os gajos maus dão no goto do público e tornam-se celebridades”.
Unha com Carne. De Elmore Leonard (Teorema, 2010).
295 páginas
Classificação: ***


Um lagarto.
Lagarto, lagarto…