A convite de Marcelo Rebelo de Sousa, Mário Draghi assistirá ao próximo Conselho de Estado. Esta comparência pontual do Presidente do Banco Central Europeu (BCE) no órgão consultivo da Presidência da República não me merece qualquer comentário. Não vejo grande utilidade, mas também não identifico grande problema. Melhoral, portanto.
Contudo, esperei, como qualquer pessoa minimamente atenta à política nacional, que o PCP largasse fogo ao Palácio de Belém. Após anos a zurzir contra o “directório das potências” europeias, perante o qual o anterior governo “ajoelhava” (esta pagaram-na com língua de pau quando o OE de 2016 foi a Bruxelas), era expectável que os comunistas portugueses reagissem com vigor e intransigência à presença de Draghi em Lisboa. Afinal de contas, trata-se de um representante do grande capital, conivente com os desmandos dos “mega-caloteiros”, entre os quais figura a Goldman Sachs, instituição para a qual Draghi trabalhou – no capitalismo é assim, estão todos feitos uns com os outros, isto anda tudo ligado. Mas não. O deputado Jerónimo disse que o caso é apenas “estranho”, o que contradiz todo o ódio destilado durante anos pelo Senhor Sousa, Secretário-Geral do PCP.
“Estranho”, diz. “Estranho” é alguém assumir que é teimoso. “Estranho” é um bêbado ter consciência de não estar em condições de pegar no carro. “Estranho” é alguém deitar-se sozinho e acordar acompanhado. Isto sim é estranho. Mas a presença de Draghi no órgão consultivo da Presidência da República deveria ser entendida, segundo os cânones do PCP, como um ataque inadmissível à soberania nacional, uma violência que não aconteceria caso houvesse um “governo patriótico e de esquerda”. Porém, para surpresa de todos, agora estes casos são apenas “estranhos”. Com este mortal encarpado à retaguarda, o PCP dá razão aos populismos mais básicos pois confirma que, de facto, os partidos políticos são todos iguais.


Dragui? Ou será Draghi?
Tem toda a razão. Lapso corrigido. Agradeço o aviso!
É assim. Conforme as ocasiões, assim são os comentários. É uma lei da política não exclusiva do PCP.
Há outros truques. por ex: em vez de comentar um acontecimento comenta-se o comentário de outros ao acontecimento. Reservando a nossa opinião.
Estranho? Recuo do PCP?
Quando no poste do Sérgio A. Correia -Nem daqui a três gerações- 27.03.16 no meu 2º comentário, faço referência e dou o link onde, o próprio, Obama esclarece que esquerda ou direita, tanto faz, Draghi e Gerónimo, estão precisamente a seguir os novos parâmetros, exigidos no “Programa” mas, presentemente, será fácil, cair nessa percepção enganadora que esse “mortal encarpado” é à retaguarda.
Resisti à tentação de não escrever Dragui… mudam as regras com acordos ortográficos da tanga, o Mundo desaba economicamente e explode, literalmente mas, comentar sobre isso? “Jamé”… dediquemos um comentário e que nunca passe… a falha numa letra… Dragui ou Draghi, sabemos muito bem quem é… um, entre muitos e, apenas, mais um… “Judas goat”.
Mas eu tenho um comentário a fazer. É bom que Draghi esteja presente nesse Conselho de Estado. Afinal é necessário aceitar o estatuto de arrependido a quem verdadeiramente se arrepende: fende-estimulo-do-investimento-publico-e m-paises-como-portugal_245360.html
http://economico.sapo.pt/noticias/bce-de
Tenho pena que não haja arrependidos pelo burgo luso. Eu sei, são todos uma sumidade e de uma coerência fenomenal. Aliás, nunca vi alguém de olhos vendados e guiado pelo seu dono arrepender-se. Para mim seria muito estranho.
Aproveito a oportunidade para referir que o nosso PR, através da notícia que anexo, encontrará alguma resposta às questões levantadas (sobre o crescimento) ao justificar a promulgação do OE.
Vento : “bce-defende-estimulo-do-investimento-pu blico-em-paises-como-portugal”
1. Trata-se de um “estudo” de 3 investigadores. Não é uma posição oficial do BCE.
2. O BCE tem sempre dito que, para que a politica monetária seja eficaz, é necessário que os paises membros tenham finanças publicas consolidadas e reformem estruturalmente as respectivas economias. O que, como toda a gente sabe, não implica necessáriamente aumentar gastos publicos, antes pelo contrario.
3. O estudo diz algumas evidências : que Portugal é um dos paises onde o investimento publico mais caiu com a crise ; que o investimento publico tem um efeito importante sobre a procura de curto prazo e o crescimento potencial ; que o investimento desejável deve ser criterioso de modo a que os beneficios sejam superiores aos custos ; etc.
4. Mas o estudo também diz que o investimento publico deve ser feito apenas quando existem condições de sustentabilidade em termos das contas públicas nacionais.
5. O estudo não diz explicitamente quais são os paises em que que se justifica e recomenda actualmente um aumento do investimento publico e, portanto, ao contrário do que sugere o titulo da noticia linkada, também não faz nenhuma recomendação nesse sentido relativamente ao caso especifico de Portugal.
6. Ou seja, antes de poder voltar a aumentar o investimento publico, que deve ser sempre economicamente criterioso e não de tipo keynesiano (“abrir e fechar buracos” !…), Portugal tem primeiro de conseguir primeiro consolidar as suas contas publicas e fazer as reformas estruturais que permitam o potencial de crescimento da sua economia.
7. No fim de contas, para poder destinar uma parcela mais importante dos fundos publicos para o investimento, Portugal tem de gastar menos em despesa corrente.
8. Por sinal, e ao contrário do que o Vento parece querer sugerir no final do seu comentário, o orçamento do governo actual não prevê nenhum aumento significativo do investimento publico antes concentrando, como explicou o PR na declaração de ontém, todo o aumento dos gastos do Estado no aumento do consumo publico e, indirectamente, privado.
Meu caro Fernando,
Antes de tudo o mais, saudações. Não, o estudo é mesmo apadrinhado pelo BCE.
Eu tive oportunidade de escrever sobre a necessidade da expansão orçamental. Esta expansão orçamental pressupõe investimento público associado às políticas que o actual governo decidiu implementar para estimular o consumo interno, que gerará também um retorno fiscal significativo.
A notícia é de 21 de Março, mas não é novidade para mim que há muito tempo a defendo agregada aos estímulos Juncker; e tampouco é novidade para este estudo aqui publicado: evela-beneficios-economicos-do-investime nto-p-blico
http://www.sol.pt/noticia/500117/Estudo-r
O meu caro Fernando vê o investimento público com retornos imediatos. Porém, a rentabilidade de um investimento não se mede por tal imediatismo. O imediatismo é mais de natureza propagandista e jornalística ou comentarista. Mas isto não é investimento, é alarido.
Por outro lado, as dúvidas do nosso PR quanto ao crescimento não são uma sugestão minha. São questões que se subentendem no seu discurso.
Por outro lado ainda, os seus pontos sugerem uma auto-regeneração da economia. Mas isto não existe. É necessário estímulos e não paragens. Todas, todas mesmo, as situações de crise foram resolvidas com endividamento através de investimentos públicos. Acontece que surgiu uma espécie de nova classe de “economicistas” que julgaram ter descoberto a roda, mas partiram-na toda em pedaços e é necessário fazer o mesmo produto de forma igual.
Nada de novo debaixo do Sol.
Espero ter esmiuçado o princípio que preconizo.
Caro Vento,
Agradeço e retribuo as saudações.
Fui ver o artigo, é mesmo um estudo, escrito por 3 investigadores. O BCE tem um elevado numero de investigadores que preparam papers para discussão e que são regularmente publicados nos seus boletins. No site do BCE é indicado que estes artigos são “trabalho em curso” e não refletem necessáriamente a posição oficial do BCE. Esta posição é apenas a que resulta dos relatórios das reuniões do comité de governadores do Banco e que estão claramente identificados.
Mas, seja como for, mesmo que o artigo seja “apadrinhado” pelo BCE, nada muda.
De resto, eu, como tantos outros, nem sempre estou totalmente de acordo com o que o BCE diz, faz ou “apadrinha”.
Mas, como indiquei no meu comentário anterior, o estudo nem sequer é uma defesa de um qualquer “expansionismo” orçamental. Antes pelo contrário. Partindo da constataço de que a crise dimuinui o investimento publico em % do Pib, o que é uma evidência, recomenda que este seja retomado mas apenas de forma criteriosa e se tal não puser em perigo o indispensável equilibrio das finanças públicas. O que subentende que paises como Portugal, que ainda têm situações não consolidadas, não devem tomar iniciativas extemporâneas nesta matéria.
O que é certo é que, sobretudo nas condições actuais do nosso pais, o aumento dos gastos do Estado é o pior que se pode fazer.
De resto, as principais instituições europeias, incluindo o BCE, têm sido muito claras em desaconselhar e desaprovar qualquer aventura deste tipo num pais como o nosso.
O que se passou com a proposta de orçamento do governo actual mostrou-o claramente.
A UE opôs-se às tentativas do governo português de aumentar ainda mais os gastos do Estado, já toda a gente percebeu que este orçamento vai ainda ser rectificado e que no final, com tantas medidas contraditórias, vai ser tudo menos um estimulo para o crescimento economico.
Desiluda-se meu caro Vento : o governo português nem sequer tem dinheiro e margem de manobra suficientes para aumentar despesa e reduzir impostos de forma significativa quanto mais para aumentar o investimento publico !…
E ainda bem, porque de outro modo a situação seria ainda pior do que já é.
O “seu” governo não vai aumentar nenhum investimento publico e, quando muito, vai aumentar o consumo e voltar a pôr as nossas contas públicas de novo de pantanas e a precisarem de novos resgates e de novas curas austeritárias.
Mas quanto desperdicio de recursos e quanto tempo perdido !!!
Aproveito para lhe dizer que nem eu nem ninguém considera que o investimento publico não seja necessário e não tenha o seu lugar.
Mas deve ser retomado apenas e na medida em que as finanças públicas o permitam e deve ser apenas em projectos seleccionados e que dêm garantias de um retorno superior ao respectivo custo.
De resto, é exactamente o que diz o tal estudo !!
Finalmente, também o tranquilizo quanto ao facto de eu saber que certos investimentos publicos, de resto como muitos investimentos privados, têm retornos que não são necessáriamente imediatos.
Por isso mesmo é que é preciso muita prudência quando se mobilizam fundos importantes e é preciso evitar que tal possa contribuir para um desequilibrio imediato das contas públicas.
Mas todos sabemos que certos investimentos publicos são feitos sobretudo para estimular a economia no curto-médio prazo, nomeadamente através do sector da construção (o estudo diz que aumenta a procura global no curto prazo), mas que a prazo esse efeito tende a ser menor ao passo que os respectivos custos financeiros se prolongam no tempo.
Meu caro Fernando,
antes de Sócrates cair, e mesmo depois de ter caído, dizia-se que Portugal estava em bancarrota, quando na realidade estava em situação grave de tesouraria. Isto é, não tinha cash disponível para mandar cantar um cego. Mas tinha património, tinha activos, tinha retornos fiscais e muito mais. Agora tem muito menos e uma dívida maior.
Vem este caso ao tema para lembrar-lhe que os parceiros de Portugal, com particular notoriedade para Merkel/Sarkozy, não fugiam a este discurso. Todavia, os tais notórios, apadrinhavam o avanço do TGV. Eu sei, a tecnologia destes comboios, na Europa, é desenvolvida por estes dois países. Porém, não obstante Portugal se encontrar nessa tal situação de “bancarrota” o dinheiro aparecia.
Portanto, o dinheiro para investimento aparece. E a Europa anda ansiosa por dar início a este processo. Ela já viu que sem isto não vai a lado nenhum.
O estudo apadrinhado pelo BCE é uma espécie de hors d´ouvres no banquete que já se prepara. Isto é, é necessário ir alimentando os mercados com estas entradas enquanto se preparam os governos para a acção que não pode deixar de ocorrer. Isto até acalma a subida das taxas de juro por falta do negócio especulativo nas matérias primas. O petróleo apesar de ter subido 50% desde Janeiro deste ano (conforme previ) ainda não rende o suficiente. E em particular sem se saber até quando o Irão manterá a torneira muito aberta.
O meu caro Fernando concorda comigo no que respeita ao investimento público, simplesmente acrescenta algo que estava inferido no meu comentário, que é a palavra “criterioso”. Qualquer investimento deve ser criterioso, e também as PPP´s e as swaps o deviam ter sido. As PPP´s no que respeita a rendas e contractos e as swaps também. Só que aqui não escrevo sobre a virtuosidade dos investimentos, que existiu, mas na forma como se negociou a exploração de tais investimentos.
É nisto que tem que existir critério. Não basta fazer-se um bom investimento, é necessário geri-lo muito bem.
Por outro lado o investimento não é um gasto, é investimento. É sobre isto que escrevemos e não sobre gastos.
O governo em quem votei, o do PS, e que muito antes de ocorrer entendi dizer que quer o BE quer o PCP seriam bem-vindos para o comporem, foi um acto consciente e não emocional. Votei porque a proposta económica e financeira na sua maioria vinha ao encontro do que eu pensava, e por aqui tive oportunidade de partilhar antes mesmo de ocorrer. E também porque PSD/CDS, sendo governados por outros, andavam a armar ao pingardelho governativo, mas sem ideias. A única coerência que lhes atribuo remeto simplesmente para o facto de tal coerência ser um mero sintoma obsessivo. Quiçá até mesmo compulsivo. Mas isto é matéria para outros trabalharem.
Deixe-me acrescentar que verifico que o Fernando pensa em termos de um quintal à beira-mar plantado, mas a economia hoje é bem mais vasta.
Não acredite nessa conversa de novo resgate. A era dos resgates já acabou. É história. Se assim não fosse a Itália já estava sob resgate, e outros mais.
Por último, um investimento vultuoso, mas rentável, não significa um desequilíbrio imediato nas contas públicas. Portanto, a questão deve ser equacionada sob a perspectiva contabilística – na forma como será lançado na contabilidade o investimento.
Por exemplo, eu posso avançar com dinheiro para adquirir bens que os lançarei como imobilizado. Porém eu ainda não tenho os bens, mas adiantei dinheiro. Eu estou perante uma situação contabilística de IMOBILIZAÇÕES EM CURSO, pelo facto de ter adiantado o dinheiro. Que desequilíbrio de contas detecta o Fernando neste procedimento contabilístico? Eu preciso entendê-lo para melhor responder.
Caro Vento,
Agradeço o seu comentário.
1. Uma “situação grave de tesouraria”, “não ter cash disponivel para mandar cantar um cego”, é estar às portas da bancarrota !…. Ter património, activos, margem fiscal, etc é um meio para tentar obter o financiamento necessário para evitar a bancarrota. Mas para tal é preciso que os financiadores os aceitem como garantia e/ou vendê-los/cobrá-los para realizar capital. Acontece que tal não se faz de um dia para o outro. É dificil com uma empresa. É ainda mais dificil com um pais. Se a Troika não tivesse aparecido com o dinheiro o nosso pais iria mesmo para a bancarrota. Que significaria concretamente que faltaria o dinheiro para o Estado continuar a assegurar o essencial das suas funções e para a economia continuar a funcionar sem afundar. A única diferença com a falência de uma empresa é que esta “fecha” ao passo que um pais não pode “fechar”. A assistência da Troika deu ao pais tempo para poder reorganizar a gestão dos seus activos, utilizando melhor uns, vendendo outros. De resto, foi um compromisso sobre o destino e a gestão destes activos, na forma de um programa de acção a ser executado pelo governo português, que serviu de garantia para o financiamento adicional que permitiu evitar a bancarrota.
2. O que o governo de Passos Coelho fez a seguir foi precisamente executar esse programa. Com alguns ajustes de percurso em função da evolução da realidade, aprovados e até sugeridos pela Troika, como é natural e razoável. Assim, houve austeridade (redução de gastos do Estado e aumentos de impostos), privatizações (venda de activos do Estado a privados, nacionais e estrangeiros), reformas estruturais na economia (mercado de trabalho, etc), etc, etc.
E foi graças a esse programa e à sua aplicação pelo governo anterior que o pais conseguiu evitar a bancarrota e sair da “situação grave de tesouraria”.
Este foi um resultado conseguido em apenas 3 anos, no qual muita gente, como o Vento, não acreditava, e que é reconhecido internacionalmente pela generalidade dos parceiros, entidades, investidores (mercados), e observadores.
É objectivo e é puro facciosismo politico pretender negá-lo.
(continua)
(continuação – 2a parte)
3. Diz o vento que o pais tem agora “muito menos” activos e “uma divida maior”. Ou seja, sub-entende que o custo foi demasiado elevado e não compensa o resultado.
Antes de mais convém não perder de vista que o custo foi uma condição para o pais poder escapar à bancarrota.
A alternativa era o Estado ter mantido a propriedade dos activos e não ter aumentado a divida (ou até mesmo anulando-a unilateralmente) mas com uma diminuição muito maior do nivel de bem-estar da população portuguesa.
Ou seja, o custo teria sido ainda maior e o resultado negativo em vez de positivo.
Mas vejamos mais de perto.
4. Quanto a activos, é verdade que, por via das privatizações, o Estado tem agora menos activos. Dizer “muito menos” é um exagero. Para mim tem ainda demasiados, que pode e deve vir a ceder aos privados no futuro. Sobretudo, e é positvo que assim seja, tem ainda o essencial dos activos que são a base da estrutura do Estado (território público, património imobiliário, escolas, hospitais, equipamentos, infra-estruturas, etc, etc).
De qualquer modo, os activos vendidos permitiram melhorar as contas do Estado, o que era desejável e correspondia a um compromisso com os credores, e, ainda por cima, ao passarem para o sector privado, passaram a ser geridos com mais critério e eficiência e com menos custos para os contribuintes, o que é bom para o pais em geral.
Ou seja, a privatização de activos consistiu numa mudança de propriedade dos mesmos mas não os fez desaparecer na medida em que continuam no pais (não sairam recursos para fora do pais) e continuam a ser activos produtivos do pais, por sinal melhor alocados agora do que estavam antes.
(continua)
(continuação – 3a parte)
5. Quanto à divida.
Refere-se certamente à divida do Estado porque, como sabe, a divida privada, das familias e das empresas, até desceu nos últimos anos.
Este argumento, batido e rebatido pelos criticos do governo anterior, é verdadeiramente espantoso !!…
Não poderia ter sido de outro modo !… (A não ser que a divida fosse parcialmente ou totalmente perdoada, mas isso, admitindo que se pudesse verificar, o que era altamente improvável, seria então um cenário completamente diferente.)
O que é certo é que o empréstimo da Troika implicava automáticamente um aumento da divida pública.
Porque sim, porque um empréstimo é sempre mais divida.
Porque servia para o pais poder ir pagando os juros da divida acumulada anteriormente e para pagar o resto do déficit orçamental (incluindo os juros da divida adicional).
Continuando o pais a ter orçamentos deficitários, mesmo que menos deficitários do que antes, era aritméticamente inevitável que a divida acumulada continuasse a subir.
O que é curioso, e revelador, é que aqueles que criticam o governo anterior pelo aumento da divida pública são práticamente os mesmos que achavam que a Troika deveria ter aceite que as metas para o déficit fossem menos exigentes. Ou seja, que os déficits deveriam ter sido … maiores !!…
Mas a divida tinha ainda de subir porque a Troika exigiu, e o governo aplicou, que toda uma série de dividas “dispersas”, nomeadamente das empresas públicas, fossem orçamentadas e acrescentadas à divida oficial do Estado.
E, finalmente, também subiu porque, ao contrário do se tinha passado até 2011, quando o Estado não tinha “cash disponivel para mandar cantar um cego” e teve de ir pedir ajuda com as calças na mão, o governo anterior constituiu uma “almofada financeira” (os tais “cofres cheios” que foram alvo da galhofa de tantos “iluminados” !…) que deu folga às finanças e, sobretudo, condições para ir restruturando progressivamente a divida junto dos mercados (e não através de um qualquer improvável perdão “envenenado” e “suicida”).
Mesmo assim, a divida publica portuguesa subiu o que tinha mesmo de subir e, graças ao programa da Troika e à acção do governo anterior, nem subiu tanto quanto isso.
Estima-se que em meados de 2011 a divida pública efectiva, isto é, corrigida, deveria situar-se nos 110% do Pib da altura e sabe-se hoje que, com os mesmos critérios, no final de 2015 estaria ligeiramente abaixo dos 130% do Pib da altura (o qual, em termos reais, ainda é inferior ao de 2011).
Ou seja, apesar das condições extremamente dificeis decorrentes da quase bancarrota, incluindo a recessão, e em apenas 4 anos, a progressão exponencial da divida pública foi estancada, foi estabilizada, e começou mesmo a descer em % do Pib.
E, tão ou mais importante, o stock da divida deixou de ser critico, com taxas de juro elevadissimas, e passou a ser gerivel, com taxas de juro históricamente baixas (já foram mais baixas antes da chegada do governo actual).
A recuperação do crédito do pais é precisamente um dos melhores resultados do governo anterior.
Vamos agora ver o que é que o governo actual vai fazer desta “herança”.
Ainda é cedo para fazer balanços mas os primeiros sinais não são entusiasmantes e apontam para um maior aumento da divida em valor absoluto e relativamente ao Pib.
Afinal !!!…
E assim apenas consegui comentar o primeiro parágrafo do seu comentário.
Procurarei dizer ainda alguma coisa sobre os outros logo que possa e se ainda for em tempo útil.
Saudações cordiais.
Vamos então clarificar o seu comentário ao 1º. parágrafo.
Em Julho de 2012 foi divulgada esta notícia do Eurostat: a-publica-portuguesa-nos-190-mil-milhoes-e-3-m aior-da-uniao-europeia-2681327.html
http://www.jn.pt/economia/interior/divid
Vamos aos dados a partir do programa de ajustamento (recordo que o empréstimo veio por tranches):
Em Abril de 2011 – pode informar-se aqui: http://www.igcp.pt/gca/?id=86 – a dívida representava 158 mil milhões.
O valor total do empréstimo foi 78 mil milhões.
Excluindo o valor do empréstimo, em Março de 2011 a dívida representava 152 mil milhões (consultar dados do IGCP).
Em Março de 2015 o valor da dívida à troika representava cerca de 75 mil milhões (creio que 74,6) e a outras entidades 142 mil milhões (num total de 221 mil milhões. Nota: outros dados referem 224 mil milhões)
Portugal vendeu cerca de 9,5 mil milhões de seus activos: http://economico.sapo.pt/noticias/mais-d e-nove-mil-milhoes-com-privatizacoes_220 748.html
Pagou à troika 16 mil milhões. Isto é, pediu 78 mil milhões, vendeu 10 mil milhões e pagou 16 mil milhões. Ainda no isto é, vendeu 10 mil milhões para pagar 16 mil milhões e deve à troika mais de 74 mil milhões de euro.
O stock da dívida aumenta cerca de 66 mil milhões em pouco mais de 4 anos. 1-10-Divida-publica-ultrapassou-em-setem bro-estimativa-para-todo-o-ano-segundo-a-U TAO
Ver aqui o stock da dívida pública EM NOVEMBRO DE 2014:
http://sicnoticias.sapo.pt/economia/2014-1
Mas em matéria de endividamento é necessário distinguir o que é endividamento canalizado para investimentos e o endividamento ocasionado pelo governo PSD/CDS sem investimento. Aliás, PSD/CDS pagam dívida e adquirem receitas à conta de investimentos anteriores. Ou seja eles aumentam dívida NÃO por inércia e amortizam-na POR inércia DOS RECURSOS RESULTANTES de investimentos feitos anteriormente. e-passos-nao-disse-divida-cresceu-mais-r apido-no-seu-governo/
Já agora:
http://www.dinheirovivo.pt/economia/o-qu
Encerramos esta equação até que o Fernando apresente dados que a refutem.
Diz que aumentou a cobrança. Veja agora aqui: icao-da-divida-ao-fisco-em-cobranca-coer civa-aumentou-200_238185.html
http://economico.sapo.pt/noticias/prescr
Mas veja também o que origine a dita “eficácia” que tanto enaltece: omia-paralela-em-portugal-ja-vale-mais-d e-metade-do-emprestimo-pedido-a-troika_n 683121
http://www.rtp.pt/noticias/economia/econ
http://www.jn.pt/economia/interior/econo mia-paralela-ja-vale-mais-de-metade-dos-7 8-mil-milhoes-pedidos-a-troika-3440487.h tml
Pretendi ser telegráfico para evitar muitas palavras.
Aguardo a continuação de seus comentários, e também sua resposta a minha pergunta.
Só para acrescentar que dificuldades de tesouraria não significa estar próximo da bancarrota.
Bancarrota é uma situação em que o valor dos activos mais as receitas geradas pela actividade não cobrem os compromissos assumidos.
Ainda mais, eu posso ter um défice comercial e financeiro numa qualquer empresa ou país num determinado ano fiscal (valores acumulados e/ou consolidados) e nos anos seguintes a actividade poder gerar o abatimento do défice.
Dificuldade de tesouraria, por exemplo, é uma situação gerada pelo facto das receitas provenientes da actividade não serem pagas em tempo útil para satisfazer os compromissos firmados. Isto é, eu tenho o dinheiro nas mãos de outros.
Portanto, sejamos conscientes do significado técnico das palavras.
Vento : “Bancarrota é uma situação em que o valor dos activos mais as receitas geradas pela actividade não cobrem os compromissos assumidos.”
Falta precisar que se trata do “valor dos activos” realizáveis dentro do prazo útil para “a cobertura dos compromissos assumidos”…
Era a situação do Estado português caso não tivesse existido o resgate da Troika.
A tesouraria daria então para apenas 2 semanas !…
Por isso eu disse “estar às portas da bancarrota”.
Vento : “Dificuldade de tesouraria, por exemplo, é uma situação gerada pelo facto das receitas provenientes da actividade não serem pagas em tempo útil para satisfazer os compromissos firmados. Isto é, eu tenho o dinheiro nas mãos de outros.”
É bem mais do que “dificuldade”, é “ruptura” !…
O “dinheiro nas mãos dos outros” que não se consegue recuperar a tempo é mal parado e não resolve rupturas financeiras.
Neste caso, se não existir um acordo de última hora com os credores, segue-se o processo de falência !
Mas olhe, caro Vento, não vamos passar aqui o tempo a discutir o exacto significado do termo “bancarrota” aplicado ao Estado de um pais.
O que importa é que em 2011 o pais estava de pantanas e foram precisos anos de sacrificios dos portugueses e reformas dificeis para o tirar daquela situação critica.
Caro Vento,
Tudo o que diz não altera em nada o que é uma evidência objectiva : a divida pública cresceu porque não podia não ter crescido e, mesmo assim, cresceu menos do que teria acontecido sem o programa de austeridade e ajustamento negociado com a Troika e implementado pelo governo anterior.
A divida publica liquida do Estado era a 31/05/2011 de 164,3 mil milhões e a 31/12/2015 de 217,8 mil milhões.
Ou seja, aumentou cerca de 53,4 mil milhões.
Sendo que 39 mil milhões correspondem ao acumulado dos défices orçamentais anuais.
O remanescente, cerca de 13 mil milhões, inclui o alargamento do perimetro da divida e a “almofada financeira”.
Uma parte do déficit orçamental acumulado resulta da existência de saldos primários negativos até ao final de 2013.
Mas estes saldos negativos foram sendo significativamente reduzidos e desde 2014 passaram a ser positivos.
Para este resultado contribuiram naturalmente os 10 mil milhões de vendas de activos do Estado.
Mas a parte restante, cerca de 30 mil milhões, foi conseguida com medidas de austeridade, diminuição de gastos públicos e aumentos de impostos, e ainda graças à diminuição das taxas de juro que resultou da recuperação da credibilidade do pais.
Deste modo, a média anual dos défices orçamentais nominais acumulados nos últimos 4 anos foi reduzida para menos de metade do que era em 2010.
Mas, por mais que se fizesse, era completamente impossivel evitar o aumento da divida acumulada durante estes anos de emergência financeira e ajustamento económico.
Não nos esqueçamos que, apesar de se ter verificado uma significativa e constante melhoria dos saldos primários, uma parte significativa do défice nominal teve a ver com o pagamento de juros relativos à divida anteriormente acumulada e à nova divida liquida (de reembolsos) resultante da ajuda financeira para evitar a bancarrota.
O que conta é que, mesmo com a divida acumulada a aumentar por força das consequências dos erros do passado, o ritmo deste aumento foi contido e a divida foi finalmente estabilizada em 2015.
Ainda mais importante, a qualidade da divida portuguesa, que era péssima e insustentável em 2011, foi sendo recuperada ao longo dos 4 anos e passou a ser sustentável nos mercados desde 2014.
Pudesse o governo actual não desbaratar este resultado e continuar o processo de progressiva recuperação da situação financeira e económica do pais !!!…
Caro Vento,
Comentando agora outro dos assuntos por si referidos.
6. A questão do TGV.
Eu também, julgo que como quase toda a gente, gostaria que um dia o nosso pais tivesse um TGV.
Mas espanta-me que “desenterre” e politize agora este assunto.
Pensei que mesmo os socialistas já tinham percebido que, nas condições financeiras em que o pais se encontrava em 2011 e, embora melhor, ainda se encontra hoje, não fazia nem faz ainda sentido estar a pensar na construção do TGV.
Diz que o dinheiro “aparece” !!…
Duvido muito que “aparecesse” em 2011 com o pais na bancarrota. Não vejo os contribuintes alemães a estarem de acordo com o financiamento deste tipo de mega projectos em paises na situação do nosso.
É menos improvável que possa “aparecer” hoje ou nos próximos tempos. Porque o pais tem hoje mais crédito. Porque a UE tem previstos projectos infra-estruturais nesta área que podem eventualmente chegar a Portugal.
Mas a grande questão é a de saber se e quando é que o pais pode estar em condições de arcar com a sua parte no serviço da respectiva divida.
Porque mesmo que o dinheiro “apareça” é preciso depois pagar o seu custo e reembolsar atempadamente o que for para reembolsar.
Se a Merkel, o Hollande, o Juncker, e outros garantirem que a construção do TGV em Portugal se faz sem responsabilidades financeiras imediatas e para o futuro do Estado português, então eu também estou de acordo.
Mas não é sequer o caso do que está previsto no Plano Junker nem é previsivel que, nas condições actuais, o venha a ser.
Este tipo de projectos europeus implicam sempre um certo nivel de comparticipação directa do Estado nacional.
Já não falando noutros custos induzidos fora do projecto (por exemplo, infra-estruturas urbanas complementares, etc).
Teremos provávelmente um TGV quando a economia do pais estiver em condições de arcar com os custos que lhe competem.
Entretanto temos é de procurar tratar do que é agora prioritário : requilibrar e ajustar a nossa economia.
Estimados Vento e FernandoS,
Se olharem com algum distanciamento para os lençóis de texto que têm trocado nesta caixa de comentários, verão que a razoabilidade e o bom senso ficaram lá atrás. Não tanto por conteúdo inapropriado, mas sobretudo pela frequência e extensão dos comentários, que já nada têm já que ver com o post (e cujas notificações me chegam a qualquer hora do dia ou da noite). Sendo assim, lamento, mas não libertarei mais comentários vossos a este post.
Na esperança de que compreendam,
Cumprimentos,
DN.
Cumprimentos também para si.
Só não entendo essa do bom senso para quem tem vindo a aceitar comentários a comentários.
O seu post, como o de todos os outros, não obriga a uma atenção exclusiva ao que aí produz; e como existe uma solicitação explicita para se comentar quer o post quer os comentários não vejo que tivesse existido falta de senso por minha parte ao responder ao Fernando e tampouco por parte do Fernando.
Com certeza que o compreendo. E da minha parte não verá mais comentários para além desta chamada de atenção.
Diogo Noivo,
Não, não compreendo em absoluto.
Gostando de ler os seus posts e estando de acordo com muito do que diz, fico ainda mais surpreendido e acho profundamente lamentável o que decidiu fazer.
Não é verdade que os comentários não tenham nada a ver com o post. Trata-se de uma discussão originada pelo assunto do seu post.
Mas, seja o que for, não percebo que mal é que lhe faz. Outros, no seu lugar, ficariam satisfeitos por vêr que um dos seus posts é o mote e o espaço para uma discussão sustentada e que, para mais, o que nem sempre é o caso na blogosfera, é feita por pessoas que, embora discordando, se respeitam e respeitam.
Imagino que para si seja indiferente ou até mesmo, como se vê, um alivio, mas fica desde já a saber que não tenciono voltar a comentar mais nenhum dos seus posts e respectivos comentários.
Passe bem.
Mr. Hyde emigrou para parte incerta. E o Dr. Jekyll remete-se ao silêncio.