O fim do bipartidarismo espanhol


Pedro Correia,

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As eleições autonómicas na Andaluzia confirmaram a tendência para a redução do espaço eleitoral dos dois maiores blocos partidários, o que abre um novo capítulo na democracia espanhola.

O PSOE – que ocupa o governo andaluz há 33 anos ininterruptos – venceu mas obteve ali o seu pior resultado de sempre: recuou de 39,5% para os actuais 35,4%. O Partido Popular fica-se pelos 26,7%, baixando 14 pontos percentuais: tinha obtido 40,7% no anterior escrutínio. Ambos os partidos valem hoje 62,1% dos votos expressos nas urnas. Há três anos, somados, haviam chegado aos 80,2%.

 

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 Rajoy viu o PP perder 17 deputados e recuar 14 pontos percentuais na Andaluzia

 

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A queda é muito mais aparatosa para o Partido Popular, do primeiro-ministro Mariano Rajoy, constituindo um indício claro de tendência de voto para as legislativas de Novembro: o partido histórico da direita espanhola – que havia vencido as autonómicas de 2012, embora sem maioria absoluta, impossibilitando-o de formar governo – perde 17 deputados. Tinha 50, fica-se pelos 33.

Os socialistas, que governaram até agora em coligação com a Esquerda Unida (a sigla eleitoral do que resta do Partido Comunista de Espanha), elegeram 47 deputados para o Parlamento regional. Tantos quantos já tinham. Neste aspecto de pouco lhes valeu anteciparem o acto eleitoral, que só deveria realizar-se no próximo ano.

Mas Susana Díaz, a líder socialista na região (e que mantém fortes aspirações a comandar o PSOE a nível nacional), obteve uma vitória estratégica superior ao peso eleitoral do seu partido, que já foi hegemónico na Andaluzia – em 1982, recolheu 52,8% dos votos e hoje em pouco excede um terço do total.

 

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 Susana Díaz vence mas PSOE baixa 4,1% e perde parceiro de coligação

 

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Vitória estratégica porquê?

Por um lado porque reduz os comunistas à sua mais fraca expressão de sempre. Muito longe das eleições de 1986, em que obtiveram 18%, e do escrutínio de 1994, em que chegaram aos 19,3%. Agora com 6,9%, a Esquerda Unida perde mais de metade do seu grupo parlamentar, passando de 12 para apenas cinco deputados.

Por outro lado, ao antecipar a ida às urnas, Díaz travou a rota de ascensão do Podemos, a mais ameaçadora para os socialistas. Se as eleições tivessem ocorrido no calendário normal, a percentagem do partido liderado por Pablo Iglesias – ainda sem aparelho organizado na Andaluzia – seria consideravelmente superior. Mesmo assim conseguiu 14,8% e elegeu 15 deputados. À primeira tentativa, o Podemos ascende ao terceiro posto no Parlamento autonómico. Pouco mais de um ano após ter sido criado, na sequência das monumentais manifestações de rua contra o executivo de Rajoy.

 

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 Rivera com 9,3%: há dois meses nem surgia nas sondagens

 

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Cidadãos foi outro caso de sucesso, como já aqui havia antecipado. Há dois meses, este partido criado por Albert Rivera na Catalunha nem sequer figurava nas sondagens andaluzas. Mas acaba de conseguir 9,3% dos votos, ultrapassando a Esquerda Unida, e fazendo eleger nove deputados. E surge mais bem colocado do que qualquer outro para formar maiorias conjunturais com o PSOE no Parlamento regional.

Susana Díaz, que ficou a oito assentos da maioria absoluta, necessita de apoio parlamentar para além das suas fileiras partidárias. Um apoio que não poderá vir da esquálida bancada da Esquerda Unida, nem surgirá por bandas do Podemos, que já rejeitou qualquer aproximação aos socialistas.

À primeira tentativa, bem-sucedida nas urnas, Rivera está em condições de influenciar a acção governativa da maior autonomia de Espanha. Com o seu programa centrista de recusa da oligarquia que tem dominado a cena política do país e firmes propostas de combate à corrupção e aos nacionalismos, não é difícil vaticinar-lhe voos mais altos.

 

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À esquerda e à direita, portanto, tudo mexe. Castigando os partidos que não souberam renovar-se a tempo nem captar as aspirações mais profundas do eleitorado.

São boas notícias para Espanha.

São, de algum modo, boas notícias também para nós.

0 comentários em “O fim do bipartidarismo espanhol”

  1. Então e em França? Fartei-me de rir ao ver o sr. Valls declarar-se todo contente porque Marine Le Pen não tinha ganho, isto como se fosse o PSF que tivesse tido uma monumental vitória…

    1. Tenciono analisar também as eleições locais francesas, que decorrem num sistema eleitoral muito mais complexo e fragmentado. Com a UMP de Sarkozy à frente e a FN em segundo.
      Mas atenção: foi só a primeira volta.

      1. Claro que sim. Até por ser a primeira volta pasmei com as declarações do sr Valls segundo as quais se felicitava a si próprio por se ter empenhado pessoalmente em que a Frente Nacional não fosse a primeira força política em França. À segunda volta seria mais natural e expectável o apoio mútuo dos partidos que se lhe opõem com a finalidade de ela perder…

        1. Já se percebeu que haverá milhares – ou milhões – de socialistas dispostos a votar na direita liberal/conservadora para evitar a vitória da Frente Nacional. É a vida, como costumava dizer o outro.

  2. Aguardo com impaciência as declarações do Costa felicitando a camarada Susana ou, quem sabe, os camaradas do Podemos – por estes dias ignora-se qual a vitória que lhe dará mais pica.

  3. Acredito que passada a fase da euforia e quando a opinião publica espanhola perceber o flop que é o Syrisa, o Podemos voltará para percentagens residuais.
    Também acredito que pela sua postura menos radical, o Cidadanos terá mais possibilidades de sobreviver que o Podemos.
    Em França, que tem um sistema eleitoral a duas voltas, vamos ver mais uma vez o eleitorado socialista votar na UMP para não ver eleitos os candidatos da FN. Já aconteceu nas presidenciais em que inesperadamente, para os mais distraídos, o papá Le Pen passou à 2ª volta com Jacques Chirac.
    Por isso não dou um tostão furado pelo futuro de Manuel Valls como 1º ministro, enquanto o presidente Hollande se irá arrastar no Eliseu até ao fim do seu mandato.
    Também não me admiro que se veja obrigado a nomear um 1º ministro da área do centro-direita, e acabar o seu mandato em co-habitação com o partido de Sarkozy.
    Por aqui se prova que as “mortes” em politica nem sempre parecem aquilo que são. Aí está Nicolas Sarkozy bem “vivinho da silva” para o demonstrar.

    1. Caro Alexandre, não misturo Espanha com França. Cada caso é um caso.
      Em Espanha, o Podemos (à esquerda) e o Cidadãos (no centro-direita) representam reais alternativas aos partidos dominantes em cada bloco. Alternativas não apenas de rosto e de mensagem, mas também de programa. E que têm, cada qual, a enorme vantagem de não estarem envolvidas no lodaçal da corrupção que se estende por quase toda a classe dominante em Espanha, sem excluir sequer a Casa Real.
      É salutar que surjam alternativas. E que possam e queiram expressar-se nas urnas. Sinais de que o sistema democrático, apesar de tudo, mantém plena vitalidade.
      Gostava de ver isto também em Portugal.

      1. o Podemos (à esquerda) e o Cidadãos (no centro-direita) representam reais alternativas aos partidos dominantes em cada bloco. Alternativas não apenas de rosto e de mensagem, mas também de programa

        Não percebo por que é que esses partidos constituem alternativas reais e outros partidos não as constituem.

        Quanto ao programa desses partidos, parece-me totalmente indistinto. Dizer que se é contra a corrupção não é nada, porque ninguém diz ao certo como pretende combater a corrupção.

        Em Portugal também há montes de partidos para além dos cinco que têm representação parlamentar. Não percebo por que razão algum deles não possa constituir uma alternativa real, tanto quanto esses partidos espanhóis a constituam.

  4. Caríssimo,

    É mais para lhe dar um abraço do que para constatar a excelente analise…

    Forte abraço

  5. O título deste post parece-me exagerado em dois aspetos.

    (1) Não se pode falar sobre Espanha. Apenas houve umas eleições na Andaluzia, a qual é apenas uma das muitas regiões da Espanha. Aquilo que aconteceu nas eleições andaluzas poder-se-á repetir, ou não, em futuras eleições espanholas. Não sabemos.

    (2) Não houve propriamente um fim do bipartidarismo na Andaluzia. Dantes, na Andaluzia havia dois partidos grandes e um pequeno. Agora, parece haver dois partidos grandes e dois partidos médios. Não é claro como evoluirá esta mistura.

    Parece-me muito cedo para tirar conclusões claras.

    (O Pedro Correia certamente se lembrará de umas eleições em que apareceu um partido eanista em Portugal com grande força. O bipartidarismo português parecia ter acabado. Nas eleições seguintes logo regressou.)

  6. Nada de novo em Espanha. Cópias do “centrismo” extremista ou da esquerda extremista é mais do mesmo.

    Ninguém lida sequer com um simples 2+2=4 quanto mais com os problemas futuros.
    —

    O PRD por cá também apareceu no contexto da 2º pré-bancarrota do regime.

  7. Infelizmente é ao contrário do futebol Real-Barça-
    E cá com o abrilismo ficou Ben-FCP.

    Uma porcaria.

  8. Nada de novo no país “calé” : continua a vencer o PER e a “peculiaríssima” estrutura clientelar andaluza .
    Creio não ser extrapolável para o resto de Espanha – exactamente como o toureio de capote…

    1. Andaluzia confirma ser a região mais conservadora de Espanha. Tem o maior índice de desemprego de toda a Europa – dez pontos acima da média nacional. Um índice de investimento externo 40% abaixo da média nacional. Dois ex-presidentes regionais – os socialistas Chaves e Griñan – indiciados por corrupção.
      Mesmo assim continua a votar no PSOE. Há 33 anos.

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