O Fim


Maria Dulce Fernandes,

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Este é um postal um tanto pascácio.

É sobre O Fim.

Quem é que gosta de ler coisas secantes e deprimentes acerca da morte?

Eu, que costumo gravitar pelas novidades da blogosfera e dos blogues que costumo seguir, se me deparasse com uma dissertação sobre a iminente mortalidade de todos nós, saía da página a sete pés, porque coisas que nos ralem já nós temos em quantidade na nossa vida e não precisamos da opinião destrambelhada duma tipa que escreve umas coisas de vez em quando.

Podem não querer a minha opinião, mas eu dou-a na mesma. É de borla e só lê quem quer. A morte é a única certeza que temos na nossa vida a partir do exacto segundo em que nascemos. Não escolhe hora, idade, sexo, religião, raça ou extracto social. Chega quando quer, é silenciosa, eficaz e nós deixamos de ser.

“ – Hoje bateu forte, não?” Hoje e todos os dias, de há uns tempos para cá.”

Dá que pensar e muito, naquilo que não queremos pensar. Já vos aconteceu num “Dia-Não” ou na véspera dum exame médico mais específico, por exemplo, olhar para o espelho e pensar “Se calhar já estou morta e ainda não dei por isso.”

Penso que não tenho medo da morte. Penso hoje. Daqui a uns tempos e algumas doenças, quem sabe, mudo drasticamente de opinião? Não perco tempo a pensar se morrer é o final. Não me interessa, não quero saber… nunca ninguém voltou para contar como foi, por isso é coisa que não me preocupa. Não gostava de ficar para aí a vegetar sem noção do tempo nem do espaço, sem conhecer ninguém, sem controlo das minhas funções psicossomáticas. Poderá ser a morte pior que a completa perda de dignidade e humanidade? Poderá ser a morte pior que o sofrimento atroz de uma doença terminal?

Tenho cirurgia marcada para daqui a um par de semanas e a percepção das probabilidades é até animadora, mas o pensamento macambúzio insidia-se em qualquer nesga de boa disposição que ainda não esteja putrefacta e arruina-a num ápice.

Deixar tudo em ordem…

Faço mil e um malabarismos para não ter que acompanhar funerais, mas sei que há um em particular a que, por muito que não queira, não posso deixar de comparecer.

Quem é crente reza pelo reino dos céus, por um paraíso, seja em que religião for. Eu sou crente à minha maneira e no fim espero poder encontrar apenas paz.

 

(Republicado/Imagens Google)

14 comentários em “O Fim”

  1. Lá por a Dulce ir fazer uma cirurgia, creio que razoavelmente trivial, daqui a duas semanas, não é razão para se por a pensar que vai morrer. Não exagere nos seus medos.
    As cirurgias atualmente são muito menos perigosas do que eram há 50 anos, em grande parte porque um dos ramos da medicina que mais progresso fez foi a anestesia.

      1. Depende. A minha mãe com a idade da Dulce fez uma cirurgia para lhe extraírem um nódulo que tinha numa mama e que suspeitavam que fosse um tumor. Passou semanas a tremer de medo, tanto da operação como do cancro. Já se via a morrer, literalmente. No fim fizeram a operação, que correu perfeitamente, o nódulo verificou-se ser benigno, e prontos, todos os medos foram injustificados.

  2. Vai correr tudo bem. e a morte não é de todo o pior que nos pode acontecer.
    ( eu como estou convencida que estou aqui tipo escola penso sempre na morte como passar de ano -:) ) e não me apetecia nada repetir aqui)

  3. Quando era criança descobri um pequeno caroço na têmpora. Decidi logo que tinha pouco tempo de vida. E não disse nada aos meus pais para os poupar ao sofrimento. Desde essa altura que comecei a preparar-me para a morte. Sinto que tudo o que vivi já foi uma espécie de bónus…
    O caroço ainda cá anda, mas começo a confiar que talvez consiga conhecer os meus netos.

    1. Desde que o meu pai faleceu com um ataque cardíaco fulminante há 28 anos, quando era um jovem de 58 anos, eu, que herdei a sua patologia, mentalizei-me que chegada essa idade , chegaria ao fim. É certo que tive um enfarte bem ante dos 58, mas já tendo passado a data do “fim” fiquei sempre com aquela sensação de ” tempo emprestado”. Principalmente quando estou mais em baixo, assalta-me aquele pessimismo aborrecido que consome grande parte da minha energia. Ficar mais velha também não ajuda nada, não é?

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